domingo, 25 de setembro de 2016

A Seleção, de Kiera Cass

Sinopse:

Para trinta e cinco raparigas, A Seleção é a oportunidade de uma vida. 

É a possibilidade de escaparem de um destino que lhes está traçado desde o nascimento, de se perderem num mundo de vestidos cintilantes e joias de valor inestimável e de vivem num palácio e competirem pelo coração do Príncipe Maxon.

No entanto, para America Singer, ser selecionada é um pesado. Terá de virar costas ao seu amor secreto por Aspen, que pertence a uma casta abaixo a sua, deixar a sua família para entrar numa competição feroz por uma coroa que não deseja, e viver num palácio constantemente ameaçado pelos ataques violentos dos rebeldes. 

Mas é então que America conhece o Príncipe Maxon. Pouco a pouco, começa a questionar todos os planos que definiu para si mesma e percebe que a vida com que sempre sonhou pode não ter comparação com o futuro que nunca imaginou. (in Marcador Editora)


Opinião: 

Este é o primeiro livro desta saga. Com uma capa maravilhosa e uma sinopse interessante, aqui está um livro que me despertou a atenção há muito tempo. Li-o agora e tenho a dizer que achei-o bastante peculiar. 

Gostei das personagens, em especial dos rapazes, o príncipe Maxon e Aspen. Não desgostei de America, a personagem principal, mas não me encheu as medidas. Achei-a igual a tantas outras personagens do género e não se mostrou muito bem à altura do desafio. Mas também, o desafio não era assim tão grande, uma vez que o enredo é um tanto previsível. Existe um triângulo amoroso e a luta entre as raparigas para serem selecionadas é renhida, mas tirando essas três personagens, não senti nenhuma que se destacasse mais. 

Em relação à história em si, tem uma premissa interessante. Toda a ideia da Seleção em si, da competição e do casamento está engraçada. Também a contextualização está adequada e bem elaborada, uma vez que a autora teve a preocupação de criar bases para todo o contexto. Os momentos em que Maxon está com America são muito bons e gostei das suas conversas, tal como gostei de ver America e Aspen. E o que me deixa mais curiosa nesta história é mesmo saber com qual delas ela fica ou o que é que acontece ao trio amoroso. 

A linguagem é bastante fluída, o que faz com que a leitura seja bastante rápida. Também ajuda o facto de haver muita ação e diálogos. As descrições não são muitas, mas as que existem estão muito bem e úteis para visualizar o espaço e ambiente. Não há nada de muito profundo a nível destes pontos, tanto da linguagem como das descrições.

Outro aspeto que me agradou foi o facto de haver mais do que só o foco na Seleção em si, na escolha da eleita para o príncipe. Toda a parte das revoltas e dos revolucionários está bastante boa e consegue captar facilmente a atenção, uma vez que é a parte onde há mais ação e emoção, apesar de não estar muito presente ao longo da narrativa. 

Também gostei da forma como a autora foi narrado os acontecimentos. A história segue um caminho suave, e, para o género de livro que é, isso não é mau, antes pelo contrário. No entanto, apesar de ter ação, estava à espera de mais, principalmente dentro do grupo de selecionadas. 

Em suma, é um primeiro livro engraçado, leve e que entretém. Espero gostar mais do segundo e espero que haja um maior desenvolvimento tanto a nível das personagens como da história em si. Recomendo a todos os que gostam de um livro leve e descontraído. 

NOTA (0 a 10): 7

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Star Trek Volume 1, de Mike Johnson, Steve Molnar e Joe Phillips

Sinopse:

Where No Man Has Gone Before

Enquanto a tripulação da nave Enterprise e o seu capitão James Kirk andam a explorar o Espaço, encontram uma cápsula de uma nave muito antiga que está a transmitir uma mensagem com um conteúdo assustador em relação a acontecimentos a bordo. Quando James pede para intersetar a mensagem e se aproximam da cápsula, algo estranho acontece a bordo da Enterprise, ficando um dos membros da tripulação com estranhos comportamentos, criando o pânico a bordo da nave.

The Galileo Seven

A nave Enterprise está numa missão de entrega de medicamentos a New Paris para ajudar no combate a uma doença, quando se aproximam de um género de formação quasar. O capitão Kirk envia Spock, Bones e mais alguns membros da tripulação para explorar, mas a lancha é atraída pelo campo magnético do quasar e acabam num local desconhecido e sinistro, sem energia para voltar para a nave.


Opinião:

Este volume é composto por duas histórias, sendo elas Where No Man Has Gone Before e The Galileo Seven. E ambas são muito boas, inspiradas na série e nos filmes.

Em relação às personagens, tanto na primeira como na segunda história, estão muito bem. Gostei de encontrar Spock e Kirk na literatura, algo que ainda não tinha acontecido, e gostei muito porque foi uma experiência engraçada e agradável, uma vez que gosto muito destes dois. Quanto a outras personagens, estão todas bem, Uhura está sempre lá para salvar o dia e as outras personagens que aparecem para completar o enredo também estão bem, interessantes e complexas.

A primeira história é bastante interessante, tem um clima mais denso, tanto a nível das relações entre as personagens, como a nível do problema que aparece a estas para resolver. Existe um conflito entre a amizade e o dever, em que Kirk tem de escolher bem por causa da salvação da nave e tripulação e isso enriquece a história. Tem bastante tensão, emoção e aventuras.

Na segunda história, temos as personagens principais novamente em grande estilo e rodeadas de perigos. É outra história engraçada, com alguns momentos de humor, emoção, aventura, um bocadinho de drama e romance. Está bem elaborada e tem um enredo interessante. Gostei da forma como foi construída e como tudo foi resolvido.

Gostei de tudo e foi uma leitura que me encheu as medidas. É bom ler banda desenhada, é diferente, descontraído e uma excelente experiência. Recomendo vivamente! 

NOTA (0 a 10): 10

sábado, 17 de setembro de 2016

O Rouxinol, de Kristin Hannah

Sinopse:

Na tranquila vila de Carriveau, Vianne despede-se do marido, Antoine, que parte para a frente da batalha. Ela não acredita que os nazis vão invadir a França...mas é isso mesmo que fazem, em batalhões de soldados em marcha, em caravanas de camiões e tanques, em aviões que enchem os céus e largam as suas bombas por cima dos inocentes. Quando um capitão alemão reclama a casa de Vianne, ela e a filha passam a ter de viver com o inimigo, sob risco de virem a perder tudo o que têm. Sem comida, dinheiro ou esperança, e à medida que a escalada de perigo as cerca cada vez mais, é obrigada a tomar decisões impossíveis, um atrás da outra, de forma a manter a família viva. Isabelle, a irmã de Vianne, é uma rebelde de dezoito anos, que procura um objetivo de vida com toda a paixão e ousadia da juventude.

Enquanto milhares de parisiences marcham para os horrores desconhecidos da guerra, ela conhece Gäetan, um partisan convicto de que a França é capaz de derrotar os nazis a partir do interior. Isabelle apaixona-se como só acontece aos jovens...perdidamente. Mas quando ele a traia, ela junta-se à Resistência e nunca olha para trás, arriscando vezes sem conta a própria vida para salvar a dos outros. Com coragem, graça e uma grande humanidade, a autora bestseller Kristin Hannah capta na perfeição o panorama épico da Segunda Guerra Mundial e faz incidir o seu foco numa parte íntima da história que raramente é vista: a guerra das mulheres. 

O Rouxinol narra a história de duas irmãs separadas pelos anos e pela experiência, pelos ideais, pela paixão e pelas circunstâncias, cada uma seguindo o seu próprio caminho arriscado em busca da sobrevivência, do amor e da liberdade numa França ocupada pelos alemães e arrasada pela guerra. Um romance muito belo e comovente que celebra a resistência do espírito humano e em particular no feminino. Um romance de uma vida, para todos. (in Goodreads)



Opinião:

Um bom romance é sempre um bom romance. Quando existe um contexto rico e fértil então, esse romance tem tudo para ser maravilhoso. Neste caso e com o contexto presente, maravilhoso de belo não seria, mas seria maravilhoso de grandioso e forte. 

Uma história de guerra, de sobrevivência, de amor, de superação e de perdão. Assim se pode adjetivar este livro, que é um marco brilhante na caracterização da vida das mulheres durante a Segunda Guerra, pelo menos de algumas. 

Vianne e Isabelle. Duas irmãs que são o posto uma da outra: Vianne, a mais velha, calma e obdiente; Isabelle, desobediente e aventureira. Com um pai ausente, as duas veem as suas vidas afastadas, enquanto Vianne começa a constituir família e Isabelle foge de colégio em colégio. Até que a guerra começa e as suas vidas alteram-se para sempre. Vianne vê o seu marido partir para a guerra e fica sozinha com a sua filha e Isabelle só tem como desejo alistar-se no corpo médico ou fazer algo de útil para o bem dos franceses. 

Com duas personagens cheias de personalidade e muito diferentes era de prever uma história forte e isso aconteceu. Gostei muito de ambas, acabando por não ter preferência por nenhuma delas, uma vez que, à sua maneira, ambas são especiais, ambas deram o melhor de si e ambas fizeram o que podiam fazer durante aqueles tempos. Vianne consegue transmitir uma calma aparente que por vezes faz desesperar, mas é uma personagem excelente e com uma história de vida muito grande, enquanto Isabelle agarra logo à primeira vista por causa de ser audaz e destemida. Ao terem as duas as suas guerras pessoais nos locais onde estão, mostram todo o seu ser, todo o seu coração e pensamento, e, através dos seus olhos, é possível atravessar os devastadores anos da Segunda Guerra até ao seu final. 

Não é um livro sobre a guerra em si, mas sobre o que a guerra fez às pessoas, como as mudou, moldou e traiu. É uma história forte, triste e bela, que evoca o pior e o melhor do Ser Humano. A forma como a autora conseguiu criar personagens que são tão reais e tão transparentes e complexas está excelente. Não são apenas as irmãs que são complexas, mas sim todas as outras personagens, desde Beck (o nazi que fica em casa de Vianne) até às crianças que aparecem na história. Todas as personagens têm um propósito e dão o seu forte contributo para a história do livro e para a História em si. São autênticos testemunhos da crueldade do que aconteceu, mas também da misericórdia e compaixão que existiu naqueles tempos negros. 

As descrições estão perfeitas. Existe um cuidado em descrever certos detalhes que dão vida à história e ao contexto das personagens, detalhes esses que servem para enriquecer o ambiente e a emoção. É possível imaginar-nos lá com as personagens, ver mesmo os locais, os objectos, as situações. Isso acontece também com as descrições dos sentimentos e emoções das personagens. 

Também a nível do enredo está tudo excelente. A história é poderosa, a linha narrativa é muito rica, muito bem elaborada, criando uma cronologia dos acontecimentos sem nos darmos por isso. Existem momentos de grande ternura, momentos de amor e momentos de grande tensão, bem como de grande tristeza. Mas também existem momentos de alegria e grande beleza. Não é uma leitura fácil, precisamente por isso. É uma história que nos entra no coração e na mente, que nos deixa a pensar e que nos faz refletir sobre muitos temas. Gostei bastante da forma como Isabelle atravessou imensas vezes os Pirenéus para salvar os pilotos Aliados e de como lutou pela libertação da França, bem como da forma sofrida como Vianne protegeu os seus.

Em suma, é uma obra de arte. Uma ode à Mulher, à Coragem e à Sobrevivência. Também ao Amor e ao Perdão. De facto, é um dos livros com a Segunda Guerra como contexto em que menos mostra a guerra, mas em que os seus estilhaços mais cortam. Gostei muito da forma como a autora descreveu o quotidiano das personagens, as suas aventuras e os seus esquemas, tal como os seus romances, medos e alegrias. Recomendo a todos os que gostam de uma história poderosa e forte. 

NOTA (0 a 10): 10

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Star Trek - Além do Universo

Saiu na semana passada o terceiro filme Star Trek, desta vez chamado Além do Universo. Tendo visto os dois anteriores e alguns episódios da série original, estava bastante curiosa para ver este filme, uma vez que sou grande fã destas aventuras. 



Neste filme a história começa com o Capitão Kirk a tentar entregar um artefacto muito antigo a uma raça de seres, acabando por ser atacado por estes. Posto de parte o artefacto, a Enterprise continua as suas missões, tendo como objetivo chegar até a Yorktown, um posto avançado da Federação. Ao chegarem à estação são "atacados" por uma nave desconhecida, onde vem uma jovem capitã com um pedido de ajuda para resgatar a sua tripulação, que fora atacada numa região desconhecida. Kirk e os seus companheiros decidem ajudá-la e partem na missão, rumo ao desconhecido. 

Gostei muito do filme. Gostei bastante dos outros, em especial do segundo, com Benedict Cumberbatch como Khan. Mas também gostei muito deste! 

O enredo está muito interessante: começa com uma situação que situa bem a história, dando logo o mote para os perigos que vão ser encontrados pelas personagens ao longo da história. A ida a Yorktown é bastante boa, mostrando novos contextos e novos locais, o que cria uma coerência excelente para todo o universo do filme e das personagens. Existem os habituais "duelos" de personalidades a bordo da Enterprise, em especial entre Kirk, Spock e Bones, se bem que certos acontecimentos fazem com que isso se altere. Tem uma excelente linha de acontecimentos, o que mostra a excelente narrativa dos acontecimentos. O vilão é muito bom, com um belo passado e um motivo forte para as suas atrocidades. Toda a intriga está bem delineada e existem momentos de grande tensão e emoção. E claro, existem imensas aventuras e momentos mais descontraídos, que são outros dos pontos fortes destes filmes.



As personagens continua maravilhosas. Kirk continua cheio de charme, engraçado, com garra, mas cada vez mais preocupado com os seus amigos e com todos em geral, sempre pronto para ajudar e salvar quem precisa. Spock também continua no seu melhor. Neste filme não aparece tanto, se bem que quando aparece rouba toda a cena às outras personagens e aos outros atores. O seu romance com a Tenente Uhura continua presente, se bem que sempre naquela tensão por causa da personalidade e maneira de ser única de Spock. Neste filme ele encontra-se em vários apuros, o que se torna interessante tendo em conta a sua forma de resolver as questões e de pensar e também de se relacionar com os outros. As outras personagens também estão bem, tal como as novas, em especial Jaylah, que trás uma grande personagem feminina para o filme, forte e cheia de humor. 

É um filme sem medos, que vai a fundo nos temas que quer mostrar, nas aventuras que acontecem e nos relacionamentos entre as personagens. Gostei bastante da forma como todas as pontas foram sendo entrelaçadas ao longo do filme.



Também gostei imenso dos efeitos especiais e de toda a cinematografia presente no filme. Para além dos brilhantes efeitos (que aparecem sem exageros, normalmente), toda a imagem, os cenários, o guarda roupa, tudo está excelente. Há uma preocupação com a harmonia e a beleza de imagem presente no filme que muito me agradou, tal como a sua banda sonora, que continua a ser excelente. Michael Giacchino continua a ser o compositor (ainda bem!) e continua a fazer um trabalho maravilhoso, enquadrando de forma maravilhosa todas as músicas e todos os sons, de modo a criar uma constante emoção. Também de referir que a música da Riahnna para o filme (Sledgehammer) está muito boa e com um clip bastante visionário. 

Em suma, aqui está um excelente filme, que de certeza vai agradar aos fãs da saga, mas também a todos os que gostam de um bom filme de aventuras e ação. Excelente! 




NOTA (0 a 10): 10

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A Amiga Genial, de Elena Ferrante

Sinopse:

A Amiga Genial é a história de um encontre entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade adolescente.

Elena conhece a sua amiga na primeira classe. Provêm ambas de famílias remediadas. O pai de Elena trabalha como porteiro na câmara municipal, o de Lila Cerullo é sapateiro.

Lila é bravia, sagaz, corajosa nas palavras e nas acções. Tem resposta pronta para tudo e age com uma determinação que a pacata e estudiosa Elena inveja.

Quando a desajeitada Lila se transforma numa adolescente que fascina os rapazes do bairro, Elena continua a procurar nela a sua inspiração.

O percurso de ambas separa-se quando, ao contrário de Lila, Elena continua os estudos liceais e Lila tem de lutar por si e pela sua família no bairro onde vive. Mas a sua amizade prossegue. 

A Amiga Genial tem o andamento de uma grande narrativa popular, densa, veloz e desconcertante, ligeira e profunda, mostrando os conflitos familiares e amorosos numa sucessão de episódios que os leitores desejariam que nunca acabasse. (in Goodreads)



Opinião:

Não podia ficar indiferente aos excelentes comentários que andei a ler sobre este livro e decidi lê-lo. Uma premissa diferente, uma narrativa extensa em detalhes do quotidiano, uma amizade de infância. Tudo aspetos que me aguçaram a curiosidade.

Este é o primeiro volume de quatro e é aqui que tudo começa. Depois do desaparecimento de Rafaella (Lila), já em idosa, Elena (Lenú) vê-se de novo rodeada pelas memórias da sua infância e de como se começou a relacionar com Lila, na época da primeira classe.

Lila é o oposto de Lenú. Enquanto Lenú é gentil, aplicada, boa menina, Lila é maldosa, irreverente e estranha. Lenú cedo começa a sentir uma grande atração por Lila, essencialmente porque é o seu oposto e também porque gostaria de ter a capacidade de afirmação e de irreverência de Lila, que acaba por se mostrar muito mais inteligente e esperta do que todas as outras crianças do bairro, incluindo Lenú. O ambiente pobre, pós segunda guerra, violento e também relacionado com a máfia, faz com que a história de vida e de amizade de ambas seja uma verdadeira delicia, uma vez que a forma completamente natural e real com que Lenú conta a história é simplesmente surreal. Gostei imenso de ambas as personagens. Lila é sem dúvida especial e interessante, se bem que Lenú também tenha a sua magia única, apesar de nem sempre se mostrar tão brilhante como a de Lila. 

O contexto em que tudo acontece também é fundamental para a compreensão do enredo, como referi no parágrafo anterior. Um bairro social de Nápoles, onde os ódios e as vinganças imperam, algumas delas com a mão da máfia nelas, outras com acontecimentos muito antigos mas que não foram perdoados nem esquecidos. É pintado um cenário bastante negro da vida social e económica das personagens, cenário esse faz com que os comportamentos violentos, por vezes horríveis das personagens estejam contextualizados e coerentes com o seu meio, apesar de nada justificar muito do que é contado no livro.

A narrativa é feita na primeira pessoa e os acontecimentos vão surgindo espontaneamente, de forma ordenada, mas um tanto caótica na sua apresentação. Por vezes o que foi referido há algumas páginas volta para justificar outros acontecimentos e noutras vezes as justificações só aparecem muito depois. Isso faz com que a leitura seja especial e atenta. É uma escrita e uma história que puxa constantemente pelo leitor, tanto a nível mental como da própria curiosidade. O que acontecerá? O que aconteceu? E depois? Estas são apenas algumas das questões que vão sendo colocadas pelo leitor enquanto está a espreitar a vida daquelas raparigas e de todo o bairro. 

Existem questões bastante interessantes que vão sendo abordadas ao longo da narrativa. Os sentimentos das personagens, em especial de Lenú, enquanto narradora, estão em especial destaque. A capacidade de autoanálise dela é incrível. As justificações para os seus atos e pensamentos, as justificações para os seus medos e inseguranças, tudo está extremamente bem apresentado e tratado ao longo da história. O amor, o ódio, a amizade, a inveja, a intriga, a paixão, o medo...todos os sentimentos passam pela avaliação de Lenú, muitas vezes servindo de comparação com outras personagens, em especial Lila. 

Tendo em conta que o livro abrange um grande período de tempo (infância e adolescência), é extremamente interessante observar e constatar as diferenças que vão acontecendo tanto nas atitudes, como na própria forma de narrar de Lenú. A visão da sua infância, do que lhe aconteceu, dos seus medos e das suas atitudes está descrita e narrada de forma quase infantil. É como se a Lenú criança estivesse a narrar a sua vida, mas sem ser criança, pois a autoavaliação que faz é constante. O que Lenú faz de perfeito é colocar-se, enquanto adulta, no papel exato de quando era criança e conseguir transmitir todos esses sentimentos infantis. 

Quando o livro passa para a parte da adolescência, também a narrativa muda, uma vez que as personagens cresceram, apesar de Lenú narrar tudo enquanto adulta. A preocupação pelo amor, pela paixão, a descoberta da sexualidade, da violência, do ciúme, do ódio amoroso, tudo está presente e aparece constantemente, por vezes tudo ao mesmo tempo, tal não é a violência com que os acontecimentos se vão dando ao longo da narrativa. As preocupações infantis são postas de lado e aparecem outras, mais prementes, mais perigosas. Os grupos e a pertença a estes é o grande foco, bem como as relações amorosas entre as personagens. Os rapazes da história começam a ter um destaque diferente, maior, e começam a aparecer e a ter bastante relevo, pois passam a ser o centro das atenções das raparigas. Também as questões laborais vão tendo mais destaque, bem como uma visão realista e crítica da sociedade, economia e política, que até então não aparecia na narrativa. 

Ao ser um livro com poucos diálogos (mas fortes e poderosos), há quem possa não apreciar muito. Não o façam. Apostem na leitura destes livros, porque é uma leitura diferente, que enche o leitor e que o faz ver as coisas à sua volta com outros olhos, com um olhar mais crítico, mais duro. É fácil para quem está a ler identificar-se com as personagens, com as suas atitudes, sentimentos e angustias. Pode não ser uma leitura fácil e muitas vezes tem passagens bem negras e drásticas, mas é de facto uma obra prima, que mexe com as emoções e que nos faz querer saber mais, estar sempre a par da vida destas personagens. Tem um timing perfeito, ou seja, os acontecimentos conseguem ser narrados do tempo perfeito, no instante mais preciso, mais fundamental, de modo a que o leitor se exalte, se arrelie e se encha de vários sentimentos, que poderão ser contraditórios. Recomendo vivamente e tenho muita curiosidade para ler os próximos.

NOTA (0 a 10): 10 

sábado, 20 de agosto de 2016

Sonho de Cetim, de Loretta Chase

Sinopse: 

Todas as palavras, todas as frases da prosa de Chase cintilam de malícia e charme.

Uma inocente de olhos azuis por fora, mas feroz tubarão por dentro, a modista Sophia Noirot até conseguiria vender areia a beduínos. Vender os deslumbrantes vestidos da Maison Noirot a damas nobres é um pouco mais complicado, especialmente porque um recente escândalo de família criou um inimigo que, por acaso, é um dos líderes da sociedade da moda.

Transformar um escândalo numa lucrativa vantagem para a botique requer todo o talento de Sophia, deixando-a com pouco paciência para o devasse Earl de Longmore. Este idiota desajeitado não consegue ter mais do que uma ideia na cabeça, e ultimamente tem estado apenas loucamente fixado em despir Sophia! 

No entanto, quando a irmã de Longmore, a cliente mais rica e mais adorada da boutique, foge da cidade, Sophia não pode deixar Earl procurá-la sem ajuda. Numa demanda escaldante com o único homem ao qual não resite, Sophia deixa-se levar pela tentação do desejo... (in Edições Saída de Emergência)



Opinião: 

Este é o segundo volume das histórias de Loretta Chase sobre as irmãs Noirot. Depois de ter lido o primeiro e de ter gostado bastante, tinha de ler o segundo e posso adiantar que também gostei. 

Neste livro encontramos Sophia, uma das irmãs Noirot, a braços com vários problemas, principalmente depois do casamento da sua irmã com o conde de Clevedon (no primeiro volume), uma vez que tal casamento fez várias nobres deixarem de se vestir na Casa Noirot, por puro preconceito contra o casamento de uma modista com um conde. Sophia faz tudo para manter a loja aberta e a produzir, tentando cativar o maior número de clientes e manter as que já têm, em especial Clara, irmã de Longmore, anterior prometida do duque de Clevedon. Com um escândalo à mistura e um noivado à força, Clara foge, deixando Sophia preocupada com os negócios da família, pois Clara é a sua maior e mais prestigiada cliente. Assim, parte com Longmore para encontrar Clara, e a química implícita no primeiro volume entre Sophia e Longmore aparece explicitamente neste, fazendo-os um casal muito engraçado. 

Sophia é uma personagem bastante forte, uma mulher interessante e cheia de truques. Longmore é um homem charmoso, um tanto bruto e engraçado. O romance começa a pairar e a dança entre Sophia e Longmore é bastante interessante de se acompanhar e de torcer pelo seu sucesso, uma vez que fazem um casal muito bom. As situações em que se vão encontrando ao longo do enredo também são bastante engraçadas e bem planeadas, tal como os planos de Sophia para resolver os problemas. Gostei muito da forma como a autora desenvolveu a narrativa através das várias situações que se vão desenrolando e de como as personagens desempenharam os seus papéis. Gostei muito do casal e gostei de rever as outras personagens. 

A nível de narrativa, a autora mantém a linha apresentada no livro anterior, se bem que neste existam mais aventuras e situações perigosas e interessantes por serem mais engraçadas e repletas de aventuras, ao contrário das do livro anterior que eram mais sérias. Em parte, tal fez com que não existisse um cariz tão sério como no livro anterior, o que não significa que este não seja tão bom como o outro. É diferente. As personalidades das personagens são diferentes, logo as situações e as respostas às situações são diferentes. Gostei bastante de forma inteligente como a narrativa foi progredindo, criando um enredo bastante interessante e misterioso.  

Os detalhes continuam primorosos. As descrições dos vestidos continuam perfeitas, permitindo ao leitor visualizar plenamente os vestidos, acessórios, penteados e situações onde estes se encontram. Também a nível de outras descrições está muito bem, tanto a nível dos espaços como dos acontecimentos, em especial a nível das cenas românticas, que têm grande destaque neste volume. 

Quanto à escrita, também se mantém ao mesmo nível, o que é o mesmo que dizer que está muito bem. Engraçada, fluída, electrizante...a autora escreve de modo a que o livro seja devorado. 

Em suma, mais uma excelente aposta da Saída de Emergência a nível de romances. Aconselho a todos os que gostam de um bom romance, cheio de sensualidade, romantismo e paixão, mas que não dispense uma bela dose de aventura, intriga e escândalo social! Porque a ironia continua sempre a estar presente nestes livros e o que a sociedade vê como maravilhoso e correto, nem sempre é verdade, tal como casar com ilustres nobres em vez de simples modistas. 

NOTA (0 a 10): 9

domingo, 14 de agosto de 2016

A Grande Revelação, de Julia Quinn

Sinopse:

O coração de Penelope Featherington sofre por Colin Bridgerton há...não pode ser!??... mais de dez anos? Sim, essa é a triste verdade. Dez anos de uma vida enfadonha, animada apenas por devaneios apaixonados. Dez ingénuos anos em que julga conhecer Colin na perfeição. Mal ela sabe que ele é muito (mesmo muito) mais do que aparenta... 

Cansado de ser visto como um mulherengo fútil, irritado por ver o seu nome surgir constantemente na coluna de mexericos de Lady Whistledown, Colin regressa a Londres após uma temporada no estrangeiro decidido a mudar as coisas. Mas a realidade (ou melhor, Penelope) vai surpreendê-lo... e de que maneira! Intimidado e atraído, Colin vai ter de perceber se ela é a sua maior ameaça ou seu final feliz. 

PS: Este livro contém a chave do segredo mais bem guardado da sociedade londrina. (in Goodreads) 



Opinião:

Depois de ler os três primeiros livros da série Bridgerton e de ter ficado fã, foi com grande entusiasmo e curiosidade que comecei a ler este livro. E foi o que estava à espera, foi ao encontro das minhas expectativas! 

Neste volume, o irmão Bridgerton em destaque é Colin, tendo como personagem feminina em destaque Penelope Featherington, que tinha já aparecido nos anteriores sem muito destaque, mas de modo interessante. Colin e Penelope fazem uma dupla fantástica! 

O galã cheio de charme e popular e a que ninguém acha graça, solteirona e que está sempre à parte. Mas como as aparências enganam, nem Colin é perfeito e cheio de garra, nem Penelope é um patinho feio, antes pelo contrário, é uma das mais inteligentes personagens femininas que já apareceu nesta série. Já nos livros anteriores tinha ficado com essa ideia e gostei de ver que assim é. Penelope é uma excelente personagem, dinâmica, complexa, sonhadora, inteligente e subtil, que persegue os seus maiores sonhos. Gostei bastante dela e gostei do seu desenvolvimento, que foi enorme. Quanto a Colin, também gostei imenso dele. Nos livros anteriores tinha ficado com a ideia que iria gostar bastante dele e assim foi. Um homem interessante, digno e muito realista. Também gostei de encontrar as outras personagens, que continuam a dar um contexto e uma coerência fantásticos às histórias da autora. 

A juntar ao belo casal e às personagens já conhecidas, temos ainda um dos maiores mistérios para resolver: a identidade de Lady Whistledown (a cronista da alta sociedade que não tem medo de criticar seja quem for), que depois de uma aposta de Lady Danbury fica a ser o grande mistério da temporada e da narrativa em si. 

Sem sair muito do esquema narrativo dos livros anteriores, Julia Quinn consegue criar mais uma bela história de amor, emoção e intriga. Todas as descrições estão perfeitas, sem serem nada massudas, antes pelo contrário, são muito inteligentes e divertidas, tal como a própria linguagem das personagens e a escrita em si. Julia Quinn dá uma grande dose de humor à própria narrativa e não só às atitudes das personagens e aos seus diálogos ou situações. Quinn consegue narrar todos os acontecimentos, até os mais sérios, com uma boa dose de sarcasmo. As próprias situações em que as personagens se veem estão muito bem conseguidas e muito engraçadas. As personagens não têm medo de expor os seus problemas, medos e dúvidas, nem são vistas como perfeitas, nem nas suas ações nem nas suas decisões e situações. Existem momentos bastante engraçados e outros bastante intrigantes e ainda os momentos de romance, porque não seria um belo livro da Julia Quinn sem uma boa dose de romance. 

De todos os livros lidos da autora até agora, este é aquele onde há mais intriga, se bem que o anterior também tinha. Porém, a intriga neste é muito maior, bem  como o mistério, devido à busca pela identidade da mais atrevida cronista da sociedade. Foi uma lufada de ar fresco esta decisão da autora em enveredar pelo mistério da identidade de tal personagem quase mítica. 

Não consigo dizer que tenho um livro favorito da autora, até agora. São todos bons, com enredos interessantes e que, apesar de não fugirem muito ao esquema narrativo, conseguem todos ter algo de novo, de único e de especial. 

Assim, uma escrita fluída, fresca, despojada, divertida e muito atrevida é mais uma vez a chave do sucesso, bem como a personalidade forte das personagens e do contexto onde estão. Recomendo a todos aqueles que gostam de um belo romance, repleto de aventura, amor, intriga, ironia e amizade. Outra bela razão para ler estes livros é porque, no fundo, a autora está sempre a dar na cabeça do alta sociedade e a ridicularizar aqueles que só sabem rebaixar os outros e os seus livros servem como uma bela crítica social, que se aplicava na perfeição ao contexto da época em que são narrados (século XIX), mas que também se aplica nos dias de hoje.

NOTA (0 a 10): 10