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sábado, 13 de outubro de 2018

Ready Player One - Jogador 1, de Ernest Cline

Sinopse:

Em 2044 o mundo tornou-se um lugar triste, devastado por conflitos, escassez de recursos, fome, pobreza e doenças. Wade Watts só se sente feliz na realidade virtual conhecida como OASIS, onde pode jogar e apaixonar-se sem constrangimentos. 

Quando o criador do OASIS morre, deixa a sua imensa fortuna e o controlo da realidade virtual a quem conseguir resolver os enigmas que aí escondeu. Os utilizadores têm apenas como pistas a cultura pop dos anos 1980. 

Começa assim uma frenética e perigosa caça ao tesouro.

Nos primeiros anos, milhares de jogadores tentam solucionar o enigma inicial, sem sucesso. Até que Wade, por acaso, desvenda a primeira chave. De um momento para o outro, vê-se numa corrida desesperada para vencer o prémio, uma corrida que rapidamente continua no mundo real e que põe em risco a sua vida. (in Goodreads)




Opinião:

Depois de ter visto o filme e de ter ficado completamente apaixonada, foi com grande entusiasmo que comecei a ler o livro. E, apesar de ser muito, muito diferente em relação ao filme, ambos conseguiram preencher todas as minhas expectativas em relação à história. São os dois tão diferentes, mas tão perfeitos! 

Tudo no livro é bom. Wade, ou Parzival, é um doce, e a sua evolução enquanto personagem, a todos os níveis, é muitíssimo grande. Art3mis também é uma personagem cheia de garra e força, uma rapariga muito fixe e de princípios, que ajuda Parzival na sua luta, mesmo que por vezes se ericem um com outro de uma maneira muito engraçada. Depois as outras personagens também são extraordinárias, incluindo o grande vilão individual (pois o vilão principal, a meu ver, é a corporação IOI no seu total), Sorrento, que dá gosto odiar. 

A ação é pura adrenalina. O livro lê-se num instante e o leitor sente-se completamente agarrado e invadido pela sensação de loucura da própria ação e pela escrita eletrizante. Tem muita emoção, diversão e aventura. É uma história que, à partida, pode parecer um tanto estranha, centrada no mundo dos videojogos e da cultura pop, em especial da década de 80, mas que é um hino à vontade de lutar, de não desistir e de fazer frente ao poder. É também uma forte crítica à sociedade atual e uma perspetiva de um possível futuro que tem como pano de fundo um cenário onde o virtual é mais importante do que o real, mesmo que essa seja uma grande mentira. 

Gostei muito da forma como as referências culturais vão aparecendo ao longo da obra e da forma como acabam por dar corpo ao enredo. Também foi um dos fatores que me fez ficar completamente fascinada pelo livro. 

As descrições estão excelentes, com detalhes quando é necessário, sem eles quando não o é. O autor é sucinto na sua abordagem, o que promove uma escrita fluída e uma leitura rápida e frenética. 

Este é, sem dúvida, uma das grandes leituras deste ano. Recomendo vivamente! 

NOTA (0 a 10): 10

sábado, 19 de maio de 2018

Caraval, de Stephanie Garber

Sinopse:

Caraval. Lembra-te, é apenas um jogo...

Scarlett Dragna nunca saiu da pequena ilha onde ela e a irmã, Tella, vivem sob a vigilância do seu poderoso e cruel pai. Scarlett sempre teve o desejo de assistir aos jogos anuais de Caraval. Caraval é magia, mistério, aventura. E, tanto para Scarlett como para Tella, representa uma forma de fugirem de casa do pai. 

Quando surge o convite para assistir aos jogos, parece que o desejo de Scarlett se torna realidade. No entanto, assim que chegam a Caraval, nada acontece como esperavam. Legend, o Mestre de Caraval, sequestra Tella, e Scarlett vê-se obrigada a entrar num perigoso jogo de amor, sonhos, meias-verdades e magia, em que nada é o que parece. Realidade ou não, ela dispõe apenas de cinco noites para decifrar todas as pistas que conduzem até à irmã, ou Tella desaparecerá para sempre... (in Goodreads)



Opinião:

Estava à espera de ler este livro desde que saiu. Uma capa maravilhosa, uma sinopse apetitosa. Lembrei-me logo d' O Circo dos Sonhos, de Erin Morgenstern. Pois, lembrei-me aí e durante toda a leitura. Comecei com grande entusiasmo, mas cedo comecei a deixar de o ter. Não me conseguiu cativar. 

As personagens são interessantes, mas a personalidade de Scarlett e a forma como vai contando a história não me cativaram. Achei-a um tanto repetitiva. Também estava à espera de algo mais vindo das outras personagens e a única que realmente me agradou foi o Legend, com todo o mistério em seu redor. Acho que as personagens podiam estar mais desenvolvidas, serem mais complexas. Talvez no segundo volume tal aconteça. 

Em relação ao contexto, a meu ver a autora criou uma história com enorme potencial, que podia ter sido melhor aproveitado. Talvez esperasse mais emoção, mais suspense e algo mais forte. O livro é para um público mais jovem, portanto pode ser por isso que não seja tão "dark" como o contexto pedia. Há algumas partes que estão bem interessantes, mas depois vêm as descrições dos fatos da Scarlett e sente-se alguma futilidade ali no meio de algo que podia ser bem mais complexo e interessante. No entanto, não quero com isto dizer que a história é má. Não! É uma excelente história, mas podia estar melhor. 

As descrições de Caraval são boas e ricas em detalhes que contextualizam bem o ambiente. Gostei desses momentos e achei-os muito bem escritos. Depois, como já referi anteriormente, há as descrições das roupas e isso pareceu-me demasiado. São muitos vestidos, muitos detalhes...Sei que as roupas são importantes para a perceção emocional e dramática de Caraval porque refletem e estado de espírito das personagens e isso tudo, mas mesmo assim, achei-as excessivas. 

Gostei da forma como a história se foi desenrolando e encontrei nisso maturidade. No entanto, esperava um final mais emocionante. Existem partes muito interessantes ao longo da narrativa apesar de não me ter fascinado. Não fiquei seduzida pelo romance entre as personagens e penso que isso também não me deixou ficar agarrada à narrativa. 

Em suma, Caraval é um local mágico, interessante, rico e dinâmico. Podia ter sido melhor explorado, as personagens podiam ser mais maduras e menos irritantes e lamechas, podia haver um desenvolvimento mais complexo, tanto a nível das personagens como da própria história. Recomendo a todos os que gostam deste género de aventuras! 

NOTA (0 a 10): 6

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Rebecca, de Daphne du Maurier

Sinopse:

Publicado em 1938, Rebecca é talvez o romance por que Daphne du Maurier é hoje mais lembrada. Ao lê-lo entramos numa atmosfera onírica, sombria, alimentada por segredos que os códigos sociais obrigam a permanecer ocultos e que se concentram na misteriosa mansão Manderley. É para esta mansão que a narradora, uma jovem humilde, vai viver com o viúvo Maxim de Winter, ao aceitar o seu pedido de casamento. Mas então descobre que a memória da falecida esposa, Rebecca, se encontra ainda viva e que esta era tudo o que ela nunca será. À medida que o enredo se desenvolve, ela terá de redefinir a sua identidade num cenário em que os sonhos ameaçam tornar-se pesadelos... (in Goodreads)



Opinião:

Este é o segundo livro da autora que leio. Comecei pelo A Minha Prima Raquel e gostei muito. Todo aquele ambiente de tensão, mistério e intriga, fez com que ficasse apaixonada pela escrita da autora. Assim, foi com grande expectativa que entrei neste livro e só posso dizer que foi ainda melhor! 

Rebecca apresenta-nos uma história de amor e mistério, contada na primeira pessoa, onde nós vamos descobrindo o passado das personagens e da casa, Maderley. A narradora, cujo nome próprio nunca se fica a saber, começa a narrativa partindo do presente para o passado, onde nos apresenta o começo da sua vida de casada e como conheceu Mr. de Winter, o dono de Marderley. Através da história da segunda mulher de Mr. de Winter, conhecemos Rebecca, a primeira mulher, aquela de quem todos gostavam, a perfeita. A comparação entre a narradora e Rebecca começa a assombrar a relação e isso leva a que outros factos se descobram. 

Escrito como uma mestria incrível, Rebecca é uma viagem pelos meandros da mente humana, da paixão e do mistério. Com personagens fortes e complexas, aquela que menos gostei foi a narradora, por causa de algumas das suas decisões face a outras atitudes de várias personagens. Achei-a tímida e demasiado acanhada. No entanto, teve um desenvolvimento interessante e amadureceu. Mr. de Winter, apesar de tudo, mostrou-se uma personagem apaixonada, febril e complexa, que deu tudo o que tinha a dar à história, fazendo com que o mistério seja ainda mais denso. A governanta, Mrs. Danvers, consegue ter um papel muito forte e perturbador, que tira o folego em vários momentos. Mas é Rebecca quem dá vida à história. É o seu passado, a sua história, que move toda a trama e que nos agarra sem compaixão à narrativa. Rebecca, a perfeição, a beleza, aquela que todos queriam e amavam. É ela o coração do enredo, tal como a sua história com Maxim (Mr. de Winter). 

É um bom mistério, com amor, belas descrições, intriga, sedução e uma escrita mágica e envolvente.Uma história com todos os ingredientes que formam algo poderoso e arrebatador e que nos fazem querer devorar o livro. Sem dúvida, uma história a guardar no coração e na mente. 

Recomendo totalmente, a todos os que gostam de um livro forte, arrebatador, cheio de personagens complexas e cheias de pujança. É, de facto, um mistério muito bem conseguido e maravilhosamente bem escrito! 

NOTA (0 a 10): 10

sábado, 30 de dezembro de 2017

Mitologia Nórdica, de Neil Gaiman

Sinopse:

Neste livro, Neil Gaiman faz um reconto de várias lendas da mitologia nórdica, dando a conhecer vários dos deuses nórdicos e das suas aventuras. Odin, Thor, Loki e muitos outros, são as personagens destas lendas, que vão fazer o leitor viajar plena e apaixonadamente através destes mundos tão vastos, fantásticos e únicos. 

Emoção, diversão e muita aventura, são os principais ingredientes deste livro de Gaiman. São histórias conhecidas de quem segue estes temas, mas contadas com o olhar especial deste autor, que é sempre especial. 



Opinião:

Este não é o primeiro livro que leio sobre este tema, nem o primeiro com estas personagens. Dentro da mitologia nórdica, a nível literário, comecei com os livros da Joanne Harris (A Marca das Runas, A Luz das Runas, The Gospel of Loki). Mitologia Nórdica, de Gaiman, dá-nos várias histórias com os deuses nórdicos, as mais conhecidas e aquelas que foram ficando de geração em geração. Numa nota introdutória, o autor apresenta a história sucintamente e de forma magistral. Assim, este livro é um género de antologia de histórias desta mitologia, que nos dão a conhecer várias aventuras em que Thor, Loki, Odin e outros, aparecem para contar histórias. São várias, todas excelentes, muito bem contadas. Gaiman refere-o, e muito bem. Este é um livro para pegar, ler, contar. São histórias para serem contadas à lareira, num dia de frio, ou não, para fazer sonhar, divertir ou espantar. São histórias que muitos já conhecem, mas que são sempre boas de voltar a conhecer, porque há sempre algum detalhe, algo novo. É um mimo, este livro! 

O livro tem várias histórias, sendo que começa com aquelas que contam o começo do mundo até à que conta o final, o Ragnarok. São histórias pequenas e dei por mim a tentar abrandar a leitura para poder saborear cada bocadinho. Já as conhecia, principalmente do livro The Gospel of Loki, que tem praticamente as mesmas histórias, mas contadas na perspetiva do Loki, o que torna o livro bastante mais emocionante, uma vez que dá a perspetiva desta personagem. Não estou com isto a dizer que esta versão de Gaiman não é interessante, longe disso! São diferentes, apesar de contarem praticamente o mesmo. 

As personagens são os deuses nórdicos e os mais conhecidos estão em destaque, se bem que também aparecem outros que neste livro tomam também o seu lugar. Loki e Thor são as personagens que mais aparecem, sendo que são aquelas que aparecem em mais aventuras e que as desencadeiam, em especial, Loki. Gosto muito das personagens e já sabia o que lhes acontecia no final, mas voltei a emocionar-me como se não soubesse o que ia acontecer. Gaiman consegue, como em todos os seus livros, dar vida a tudo na narrativa. Consegue dar um toque especial, ele inflama tudo de emoção, descreve e escreve de modo a criar um clima espetacular, ele cria os climas perfeitos para todos os momentos, o que faz o leitor cair na história. É como se mergulhasse no enredo e fluísse no rio que ele é. Acompanhei as personagens em todas as suas aventuras e estive lá com elas. As últimas histórias são bastante fortes, e isso sente-se violentamente. 

A escrita do autor é uma maravilha. Ele pega na mão do leitor, caminha com ele para a história, mostra-lhe o contexto todo, as personagens...e depois... depois abandona-o ali, no meio de tudo e deixa-o à mercê dos acontecimentos da narrativa, para que viva uma experiência intensa e única, rica em detalhe e, especialmente, em emoção. 

Os livros de Gaiman conseguem sempre ter uma magia especial e este não é excepção. Gostei muito de todas as histórias, gostei do cariz próprio que o autor lhes deu e a forma como pintou as personagens, que se assemelham bastante às da Marvel, mas com o seu cariz especial. Um livro para todas as idades, se bem que haja momentos bastante fortes. 

Recomendo a todos os que gostam de histórias, de Gaiman, de aventuras, de emoção, de diversão. Há histórias para todos os gostos. Muitas delas deixam o leitor a rir-se às gargalhadas, muitas deixam-no aflito e preocupado e muitas deixam-no espantado. Um livro fantástico e muito bem conseguido.

NOTA (0 a 10): 10 

sábado, 9 de dezembro de 2017

A Minha Prima Rachel, de Daphne de Maurier

Sinopse:

Sem sequer nunca se terem encontrado, Philip odeia Rachel, com quem Ambrose, seu primo, casou durante uma estadia em Itália. E quando este lhe escreve e lhe transmite a suspeita de que a mulher o quer envenenar, Philip não sente quaisquer dúvidas.

Ambrose morre em circunstâncias pouco claras e Philip jura vingar a sua morte. Semanas depois, Rachel visita-o na sua propriedade da Cornualha, e a animosidade que Philip sentia por ela vai dando lugar a um fascínio incontrolável. Quem é Rachel, afinal? Uma mulher realmente apaixonada? Ou movida por interesses pessoais? 

Daphne du Maurier confirma nesta obra o seu enorme talento para escrever histórias com uma grande riqueza narrativa, suspense intriga permanentes e uma apurada caracterização das personagens. Um romance clássico, cativante, com uma escrita belíssima. (in Goodreads)



Opinião:

Aqui está um livro que me surpreendeu. Não o conhecia, apesar de já ter lido sobre o filme, que acabei por ver enquanto o lia. Já tinha lido algumas opiniões sobre Rebecca, mas ainda não tinha tido aquele desejo de ler A Minha Prima Rachel. Mas ainda bem que o descobri, porque foi uma leitura sublime, cheia de emoção e surpresa. 

A Minha Prima Rachel conta a história da prima de Philip e do mistério que a envolve. Philip, um jovem rapaz da Inglaterra rural, ao cuidado do seu primo, Ambrose, tem uma bela casa para administrar e cuidar. O seu primo, depois de partir para a Itália em busca de uma saúde melhor por causa do clima, casa com Rachel, uma mulher com um passado escondido, cujo primeiro marido fora morto em duelo. Quando Philip começa a receber cartas de Ambrose cujo conteúdo é dúbio em relação a Rachel, Philip começa a desconfiar da prima. E quando Ambrose morre doente, Philip acredita que foi Rachel que o envenenou. Mas, quando Rachel aparece na sua casa, o que era certeza acaba por tornar-se nalgo mais complexo e Philip vê-se num complexo jogo do qual não sabe sair. 

Uma história muito bem contada, repleta de mistério, suspense, intriga, romance e com uma narrativa maravilhosamente orquestrada, cuja escrita é soberba e muitíssimo acutilante. A autora criou uma aura de mistério numa história aparentemente óbvia e plana. Pelos olhos e palavras de Philip, o leitor entra na vida daquelas personagens, torna-se parte do cenário e do enredo e consegue assim seguir os passos de Rachel, ou antes, aqueles que Philip acredita serem os seus interesses, porque Rachel começa e termina por ser uma das mais misteriosas personagens da Literatura, cujos segredos e razões são um mistério. 

Em relação às personagens, só tenho a referir que são todas maravilhosas. Por mais normais que sejam, por mais comuns, todas elas são de uma complexidade ínfima, sendo Rachel a mais complexa de todas. Philip também tem o seu fascínio. O seu amadurecimento tem muitos altos e baixos e não tem um crescimento linear. É confuso e complexo e nem ele mesmo se compreende muito bem, pois é bastante imaturo. Com mudanças de humor que fazem com que a leitura seja uma montanha russa de emoções, uma vez que é ele o narrador, Philip leva o leitor para um mundo de sombras e segredos. Começa por apresentar Rachel como uma bruxa, uma assassina, para depois se apaixonar por ela e dar a conhecer uma Rachel que pode ser verdadeira, mas que está bem escondida, terminando por mostrar uma Rachel que é um mistério maior do que aquilo que foi parecendo ao longo de toda a narrativa. 

A forma como ele narra a história permite criar um clima tenso, elétrico e sombrio, o que faz com que o leitor esteja sembre num sobressalto e na tentativa de descobrir o que aconteceu e quais são os motivos de Rachel. É uma história de mistério, e o mistério está muito bem criado e muito bem conseguido, pois não é linear, nem fácil de entender nem de esclarecer. Aliás, o que parece ser logo muito fácil, acaba por se ir enevoando ao longo da leitura, deixando o leitor na dúvida até depois de terminar o livro. E foi isso mesmo que me conquistou, para além das personagens, da narrativa, da escrita... foi a perfeita dúvida quanto a Rachel e como a autora conseguiu deixá-la ser um mistério. 

Com uma escrita simples, mas cheia de detalhes e com uma clareza excelente, a autora dá a conhecer aquilo que é importante para a história em si e aquilo que é importante para o lado sombrio do enredo. Descrições fortes, belas e poderosas, diálogos elevados e cheios de emoção, fazem de A Minha Prima Rachel um livro belíssimo, que, a nível da escrita, fez-me lembrar Longe da Multidão, de Thomas Hardy.  

Um dos melhores livros que li este ano, sem dúvida. O filme, apesar de ter um final um tudo diferente, não lhe chega nem perto. Está interessante, mas o livro é muito melhor, na minha opinião. Recomendo vivamente! Uma história para ler com calma e saborear, apesar da narrativa e da escrita em si darem vontade de o devorar. Um livro belíssimo, com personagens únicas, mistério, romance...tudo aquilo que faz de uma história, uma obra de arte. 

NOTA (0 a 10): 10

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, de J.K. Rowling, John Tiffany e Jack Thorne

Sinopse:

Baseada numa nova história de J.K. Rowling, John Tiffany e Jack Thorne, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada - a nova peça de teatro de Jack Thorne -, cuja estreia mundial decorreu no West End, em Londres, no passado dia 30 de julho, é a primeira história oficial de Harry Potter a ser apresentada na versão teatral. 

Foi sempre difícil ser Harry Potter e não é mais fácil agora que ele se tornou num muito atarefado funcionário do Ministério da Magia, casado e pai de três crianças em idade escolar. 

Enquanto Harry luta com o passado que se recusa a ficar para trás, o seu filho mais novo, Albus, tem de se debater com o peso de um legado que nunca desejou. Quando o passado e o presente se cruzam, pai e filho confrontam-se com uma desconfortável verdade: por vezes as trevas vêm de lugares inesperados. (in Goodreads)


Opinião:

Depois de uma longa espera e que durante tanto tempo nem espera foi porque não se esperava mais livros da saga, foi com enorme expectativa e alegria que me vi a pegar novamente num livro do Harry Potter, num livro novo, já que por vezes gosto de reler os outros.

Dezanove anos depois do final d' Os Talismãs da Morte, este livro foca-se em Albus Severus, o segundo filho de Harry e Ginny. Albus não se acha parecido com o seu pai, não se acha nada heróico e quando é colocado nos Slytherin então ainda fica mais confuso. Sem amigos, sem o brilho que se esperava dele e sem coragem aparente, Albus esconde-se e dedica-se apenas ao único amigo que tem, o único filho de Draco Malfoy: Scorpius, seu companheiro de equipa. 

Foi com grande alegria que comecei a ler o livro e foi com alguma surpresa que dei por mim completamente maravilhada com ele, pois confesso que estava com um bocadinho de receio por causa do livro ser em texto dramático. Acho que a autora devia ter escrito um livro narrativo, com todos os detalhes e tudo o que se tem direito, mas esta história serviu para matar saudades e para reviver aquele mistério e expectativa em ler os livros do Harry Potter, mistério esse que já lá vai o tempo em que aconteceu no sétimo livro, lido pela primeira vez. Aquele bichinho dentro de mim, nas minhas mãos, coração e mente. Voltei a sentir isso e a dar por mim a "correr" para a leitura. 

As personagens estão excelentes, o que não é nada de espantar, uma vez que sempre foram. Gostei de ver onde e como estão as personagens, de como seguiram as suas vidas. Também gostei de conhecer as novas personagens. Gostei muito de Albus, mas gostei mais de Scorpius. Albus, por causa do seu conflito com Harry, fez-me, por vezes, sentir irritação face às suas ideias e ações. Encontrei em Scorpius alguém muito mais ponderado e doce, algo que sempre achei que havia nos Slytherin mas que não tinha sido explorado. Também a personagem mistério está muito bem, apesar de achar que podia ter sido melhor explorada e que podia ter tido um desfecho mais emocionante, depois de tudo o que fez. Estou a referir-me a Delphini Diggory.

Em relação à ação, tenho a dizer que esta está sublime. Mais uma vez encontrei aqui o clima perfeito, onde tudo faz parte de um plano, onde nada falha, como mil engrenagens numa máquina. É uma leitura fluída e rápida, mas que merece todo o carinho e atenção, especialmente por isso. Porque começa logo com aspetos que vão ser cruciais para compreender toda a história. É algo a que a autora sempre habituou os seus leitores e que mais uma  vez se apresenta aqui. O enredo tem alguma complexidade, porque o grande contexto é a utilização do Vira-Tempo para modificar certas situações no passado das personagens e da própria História: não deixar Cedric Diggory morrer no Torneio dos Três Feiticeiros e não deixar Voldemort tentar matar Harry Potter. Isto por causa de uma nova profecia que prevê o regresso de Voldemort. São criadas várias possíveis realidades alternativas aquando da modificação das situações no passado, e isso é muito interessante de observar, uma vez que podiam ter acontecido realmente.

As emoções e sentimentos estão sempre ao rubro ao longo da história. Conflitos pessoais, dilemas, dúvidas, preconceitos, velhos hábitos, receios, ódios, amores...tudo aqui está e todas as personagens têm algo a acrescentar à história. É uma história adulta, que se lê bem em qualquer idade. 

Quanto à escrita, não há muito a referir, uma vez que é texto dramático. As descrições necessárias vêm nas didascálias e só há falas. Porém, é como se estivesse tudo lá. É como se houvesse descrições e tudo isso. É totalmente possível regressar a Hogwarts, caminhar por lá, viver lá. E isso também acontece com os outros locais presentes na obra. 

É o típico livro que não se pode dizer muita coisa para não cair em spoilers, porque tudo o é e é tão bom saborear a sua leitura e sermos surpreendidos com os acontecimentos e com as personagens. Foi uma delícia regressar, de novo, a este mundo que está tão gravado no meu coração. O livro é tão bom, que até em peça de teatro cumpre todos os seus propósitos e continua a maravilhosa história que começou com A Pedra Filosofal. É uma maravilha! 

Assim, recomendo vivamente a todos os fãs de Harry Potter e a todos os que gostam de um bom livro. 

NOTA (0 a 10): 10

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Nove Mil Dias e Uma Só Noite, de Jessica Brockmole

Sinopse:

Março de 1912. A jovem poetisa Elspeth Dunn nunca saiu da remota ilha escocesa de Skye, onde vive, e é com grande surpresa que recebe a primeira carta de um admirador do outro lado do Atlântico. É o início de uma intensa troca de correspondência que culminará num grande amor. Subitamente, a Europa vês-e envolvida numa Guerra Mundial, e o curso normal das vidas é abruptamente interrompido. 

Junho de 1940. O Velho Continente vive mais uma vez o tormento de um conflito mundial e uma nova troca epistolar incendeia os corações de dois amantes,  desta vez o de Margareth, filha de Elspeth, e o do jovem piloto da Royal Air Force por quem se apaixonou. Cheio de glamour e de pormenores de época, este romance faz a ponte entre as vidas de duas gerações - os seus sonhos, as suas paixões e esperanças -, e é um testemunho do poder do amor sobre as maiores adversidades. 
 (in Goodreads)


Opinião:

Este é um livro diferente daqueles que costumo ler. Aliás, foi o primeiro livro escrito de modo epistolar que li. Não decidi apostar nele assim que saiu por causa disso mesmo, mas ainda bem que o decidi fazer agora, porque o livro é maravilhoso. 

A obra está dividida em partes cujo contexto é a 1ª Guerra Mundial e outras em que se está na 2ª Guerra Mundial, partes essas que vão interligando as personagens.

A forma como começa, todo o ambiente que se estabelece logo no início, o modo como as personagens nos apanham e nos agarram até ao fim e mais além, é absolutamente brilhante. 

Tudo começa com uma carta de David Graham, um jovem estudante universitário americano, admirador de Elspeth Dunn, poetisa da ilha de Skye, em março de 1912. A correspondência que se estabelece entre ele e Elspeth cedo começa a derivar para algo mais, que de qualquer modo não está explicito logo. Tudo começa por ser bastante casual e ligeiro, para depois passar para algo muito sério e até devastador, tendo em conta todo o contexto de ambos e a ida de David para a guerra. 

No contexto da 2ª Guerra, temos Margareth, filha de Elspeth, que se corresponde com o seu amado, piloto da força aérea inglesa. Depois de um bombardeamento, Margareth vê a sua mãe fugir e levar com ela todo um passado de cartas misteriosas, apenas deixando uma para trás, de um estranho (David). Margareth decide então descobrir mais sobre o passado da sua mãe, para assim poder descobrir o seu paradeiro. 

A história é muito bonita. Existe sempre um certo véu a cobrir os acontecimentos, deixando antever o que vai ser ou o que poderia ser, véu esse que acaba por ser destapado apenas no final e que faz com que o leitor esteja até ao fim na expectativa. O que esconde Elspeth? O que terá acontecido entre ela e David? Como terá sido a sua história? Onde estará ela, vinte e tal anos depois? E ele? Todas essas perguntas, que o leitor vai pondo ao longo da leitura, e a falta de respostas até ao final, faz aumentar muito a tensão emocional desta leitura. 

As personagens são espetaculares. É como se fossem mesmo reais, como se estivessem ali, a corresponder-se. E para o leitor, é como se se estivesse de fora, a observar, a intrometer-se numa história privada, linda e nostálgica. Gostei de todas as personagens, especialmente de Elspeth e David, por estão muito bem trabalhadas, muito humanizadas, muito complexas. São bastante reais, tal como os seus sentimentos e emoções. 

Quanto às descrições e à escrita, também só tenho a atribuir elogios. Estas estão escritas/descritas de uma forma maravilhosa, uma vez que a escolha de palavras está excelente e extremamente musical e poética. Aliás, os próprios sentimentos e emoções estão descritos de forma tão coerente e real que são muito belos e quase que são poesia em prosa. 

Em suma, esta é uma leitura muito bonita, que enaltece a alma e faz com que o leitor esteja sempre na expectativa. O contexto está muito bem trabalhado, a escrita é magnífica, as personagens são complexas e delicadas, ao mesmo tempo. É de grande beleza, uma obra prima. Recomendo sem reservas. 

NOTA (0 a 10):  10

sexta-feira, 13 de maio de 2016

As Horas Invisíveis, de David Mitchell

Sinopse:

Holly Sykes foge de casa dos pais para viver com o namorado. Embora pareça uma típica adolescente inglesa, é propensa a fenómenos paranormais. Durante a fuga, conhece uma mulher estranha que a alicia com um gesto amável em troca de asilo. Décadas depois, Holly compreende por fim que espécie de asilo a mulher procurava…

Este thriller empolgante de David Mitchell, aclamado autor de Atlas das Nuvens, acompanha a vida atribulada de Holly numa série de eventos que se cruzam por vezes de maneira indizível, pondo-a no centro de uma intriga perigosa jogada nas margens do mundo e da realidade. Dos Alpes suíços da Idade Média ao interior australiano do século XIX, culminando num futuro próximo distópico, As Horas Invisíveis é um romance caleidoscópico que nos oferece uma alegoria do nosso tempo. (in Goodreads)




Opinião:

Depois de ler Cloud Atlas - Atlas das Nuvens, estava à espera de gostar de todos os livros deste autor, porque a história em Cloud Atlas é tão diferente do que tenho lido, tão original e até mirabolante, que eu pensei que tudo o que o autor escrevesse seria assim: uma lufada de ar fresco e uma obra de originalidade. Enganei-me. 

Não retiro mérito algum ao livro. Ele tem os seus pontos fortes e compreendo quem gosta da história (eu queria ter gostado). O livro não é mau, de modo algum. É interessante e tem uma premissa original e excelente. A sinopse é maravilhosa e eu pensei mesmo que ia gostar. Mas eu não consegui gostar. E vou explicar porquê.

Quanto às personagens, comecei por gostar de todas. São interessantes, todas elas, cheias de complexidade. Foi o que mais gostei em todos o livro. Não era novidade nenhuma a capacidade de criação de personagens complexas e únicas e aqui não fiquei desiludida. 

Em relação ao contexto, também tenho a dizer que é bom. Começa cheio de ação, com muito mistério à mistura, até um tanto de thriller e tudo. Mas depois senti que a história começou a esmorecer um pouco. A força do início não continuou depois da primeira parte. Com alguns momentos altos depois dessa parte, até ao final foi algo linear e que não me surpreendeu. Estava à espera de mais ação e de mais originalidade. 

Depois há a linguagem. Acho que foi o que menos gostei. Não gostei muito da linguagem coloquial, achei que não era necessário. Se foi para dar mais veracidade ao livro, não fiquei convencida. Isso foi mudando ao longo da história, o que melhorou um pouco o contexto e o conteúdo, a meu ver. 

Toda a parte fantástica está interessante, mas estava à espera de mais. De muito mais. Estava à espera de um mistério mais denso, mais profundo e mais complexo. Acabou por não ser nada disso. 

Espero ler outros livros do autor, uma vez que gostei tanto do Cloud Altas, que tem uma beleza tão grande, que é como que uma fábula sobre o mundo e tudo o que nos rodeia, com ideais e carisma. 

Em suma, recomendo àqueles que gostam de David Mitchell e aos que gostam de experimentar autores ousados. Esperava mais deste livro e queria ter gostado dele. 

NOTA (0 a 10): 3

domingo, 3 de janeiro de 2016

Longe da Multidão, de Thomas Hardy

Sinopse:

Longe da Multidão é um dos romances mais conhecidos de Thomas Hardy. Narra a história de Gabriel Oak e da sua grande paixão pela bela, independente e enigmática Bathsheba Everdene, que chegou a Weatherbury como herdeira de uma vasta propriedade rural. Mas a jovem é também pretendida pelo sedutor sargento Troy e pelo respeitável agricultor de meia-idade Boldwood. Ao mesmo tempo que os destinos destes três homens dependem da escolha de Bathsheba, ela descobre as terríveis consequências do seu coração inconstante. O jogo das personagens, com as sumptuosas paisagens rurais como pano de fundo, contribuiu para fazer deste romance notável um dos grandes clássicos da literatura inglesa. (in Goodreads)



Opinião:

Há muito tempo que não lia um romance clássico tão maravilhoso. Há sempre um certo risco em ler clássicos românticos para mim, uma vez que não são os meus favoritos (Jane Austen e assim) e desde O Monte dos Vendavais (Charlotte Brontë) que não lia um romance tão belo e com uma narração tão mágica. 

A história é bastante simples. Bathsheba é uma rapariga jovem que vai viver para a quinta do seu tio como herdeira. Sozinha, apenas com os seus empregados, vê-se na difícil posição de mulher independente, com o seu próprio negócio e sem marido. Tendo em conta o seu estatuto e a sua beleza, cedo começam a aparecer pretendentes e ela começa a ter de escolher e de ponderar sobre o que é melhor para si. 

Porém, a escrita do autor é tão bela, as descrições são tão ricas e profundas e a narração é tão leve e sarcástica (em contraste com a história em si), que o que parece simples deixa de o ser e torna-se numa belíssima história de amor, que é mais do que isso: é uma ode ao amor, à liberdade e à perseverança, bem como à beleza rural e do que é mais puro. 

Existem momentos da história em que as descrições são tão pormenorizadas (sem serem maçadoras ou em demasia) e as palavras usadas tão especificas e bem escolhidas que é como se eu estivesse presente nos momentos. Ora, isto é tudo o que um leitor pode querer, em termos de descrições.

Em relação às personagens, gostei bastante de Bathsheba porque é uma personagem feminina bastante forte, independente e nada lamechas, antes pelo contrário; é trabalhadora e um pouco fria, por vezes. Também gostei dos três pretendentes, se bem que tenha gostado mais da personalidade de Oak do que da dos outros dois (Boldwood e Troy), sendo que Troy mostrou-se um belo patife em determinados momentos. Em relação às outras personagens, gostei bastante dos empregados da quinta e das suas conversas e deambulações, que são parte muito importante da história, uma vez que servem de apoio às personagens principais e à própria estrutura narrativa. 

Não estava à espera de gostar tanto deste livro e foi uma excelente surpresa. Romance, humor, alguns toques de gótico e de mistério, com algum suspense à mistura, este clássico é um dos melhores que li até hoje. Espero ver o filme para poder comparar, mas duvido que faça jus ao livro, que é de uma beleza maravilhosa. Sendo assim, recomendo totalmente. A escrita é fluida, bastante sarcástica, não há momentos parados e a ação é constante. Uma maravilha da literatura! 

NOTA (0 a 10): 10

domingo, 26 de abril de 2015

O Miniaturista, de Jessie Burton

Este é um dos livros pelo qual eu estava mais esperava, com curiosidade e expectativa, achando que ia encontrar uma obra cheia de suspense e mistério, devido à sinopse e a alguns comentários internacionais. Pois bem, enganei-me, até certo ponto. Não há terror, mas há uma história muito humana e bastante misteriosa, não em termos sobrenaturais, mas em termos sociais. É um retrato de uma sociedade, de uma época, é uma história com imensa realidade, muito bem escrita, que mostra a vida de uma família através de um olhar misterioso e diferente. Acabei por encontrar não o que estava à espera, mas algo fascinante e belo, bastante forte.


Sinopse:

No ano de 1686, depois de casar, a jovem Petronella Oortman deixa a sua casa e a sua família no campo e parte para a casa do seu esposo, Johannes Brandt, um mercador de sucesso, em Amesterdão, na parte mais rica da cidade. A pensar numa vida romântica e em mil maravilhas da vida de casada, Nella cedo descobre que nada é como esperava e encontra uma casa não muito acolhedora, com uma cunhada fria e distante. Assim, a única coisa que a anima na sua nova situação é a prenda do seu marido: uma casa de bonecas maravilhosa. Nella descobre um miniaturista para criar objectos e bonecas para a sua casinha e começa a montar a sua casa, uma réplica perfeita da sua nova casa. O que ela não sabia é que os bonecos e objectos começam a chegar sem serem pedidos, mostrando-se como algo sinistro quando começam a ser um prenúncio de certos acontecimentos e quando começam a representar a sua vida na perfeição, sem Nella ter dado a conhecer nada dela ao miniaturista. 

Nella vê-se rodeada de um mistério incapaz de resolver e da sua nova família estranha, cujos segredos são mais do que muitos, capazes de os afundar a todos.

Opinião:

Encontrei neste livro uma história sem igual.Tanto em termos narrativos, como da própria escrita da autora, que é bastante peculiar, passando pelas personagens e pela forma como estas abordam as suas questões. É uma história muito bonita, que começa numa cadência não muito rápida e que vai ascendendo até se ouvirem os tambores a rufar, como que em apoteose. A história quase que termina no seu auge, deixando uma réstia de nostalgia e espanto ao terminar de forma tão brusca, num momento tão decisivo. Fiquei a olhar para a última página, dando por mim a pensar "Já está? E mais?". Mas, no fundo, sei que terminou no momento certo. Não há necessidade de mais nada, porque o que lá está basta para mostrar as sombras da sociedade, os segredos que se tornam em tragédias e a hipocrisia que envolve todas as pessoas e todo o ambiente.

É aqui revelado uma parte da história da Holanda, que tanta história tem para oferecer e que nem sempre aparece como podia aparecer. Fiquei a conhecer vários aspectos históricos de Amesterdão, bem como questões sobre os mercadores e a sua forma de vida, e ainda alguns termos utilizados no dia a dia. A autora fez um trabalho notável, em todos os níveis, incluindo a nível histórico. Está tudo muito coerente e os apêndices estão muito bem empregues.

Gostei de como a autora abordou temas que na altura eram um escândalo (e que talvez ainda hoje, para alguns, o sejam...digo talvez como um eufemismo...), e como os misturou com algo cheio de mistério como é o facto do miniaturista e da sua capacidade de conhecer os seus clientes melhor do que eles mesmos se conhecem. Aliás, a forma como esta personagem entra na história, como paira sobre as personagens e como a trama se enreda à volta dela, está imensamente bem elaborada e é o ponto fulcral. Todo o mistério que cerca a personagem está muito bem construído e fiquei satisfeita com a forma como ficou aparentemente concluído.

Também gostei bastante do destaque das mulheres na história. Esta é uma história em que a mulher é o centro de tudo. Não estou com isto a dizer que é um livro para ou de mulheres. Nada disso! Esta é uma história em que a mulher é o seu centro, em que ela tem o papel principal. Numa altura em que a mulher tinha como papel a subserviência ao marido, todas as personagens femininas são aqui retratadas como sendo elas o grande motor da história, mostrando que a mulher é mais do que aquilo que poderia aparentar naquela época. Aliás, todas as classes mais "baixas" da sociedade da época são aqui exaltadas, o que me agradou bastante.

Em relação às personagens só posso dizer que todas elas são pertinentes; todas elas são necessárias e complexas. Gostei muito de Petronella Oortman Brandt, que sofre uma modificação psicológica bastante grande ao longo da narrativa. Também gostei muito de Marin Brandt, que foi quem mais me surpreendeu, acabando por tornar-se a personagem mais complexa e cheia de um passado riquíssimo em história pessoal e ambiguidades. E claro, a personagem mais misteriosa de todas também me fascinou. No final, gostei de todas as personagens, e mesmo aquelas que se mostraram odiosas acabaram por me comover na sua história.

Esta é uma história familiar, uma história de perdão, de traição, de amor, de medo e de mistério. É uma história que podia ter acontecido e que mostra a crueldade que os sentimentos podem promover; mostra como o ódio leva ao crime, à mentira, à denuncia...mostra como o ódio só acarreta mais ódio e amargura e como é destrutivo. Mostra como os segredos e as restrições sociais muitas vezes levam à ruína e não ao bem comum de uma sociedade que vive em comunidade, mas que se destrói a si mesma com as suas hipocrisias e mentiras. Mostra como os actos têm consequências...todos eles. Mostra que, por mais que se esconda, há sempre alguém a ver, alguém a espreitar.

Enfim, é uma história singular, como nenhuma outra e que tem muito a ensinar. É uma história que nos deixa a pensar, que comove e que aflige, mas que também diverte e faz-nos sorrir. É uma bela história, que provoca quem a lê. E isso é excelente. Recomendo vivamente.

Ainda de referir a beleza estética da obra. A capa é maravilhosa, bem como todo o interior. Lindo!

NOTA (0 a 10): 9

sexta-feira, 27 de março de 2015

O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman

Sempre que começo um livro de Neil Gaiman sei que vou entrar num mundo de magia, diferente de qualquer outro presente noutros livros. Gaiman consegue sempre levar-me para outra dimensão e mostrar-me algo diferente, em que tudo é possível e onde tudo existe, onde há espaço para todos os sonhos, todos os medos e todos os desejos. Esta obra não foi excepção.

Sinopse:

O Oceano no Fim do Caminho conta a história de um homem, cujo nome não se sabe, que, na sequência de um funeral na sua terra natal, acaba por ir parar ao local da sua infância, primeiro ao local onde havia morado em criança e depois ao final do caminho, à quinta das Hempstock, onde acaba por encontrar uma velha amiga. Para descansar e reflectir um bocado, o narrador senta-se no jardim da quinta, num banco com tinta lascada, a olhar para o lago artificial da quinta, o lago estranho que Lettie Hempstock, a sua amiga de infância dizia ser o oceano. E durante o tempo que esteve a olhar para o lago, todas as memórias de infância lhe vieram à mente, em especial os acontecimentos posteriores à sua festa de sétimo aniversário, à morte de um homem que morava na sua casa e de ir pela primeira vez à quinta das Hempstock, e de ter conhecido Lettie. 

No dia em que o homem morreu e ele conheceu Lettie, toda a sua existência mudou e viu-se rodeado de coisas estranhas, mágicas, assustadoras. Algo queria entrar no mundo, accionado pela morte do homem, e ele e Lettie tentaram travar esse mal, acabando por viver uma perigosa aventura, onde tudo é real e onde tudo é estranho e assustador. 

Opinião:

Não há muito mais que possa dizer sem entrar em detalhes e sem "estragar" a magia desta história, que é daquelas onde os spoilers não são bem vindos. A história é magnífica, tem um poder maravilhoso, em que as palavras evocam imagens de grande poder e realidade. Foi impossível não comprar esta história com uma outra do autor: Coraline e a Porta Secreta, que li algumas vezes na minha adolescência. Este livro pode ser considerado para adultos, mas a essência é a mesma, os temas são quase os mesmos, vistos aqui por um prisma muito mais negro e triste, porque o livro é para adultos e por isso pode haver mais lados negros e tristes durante a história. Os medos infantis, que acabam por ser os medos de toda a vida, voltam a ter lugar de destaque e a obra é uma boa reflexão sobre a infância e sobre as memórias que essa etapa nos deixa, memórias essas que podem ser distorcidas, desfocadas pelos anos, mas que são reais. É fácil o leitor pensar "será que o que aconteceu comigo foi alterado? será que moldaram os acontecimentos? será que é possível cortar pedaços do tempo e largá-los para o infinito, para o vazio? será que existem portais e espaços onde os mundos se cruzam? será que outros seres caminham ou poderiam caminhar neste mundo? será a realidade aquela que nós vemos ou será que não passa de uma camada que cobre outra coisa?" Tal não é poder que a história tem. 

Também não pude deixar de comparar esta história a uma outra, esta do ramo cinematográfico: O Labirinto do Fauno. Esta é outra história que poderia parecer para crianças, mas que não o é e em que a infância mostra ser uma etapa bastante negra e assustadora. 

Em todas estas histórias está presente um importante facto para que tudo aconteça: as personagens não duvidam, não põem em causa aquilo que vêem. Elas acreditam no que está à sua volta, no que é estranho, mágico e que parece "mentira". Mas não é e é mais verdade do que tudo o resto. Mais uma vez, volta-se à dicotomia adulto/criança, em que em criança tudo é possível, onde não há barreiras entre mundos, e em que em adulto já nada disso é possível, onde tudo é "normal". O narrador reflecte várias vezes sobre isso mesmo, de uma excelente forma e extremamente poderosa, podendo dizer-se que esta é uma história sobre a infância, sobre a magia que ela encerra e sobre as memórias que ficam dessa etapa que vai ficando para trás, mas que tanto marca. É uma história sobre a saudade da infância e sobre a capacidade de acreditar; sobre o que é real ou não...sobre todas as realidades e sobre o que não se conhece, ou já se conheceu e esqueceu. E o facto de poder haver um local onde seja possível encontrar essas memórias acaba por transmitir um reconforto muito grande.

Esta é uma obra bastante melancólica, onde não há barreiras entre o que parece real e o que não parece...é uma bonita história sobre amizade, sacrifício e sobre sonhos e mistérios. Fica sempre algo no ar e nada fica concluído, aliás, à medida que a história se vai aproximando do fim, os mistérios só se adensam, o que faz com que haja uma aura de infinito mistério à volta da história destas personagens, principalmente das Hempstock. É uma narrativa pequena, que mostra a grandeza imaginária do autor, que me tem agradado imenso desde a adolescência e que me transporta para o primeiro momento em que li um livro seu.

Recomendo vivamente e que leiam com uma mente aberta. É uma história estranha, um tanto assustadora, escura, misteriosa...como quase todas as suas histórias, que são tão boas, e é isso que a faz maravilhosa. Espero que gostem tanto como eu.

Citações:

- (...) Quanto aos adultos... - Parou de falar e esfregou o nariz pintalgado de sardas. - Vou dizer-te uma coisa importante. Os adultos também não parecem adultos, no interior. Por fora, são grandes e intrépidos e sabem sempre o que fazer. Por dentro, são como sempre foram. Como eram quando tinham a tua idade. A verdade é que não adultos. Não existe nem um, no mundo inteiro.  (...) p. 119

NOTA (0 a 10): 9

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Dei-te o Melhor de Mim, de Nicholas Sparks



Este é o primeiro livro que leio do autor, apesar de já conhecer algumas das suas histórias devido aos filmes. Decidi lê-lo, em parte, por causa do filme e também porque queria mudar um pouco o estilo de leitura. Confesso que foi uma "estreia" boa, que me emocionou (algo com que já contava) e que me proporcionou agradáveis momentos de leitura, onde as emoções estiveram sempre presentes.


Nesta história, o autor dá-nos a conhecer o amor entre Amanda Collier e Dawson Cole. Tendo vivido um grande romance na sua juventude, Amanda e Dawson separaram-se por motivos familiares e sociais. Vários anos mais tarde, com 42 anos, tudo leva a que um encontro entre ambos aconteça e o romance perdido da juventude paira sobre o reencontro. Depois de vários encontros e desencontros ao longo da Vida, Dawson e Amanda parecem ter uma nova oportunidade, estranhamente concedida por Tuck, o homem com que Dawson viveu alguns anos da sua juventude, depois de várias brigas grandes com o seu pai e primos, e em cuja garagem de trabalho os encontros entre Amanda e ele aconteceram.

Não vou contar detalhes sobre a história, porque este é o tipo de história em que os spoilers não são bons. Fiz questão de não ver o filme antes de ler o livro, nem de cuscar o final antes de lá chegar. Apesar de já esperar algo do género, foi com emoção que terminei esta história e com uma sensação de que não havia um final mais apropriado, tendo em conta o título da obra, especialmente.

Gostei muito de todo o enredo. Tem várias personagens e várias partes que se vão encaixando ao longo da história, acabando por todas formarem um puzzle perfeito. Não há pontas soltas, apesar de ficar algum mistério no ar em relação a uma das personagens secundárias, mistério esse que me agradou e me deixou a especular. Penso que até não é assim tanto mistério, no fim de contas.

O romance entre Amanda e Dawson é bastante convincente e tudo o que os rodeia faz sentido. Não é uma história "cor de rosa", antes pelo contrário, pois tem vários aspetos sombrios. Tem personagens bastante violentas, que acabam por dar uma vertente mais negra e corrosiva ao enredo e que são necessárias para o desenlace e também para vários dos acontecimentos ao longo da história. Tem alguns aspetos sobrenaturais que também estão bem entrelaçados no enredo e que dão um ar de mistério a todo o ambiente. As descrições são perfeitas e deixam o leitor imaginar todo o ambiente envolvente, como se ele estivesse lá presente (a descrição da casa de campo em Vandemere é maravilhosa...).

Gostei muito da parte de Tuck e Clara, de todo o ambiente da casa de campo e da forma como isso ajudou Amanda e Dawson a viver mais uma vez o seu amor, num local magnífico, cheio de uma magia especial: o amor imenso de duas pessoas que tudo fizeram para estar juntas, para sempre. Também gostei do amor entre Amanda e Dawson, pois não é lamechas nem piegas, mas sim bonito e um tanto saudoso. Os diálogos entre as personagens também estão apropriados. Ou seja, tudo o está e tudo faz sentido.

É uma história de amor, de um amor perdido que acaba por ser reencontrado, mas que muito tem pela frente para vingar. O final é muito bonito...é o que posso dizer sem contar detalhes.

Como estreia, Nicholas Sparks convenceu-me. Provavelmente irei ler mais livros seus e esperar que me emocionem tanto como este. Dei-te o Melhor de Mim, é um dos títulos mais apropriados que já encontrei para o final de um livro. Muito bom. Devo ainda referir a belíssima capa que tem, que nos dá a conhecer uma imagem fiel de um dos espaços em que a ação ocorre. Leiam, penso que irão gostar. É uma história bem bonita!

Citações: 
 
"Because you aren't just someone I loved back then. You were my best friend, my best self, and I can't imagine giving that up again." He hesitated searching for the right words. "You might not understand, but I gave you the best of me, and after you left, nothing was ever the same. 

“You're still alive. And that means you'll love and be loved...and in the end, nothing else really matters.”

“I gave you the best of me", he'd told her once, and with every beat of her son's heart, she knew he'd exactly done that.”

NOTA (0 a 10): 10

quinta-feira, 31 de julho de 2014

A Ilha dos Amores Infinitos, de Daína Chaviano



Comecei a ler este livro sem grandes expectativas, pois não sabia muito sobre ele. Fiquei bastante agradada com a história que se me deparou pela frente à medida que lia este livro. Ao princípio não fiquei logo agarrada, mas a partir do encontro entre Cecilia e a anciã Amalia, fiquei muito curiosa. A história começou a adensar-se, as personagens a crescer, a multiplicarem-se e a expandirem as suas raízes e o tempo foi passando. Passaram-se muitos anos para as personagens, as famílias foram-se alterando e as relações entre estas começaram a tecer-se com grande mestria. A juntar a isto, começou a aparecer referências a casas-fantasma e a espíritos, dando um ambiente bastante misterioso à trama. 

O livro começa na década de 90 do século XX. Cecilia é uma jovem jornalista cubana que vive em Miami. Vive uma vida pacata, mas demasiado solitária. Certa vez vai a uma casa de espetáculos/bar com os seus dois amigos e acaba por conhecer uma anciã, Amalia. Curiosa, pergunta à senhora o que está ela ali a fazer, ao que Amalia responde que está à espera de alguém. Cecilia mostra-se interessada e começa a perguntar por quem é que ela está à espera; a idosa responde que responder a isso demoraria tempo. Cecilia pede à senhora que lhe conte a história e esta começa a contar. Durante a sua narrativa, Cecilia fica a conhecer três famílias de origens diferentes: chinesa, africana e espanhola. As personagens de cada família vão vivendo as suas vidas, acabando por partir para Cuba, em determina altura, devido a diferentes motivos. À medida que Amalia conta a história, Cecilia vai conhecendo as personagens, descobrindo as suas vidas e os seus passados, bem como a história do seu país. Também vai vivendo a sua vida, nomeadamente, a busca de informação sobre uma casa-fantasma que aparece e desaparece nas ruas de Miami, para escrever um artigo. Assim, Cecilia vai vivendo a sua própria história à medida que conhece os passados das personagens da história de Amalia, personagens de carne e osso, com histórias de luta, sofrimento e amor.
Gostei bastante da narrativa. A autora fez um trabalho notável na criação das relações entre os membros das três famílias, recriando um facto histórico e o que este causou: as migrações para Cuba, no final do século XIX (e antes, desde a sua descoberta), levaram à mistura das culturas e das etnias, criando uma cultura e uma etnia únicas, que não é possível dizer que é apenas uma, mas sim o conjunto de todas as que se juntaram ao longo dos tempos. Isso está muito bem trabalhado neste livro. 

As personagens são muito ricas, com um passado cheio de acontecimentos interessantes e marcantes, o que me agradou muito. Gostei muito da forma como algumas delas foram tomando as suas decisões ao longo da narrativa. São histórias fortes, nem sempre felizes, mas onde o amor está sempre presente e onde este é o moinho que faz mover o vento das suas vidas.

Também gostei do contexto histórico. Ao longo do livro, e uma vez que a história acontece ao longo de várias décadas, é possível acompanhar a “evolução” de Cuba, mais especialmente de Havana. As migrações, a escravatura, o fim desta, a prosperidade, a queda dos governos, as revoluções, as questões políticas, as “intervenções”, o medo dos habitantes, as fugas e a crescente destruição do que poderia ter sido uma espécie de sonho, são aspetos muito bem apresentados ao longo da história e que lhe dão um cariz tremendamente desolador, mas muito rico. De referir que há personagens reais, que existiram de verdade, e que estão muito bem enquadradas na narrativa. 

Depois, a autora também optou por criar um ambiente onde o místico está sempre presente. É uma história em que este tema é apresentado com destaque, mas sem grande alarido. É algo natural para as personagens ao longo da história, estando presente como outro qualquer fator. As crenças de cada cultura também estão bem presentes, definindo as personagens e a trama em si mesma. São aspetos que a autora explorou e interligou de uma forma interessante, acabando por dar um ar de mistério ao enredo, em especial na parte de Cecilia.

No entanto, acabei por sentir por várias vezes que a história merecia mais detalhe. O livro é pequenino, tem cerca de 300 páginas. Podia ser maior, o que permitiria um maior detalhe e trabalho em redor das vidas das personagens. Gostei tanto delas que fiquei a sentir uma espécie de pena por a autora não se ter detido mais em cada personagem. Passa-se por várias gerações das famílias de um modo, a meu ver, um tanto apressado. E as personagens mereciam mais. A história merecia mais conteúdo. O livro poderia ter ficado maior, mas a história teria ficado mais sumarenta. Ela já é rica, mas poderia ter ficado ainda melhor. 

Ao ler o livro lembrei-me de outro livro em que é contada uma história a uma personagem do presente sobre o passado. Estou a referir-me a O Regresso, de Victoria Hislop, que tanto gostei. 

Em suma, foi uma experiência muito boa. Um livro que me agradou bastante e que recomendo vivamente. O título adequa-se perfeitamente, uma vez que faz todo o sentido tendo em conta a narrativa de Amalia e a vida de Cecilia. Também gostei muito do facto do livro vir munido das árvores genealógicas das famílias, o que permite uma maior atenção às relações entre os membros destas e também às datas. É um livro com uma escrita fluída, que se lê num ápice e que nos dá a conhecer um pouco da história de Cuba, numa perspetiva um tanto diferente, recorrendo a fatores não tão usuais. Um romance muito bom!


NOTA (0 a 10): 8