sábado, 18 de fevereiro de 2017

A Rainha Perfeitíssima, de Paula Veiga

Sinopse:

No século de ouro dos Descobrimentos, quando Lisboa era a capital das riquezas exóticas, viveu a mais rica, culta e fascinante princesa da Europa: Leonor de Lencastre. Esta é a sua história.

Em 1458 nasceu uma formosa infanta a quem chamaram Leonor. Destinada a ser rainha, a jovem cresceu e transformou-se na mais notável monarca que reinou em Portugal. Mas se a sua vida é uma inspiração, também o foi um rosário de tragédias.

Casou com o primo, D. João II, mas o casamento não foi feliz. O Príncipe Perfeito passou o reinado em conflito com a nobreza que o tentou assassinar. A alegria por ver o marido sobreviver foi destroçada quando o seu próprio irmão foi é acusado de traição e morre às mãos do rei.

Mas a maior tragédia da sua vida chega quando o filho morre de forma suspeita. Acidente ou atentado? Na terrível dor de uma mãe que perde o filho, Leonor nem teve o apoio que esperava do rei: D. João II estava mais preocupado em colocar no seu trono o filho bastardo que tivera com outra mulher. (in Edições Saída de Emergência)


Opinião:

Com uma capa muito bela, uma premissa brilhante e uma sinopse interessante e sugestiva, a juntar ao Romance Histórico e à excelente coleção histórica da Saída de Emergência, não podia deixar de ler este livro.

E há muito para referir.

Em primeiro lugar, a autora está de parabéns pelo trabalho que realizou, tanto a nível de escrita e criação, como também, e imprescindível neste género, a nível da pesquisa. A história está muito bem contextualizada e tudo está muito bem delineado.

A rainha D. Leonor é a narradora, dando ao leitor uma boa visão sobre o que a rodeou e sobre o que aconteceu durante o seu reinado. É uma narradora bastante agradável.

As personagens estão muito bem. Penso que a autora deu a conhecer algumas das perspetivas destas personalidades históricas, que alguns podem conhecer melhor do que outros, mas que é sempre bom de se saber mais.

Fiquei a saber mais factos sobre a vida destas personalidades que foram tão importantes para a nossa identidade nacional e para a nossa História. Leonor aparece como uma rainha muito boa, caridosa e preocupada com os outros, mostrando a sua faceta mais conhecida. Também gostei de ver os diferentes reis e outras personalidades, em especial D. Manuel I, que também esteve em grande destaque ao longo da obra.

Gostei da escrita, que está extremamente fluída e simples. O livro lê-se num instante! Existem muitos diálogos e é uma forma excelente de se ficar a saber mais sobre este período histórico: de uma forma leve e emocionante.

Penso que podia haver mais descrições, bem como ação. Não é que não estejam presentes ao longo da obra, mas as descrições não são muitas, pelo menos dos espaços ao redor das personagens. Isso podia estar mais explorado. Tal como a ação. Compreendo o foco nas personagens, nos seus diálogos, pensamentos e atitudes, mas podia haver mais momentos de ação, contada por uma perspetiva mais distante, uma vez que o enredo tem os seus alicerces nos diálogos e não tanto na ação por detrás destes. Podia haver um equilíbrio maior a este nível, o que faria, também, aumentar o número de páginas. A história é muito boa e está tão bem trabalhada e criada que podia ter mais páginas.

Mas este é um título excelente da coleção e é sempre bom ler livros nacionais, bons, novos e interessantes e este livro tem tudo isso: novidade, interesse e qualidade. É muito bom. Portanto, recomendo-o vivamente a todos aqueles que gostam deste género literário e que apreciam ficar a conhecer melhor a nossa História.

NOTA (0 a 10): 8

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Espada que Sangra, de Nuno Ferreira

Sinopse:

"A palavra dos homens teve muito crédito, em tempos idos. Mas quando a soberba e a sede de poder e glória moldam o comportamento humano, a mentira torna-se um instrumento para pentear as suas próprias fraquezas." 

Espada Que Sangra é o primeiro volume de Histórias Vermelhas de Zallar, um delicioso cocktail de fantasia, intriga, mistério, suspense, erotismo, aventura e ação, passado num mundo fantástico de civilizações que nos apaixonam a cada página. Zallar é um mundo complexo, onde três continentes lutam arduamente pela sua sobrevivência. No Velho Continente existe uma terra almejada há milénios, desde os tempos em que os medonhos Homens Demónio dominavam a região: Terra Parda, onde as cidades-estado são chamadas de espadas e um minério conhecido por tormento negro tornou possível a existência de armas de fogo. Hoje, são os descendentes dos extintos Homens Demónio quem ameaça as fronteiras desta terra próspera em vegetação, savanas e desertos - os malévolos mahlan. A guerra Mahlan está prestes a atingir o seu ápice, e agora, tudo pode acontecer. Mas Lazard Ezzila e Ameril Hymadher, reis das principais fortalezas de Terra Parda que viveram um intenso romance na sua juventude, vão perceber de uma forma perturbadoramente selvagem que os seus maiores inimigos poder viver consigo ou partilharem dos seus próprios lençóis. (in Goodreads)



Opinião:

Depois de ter este livro durante algum tempo na estante, eis o momento de o ler! Estava à espera de ser surpreendida e foi isso que aconteceu, apesar de esperar algo bom. Foi muito bom! 

Gostei muito da forma como o livro começa. O autor consegue criar um mundo de raíz, com uma cultura, religião, política...tudo. Tem uma contextualização perfeita, que permite ao leitor saltar para dentro de Zallar com pujança e à vontade. O que também promove estes aspetos é a excelente escolha das palavras para as descrições, que estão muitíssimo visuais, 

Também gostei das personagens. Todas elas são fortes e cheias de personalidade, o que faz com que a ação seja constante e frenética. Gostei de todas elas, portanto. Fortes, credíveis e cheias de garra, todas elas têm um propósito único e bem definido. São muitas e é um leque bastante ambicioso! 

As descrições, como já mencionei, são parte constituinte desta obra de modo muito vivo. Não é só na primeira parte, mas ao longo de toda a narrativa. Os espaços são muito interessantes e grandiosos; todos eles são distintos, o que revela uma imensa criatividade. 

Outro aspeto de sumo relevo é a intriga. Tudo gira à volta do poder, que leva à intriga. É uma constante ao longo da obra e é a chave de tudo. E está muito bem elaborada. Não há falhas na lógica das situações e os planos das personagens, bem como os seus objetivos, estão sempre um passo à frente, fazendo com que o leitor esteja sempre na expectativa de descobrir algo mais, acabando por se surpreender, o que é fantástico! 

Existe de tudo. Ação, emoção, amor, sedução, guerras, momentos de grande mistério e perigo...o autor oferece aos leitores uma magnífica trama eletrizante, a um ritmo estrondoso. A mestria com que a história foi tecida, tanto a nível de criação/imaginação como a nível da escrita, permite uma submersão total neste universo. 

Este é um género que não temos muito por cá, também porque é provável que, tendo em conta o mercado, existam outros géneros mais rentáveis. Na minha opinião, não apostar nestes autores é um erro. Tanto a nível editorial como de leitura. As editoras não deviam ter medo de apostar na Fantasia nacional e os leitores também não deviam ter este medo. É um prazer enorme ter o privilégio de percorrer mundos bem imaginados, bem criados. Poder estar presente nesses ambientes de magia, poder e mistério. Temos cá autores fantásticos, que só enaltecem a literatura nacional e que muitas vezes não tem o destaque merecido! Temos de mudar isto. Temos de apoiar os nossos autores e o género fantástico. Os leitores só têm a ganhar, bem como a Literatura em si.

Em suma, recomendo totalmente! 

NOTA (0 a 10): 10

domingo, 12 de fevereiro de 2017

O Jardim dos Segredos, de Kate Morton

Sinopse:

Uma criança perdida: em 1913, uma criança é encontradas só, num barco que se dirigia à Austrália. Uma mulher misteriosa prometera tomar conta dela, mas desapareceu sem deixar rasto. 

Um terrível segredo: no seu 21º aniversário, Nell Andrews descobre algo que mudará a sua vida para sempre. Décadas depois, embarca em busca da verdade, numa demanda que a conduz até à costa da Cornualha e à bela e misteriosa Mansão Blackhurst.

Uma herança misteriosa: aquando do falecimento de Nell, a neta, Cassandra, depara-se com uma herança surpreendente. A Casa da Falésia e o seu jardim abandonado são famosos nas redondezas pelos segredos que ocultam - segredos sobre a família Mountrachet e a sua governanta, Eliza Makepeace, uma escritora de obscuros contos de fadas. É aqui que Cassandra irá por fim desvendar a verdade sobre a família e resolver o mistério de uma pequena criança perdida. (in Goodreads)



Opinião:

Li, no ano passado, As Horas Distantes e gostei bastante. Fiquei muito agradada e decidi apostar na escritora. Agora, em O Jardim dos Segredos, posso voltar a afirmar: Kate Morton é, dentro do seu género, uma escritora única e maravilhosa. 

O livro apresenta-nos várias personagens e três gerações principais, desde 1900 até 2005, aproximadamente. Começa com uma menina de três anos à espera de uma senhora que a acompanhava numa viagem para a Austrália, mas que nunca chegou a aparecer para a acompanhar até ao país tão distante. Essa menina acaba por crescer na família do capitão do porto, que a tinha descoberto e, até aos 21 anos, cresceu a acreditar pertencer àquela família. Porém, quando o pai adotivo lhe anuncia o seu passado, Nell (o nome dado pela nova família) afasta-se da família e começa a tentar descobrir o seu passado, para melhor se conhecer a si mesma. Nell acaba por ficar a meio do mistério e a sua neta, Cassandra, empreende a missão de descobrir o que faltava. Quem era Nell? De onde viera? Quem era a misteriosa mulher, a Autora, que a tinha deixado sozinha num navio? E porquê? Este é o mote para uma história densa, complexa e trágica que vai sendo revelada aos poucos, através dos pontos de vista das várias personagens das várias gerações. 

Eliza, Nell e Cassandra. Estas são as vozes principais da narrativa, havendo outras pelo meio e que acabam por ser tremendamente importantes para o conhecimento do mistério e dos porquês da sua existência. Todas elas são excelentes. Todas são complexas e com passados recheados de mistérios e acontecimentos diversos, que, todos juntos, acabam por influenciar toda a trama. Gostei de todas elas, tanto destas três como das outras, uma vez que são todas elas únicas e distintas. O leque é variado e há de tudo um pouco. Mas devo dizer que gostei mais de Eliza e da sua parte da história e o seu mistério foi muito bem guardado e criado. 

A narrativa está muito bem conduzida. O mistério vai sendo deslindado com mestria e requinte e o que parece óbvio num momento acaba por tornar-se bastante denso e complexo. A história de Nell acaba por enviar Cassandra rumo a mistério e a uma história muito mais sombria do que aquela que podia ser imaginada primeiramente. A autora não poupa nos detalhes e na criação de momentos de grande emoção. 

Outro aspeto importantíssimo para a história é o espaço. Os locais presentes ao longo da narrativa acabam por ser eles mesmos personagens. O jardim de Eliza, na propriedade para onde foi viver na Cornualha, é a fonte de tudo: do mistério, das respostas. A vida dela está ali para ser descoberta, e com isso, a história de Nell. Todas as descrições estão extremamente vívidas, coloridas...quase que é possível cheirar os aromas das flores, da macieira plantada há tanto tempo atrás. Também as descrições das ações e atitudes das personagens estão muito bem, uma vez que deixam-nos antever e ver como as personagens estão a pensar e como poderão agir em função de tais pensamentos e emoções. 

Esta história é feita de muitos ingredientes, que foram extremamente bem doseados para criar uma romance bastante denso e sombrio. O passado de Eliza na casa Blackhurst e a vivência com a sua família, em especial com a sua prima, Rose, é tudo menos perfeito e os segredos encerrados naquelas paredes são muitos e negros. A autora conduz o leitor muito bem, por caminhos labirínticos, sempre deixando antever alguma coisa, recuando e avançando devagar. 

Também gostei muito da forma como os contos de fadas de Eliza foram aparecendo e como estes foram importantes para o deslindar do mistério. Outro ponto a favor! 

Não há nada negativo a apontar nesta história, tal como não o houve em As Horas Distantes. Não vou comparar os dois livros, mas, entre os dois, acabei por gostar mais d' As Horas Distantes. O mistério desse foi mais esquivo do que o deste e tornou-se mais difícil de descobrir, o que me agradou mais. 

Em suma, recomendo vivamente a todos os que gostam de um bom romance, repleto de emoção e mistério. 

NOTA (0 a 10): 10 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Heart of Darkness, de Joseph Conrad

Sinopse: 

Romancista britânico de origem polaca, Joseph Conrad, notabilizou-se como um dos melhores prosadores em língua inglesa, através das suas histórias em que conjuga a aventura romântica e a reflexão moral. Em O Coração das Trevas (Heart of Darkness), o escritor evoca o espírito da África negra e, através da personagem de Kurtz, um misterioso comerciante branco, mostra que no homem civilizado permanecem os impulsos mais selvagens e destrutivos. Além de reflectir o choque entre as culturas colonizadas e os colonizadores europeus, esta obra conduz o leitor às trevas da selva africana e, simultaneamente, do coração humano (in Goodreads).


Opinião:

Um livro pequeno, uma leitura fluída, mas densa. Isto porque o conteúdo e as cenas descritas muitas vezes acabam por fazer refletir. 

Não posso dizer que tenha gostado muito do livro. Estava à espera de outro género de história, apesar de ter lido a sinopse e várias opiniões. Estava à espera de algo mais marcante no campo do mistério e, apesar de haver uma grande dose de mistério durante a história, esse mistério não me cativou.

As personagens estão interessante e bem elaboradas e o mistério que envolve Kurtz é bastante grande e bem construído. A história é narrada por Marlow, que conta a sua história em África a um grupo de amigos, em Londres. Dei por mim a querer saber quem ele era, o que fazia, qual a sua real função em toda a narrativa...o porquê da sua fama. Isto por causa do mistério, pois a sua fama advinha de factos horrendos.

De facto, o que me prendeu foi mesmo descobrir isso: o porquê da sua fama. O autor conseguiu criar um ambiente bastante nebulado à volta desta personagem e, com isso, criar um clima de grande expectativa. Foi o ponto forte do livro, na minha opinião. 

É uma história que faz refletir sobre a colonização da África, como foi feita e por quem. 

As descrições são outro ponto bastante forte da narrativa, uma vez que são a linguagem usada é bastante visual, permitindo ao leitor "ver" os cenários, as personagens e os acontecimentos.

Recomendo a todos os que gostam dos livros do autor e a quem tenha interesse por estes temas. 

NOTA (0 a 10): 5

sábado, 28 de janeiro de 2017

Jardins da Lua, de Steven Erikson

Sinopse:

O primeiro volume de uma obra-prima que revolucionou a fantasia Épica

Quebrado pela guerra, o vasto império Malazano ferve de descontentamento. Os Queimadores de Pontes do Sargento Whiskeyjack e Tattersail, a feiticeira sobrevivente, nada mais desejam do que chorar os mortos do cerco de Pale. Mas Darujhistan, a última das Cidades Livres, ainda resiste perante a ambição sem limites da Imperatriz Laseen. 

Todavia, parece que o Império não está sozinho neste grande jogo. Sinistras forças das trevas estão a ser reunidas à medida que os próprios deuses se preparam para entrar na contenda...

Concebido e escrito a uma escala panorâmica, Jardins da Lua é uma fantasia épica da mais elevada qualidade, uma aventura cativante da autoria de excecional nova voz. (in Edições Saída de Emergência)


Opinião: 

Depois de muito ler sobre este autor e sobre esta história era com grande expectativa que esperava por ler este livro. De facto, correspondeu a todas as minhas expectativas. Os meus parabéns à Saída de Emergência por ter apostado no autor e na saga, porque, realmente, faz jus ao Manifesto Bang! Espero que continue a editar os seguintes, porque depois deste volume maravilhoso, o leitor fica a ansiar pelos seguintes. 

Uma história ambiciosa, escrita de um modo especial e também ambicioso, com personagens maravilhosamente misteriosas e complexas, Jardins da Lua é uma livro magistral. A premissa da história é boa, cheia de suspense e muita adrenalina e merece todos os elogios que tem tido. 

As personagens estão excelentes. Todas elas são uma caixinha de surpresas. Da aparentemente mais simples até à mais complexa de todas, cada personagens é única e uma potencial causa de reviravolta para o enredo. Não há nenhuma que esteja a mais e todas têm o seu papel bastante definido. São muitas, em vários cenários e com missões bastante especiais e únicas. Gostei muito de todas e não consigo nomear nenhuma que tenha gostado mais em detrimento das outras. Porém...lá no fundo...posso dizer que a que me causou mais mistério foi o Rake. 

O que senti que me prendeu mais foi o contexto dos grupos de personagens. A história tem uma visualização panorâmica, o que faz com que o leitor consiga ver a história "de cima", podendo estar presente em momentos diferentes, que acabam por se encaminhar todos para o mesmo local, onde grande parte das personagens acabam por se encontrar todas, num desfecho emocionante e gigantesco, primorosamente orquestrado ao longo de toda a narrativa. Houve contextos que me emocionaram mais do que outros, em especial aqueles em que a magia está presente, os momentos em Darujhistan, os sonhos de Kruppe e os momentos em que a História destas civilizações é abordada e contada. 

A narrativa, como já referi, foi conduzida de forma magistral. Logo desde o começo é possível constatar o poder narrativo do autor. O que pode parecer, no começo, uma grande confusão de personagens e contextos, acaba por tornar-se num quadro de retalhos em que cada retalho é colocado no quadro no momento certo, de modo a criar uma tapeçaria gigante, complexa e perfeita. Tudo se encaixa e o puzzle cresce e conjuga-se todo à medida que a narrativa avança. Gostei muito desta perspetiva, pois, apesar de não ser a primeira vez que a encontro neste género literário, a aparente confusão inicial prende automaticamente o leitor, porque a atenção é presa num instante, bem como o interesse em deslindar toda aquela situação. 

O mundo criado também é de se lhe tirar o chapéu. Eriskson criou um mundo totalmente novo e fresco. Não há aqui nada que se possa dizer "parece...", "foi tirar ideias ali...". Não. Aqui é tudo original e isso é importante e crucial. Como grande fã deste género literário, é sempre com algum receio que começo a ler uma nova saga, porque por vezes tenho algum receio que seja parecido com algo que já exista. Neste caso, tal não acontece. Ainda não tinha lido nada parecido dentro do género e fiquei completamente convencida, tanto com a história, como com o mundo criado. 

Uma História bem contextualizada, com um passado estudado, criado de raiz, num mundo credível e bem explorado, onde as bases estão bem definidas e enraizadas, as personagens fluem naturalmente, como se fossem mesmo reais. É um mundo ambicioso, com leis e realidades diferentes e uma magia e um conjunto de deuses e deusas únicos, que está tão bem elaborado que se torna natural. Gostei da forma como a magia entra na história e molda tudo à sua volta. Está bem incrementada e é um sistema bem complexo. 

Quanto às descrições, estas são fabulosas, de cortar a respiração. O autor joga com as palavras, criando verdadeiras maravilhas. É possível visualizar perfeitamente todos os cenários que são apresentados e mesmo o que possa parecer mais estranho, de tão bem descrito, acaba por se tornar visível e compreensível. 

Em suma, um livro fantástico, com personagens fantásticas, com uma história grandiosa e cheia de estilo. É um mundo novo a ser explorado e uma aposta ganha pela Editora. O escritor é excelente! Espero ver os próximos livros brevemente por cá, para fazerem as delicias dos leitores! Recomendo vivamente, a todos aqueles que gostam de um livro cheio aventuras, mistério, magia, momentos de grande emoção, batalhas, estratégia, romance e muita, muita ação! Deixem-se levar por este mundo de magia e mergulhem em Jardins da Lua.

NOTA (0 a 10): 10

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Bizarro Incidente do Tempo Roubado, de Rachel Joyce

Sinopse:

Em 1972, foram adicionados ao tempo dois segundos para compensar o movimento de rotação da Terra. Byron Hemmings está fascinado por este fenómeno. Nesse mesmo ano, envolve-se num acidente de consequências devastadoras.

Byron e James Lowe, o seu melhor amigo, estão convencidos de que a culpa foi daqueles dois segundos. Assim, decidem iniciar uma investigação para apurar as verdadeiras razões de tal acidente. Mas desafiar o destino pode ser perigoso...

Rachel Joyce confirma o seu talento de grande romancista, com este retrato de uma família levada ao desespero pela obsessão de uma criança. (in Goodreads)



Opinião:

Este é um livro muito interessante e bem trabalhado. O que parece ser uma simples história sobre dois amigos na casa dos dez anos, acaba por tornar-se nalgo muito mais denso e complexo, com contornos bastante sérios. A história é narrada de uma forma bastante engraçada e descontraída, o que provoca ainda mais a subtil tristeza e complexidade da história. Com personagens carismáticas e bem construídas, este livro lê-se de uma forna interessante, exigente por vezes, e não nos deixa indiferentes. Esta divido entre passado e presente e essa divisão está muito bem conseguida, tendo como grande mérito dar solidez é corpo à história.

Byron e James andam numa escola particular, são ricos e estão protegidos de tudo. Um tanto diferentes de outros colegas, ambos sãos os melhores amigos. James, o mais inteligente dos dois, é a âncora de Byron e está sempre disposto a ajudá-lo. Quando, no início de 1972, lhe diz que aquele ano teria mais dois segundos, Byron entra em pânico, temendo esse tempo a mais e o que tal provocaria ao mundo no geral. 

Toda a história nasce em torno deste medo de Byron, que acaba por desencadear os mais graves acontecimentos ao longo da narrativa. A forma como a história roda e roda em torno dos dois segundos e dos medos de Byron e James acaba por dar a forma ao enredo e por ser o contexto todo da obra.  Um medo de nada, de uma criança, acaba por provocar danos irreparáveis nas vidas de todos ao redor de Byron. Mesmo que sejam, primeiramente, atitudes e acontecimentos pouco preocupantes, acabam por se transformar num mar revolto, onde James, Byron e Diana, a mãe de Byron, se veem ligados de uma forma muito unida. 

Existem vários temas abordados na história. Desde as diferenças sociais e económicas, até a questões psicológicas muito sérias, passando pela amizade e o preconceito, as personagens dão à história um contexto rico em desenvolvimentos e temas. O preconceito, principalmente, acaba por estar na base de muitas das atitudes das personagens, bem como o medo, que é gerado pelo preconceito, que também é gerado pelo medo, como um círculo. Preconceitos sociais, económicos, físicos, psíquicos são os principais e estão muito bem trabalhados, mesmo que nem sempre sejam logo notados à primeira vista. Tudo é tão subtil que nada está dito expressamente.  

Todas as personagens são interessantes e complexas, se bem que o grande trunfo acabam por não ser tanto as personagens mas as suas ações e sentimentos. O que gira em torno delas é que faz com que a história aconteça. 

Não é uma leitura fácil, pelo menos a partir do meio do livro. Inicialmente é como que uma história engraçada com um contexto original. No entanto, a dado momento o que era engraçado e original passa a ser muito sério e acontece uma espécie de decadência das personagens. Não que percam interesse, mas que elas próprias, nas suas realidades, acabam por desfazer-se e modificar-se tanto, mas tanto, que a decadência é grande. O que era belo torna-se feio, o que era ativo, passivo e até apático. As personagens sofrem imensas transformações ao longo da história, o que faz com que a história siga o seu percurso. 

A escrita é muito bela e original. A autora consegue criar imagens visuais muito fortes e marcantes através do uso de determinados vocábulos, expressamente usados de modo a criar tais imagens. Os significados das ações, descrições e acontecimentos também estão muito bem descritos e apresentados. 

Em suma, gostei bastante da história e recomendo-a a todos os que gostam de um bom livro. 

NOTA (0 a 10): 9

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Os Hóspedes, de Sarah Waters

Sinopse:

1922. Londres vive dias de tensão.

Numa casa de gente bem-nascida, no sul da cidade, cujos habitantes ainda não recuperaram das perdas devastadoras da Primeira Guerra Mundial, a vida está prestes a modificar-se. 

A senhora Wray, e a sua filha Frances - uma mulher com um passado interessante a caminho de se tornar uma solteirona - vêem-se obrigadas a alugar quartos. 

A chegada de Lilian e Leonard Barber, um jovem casal da "classe média", traz uma série de perturbações: a música do gramofone, o colorido, o divertimento. As portas abertas permitem a Frances conhecer os hábitos dos recém-chegados. 

À medida que ela e Lilian são empurradas para uma amizade inesperada, as lealdades começam a mudar. Confessam-se segredos e admitem-se desejos perigosos; a mais vulgar das vidas pode explodir de paixão e drama. 

A autora de Afinidade e Falsas Aparências, entre outros, surpreende-nos, uma vez mais, com esta história de amor que é também a história de um crime.

Esta é Sarah Waters no seu melhor: tensão permanente, ternura verdadeira, personagens autênticos e surpresas constantes. (in Goodreads)



Opinião;

Desde que li O Indesejado que fiquei fascinada pela mestria da autora. Mestria a todos os níveis necessários e desejados para que o livro seja uma obra prima...uma obra de arte. Assim, tendo gostado muitíssimo d' O Indesejado, esperei atentamente pela edição portuguesa de The Paying Guests ou Os Hóspedes. Quero agradecer à Editora por me ter dado a oportunidade de ler este maravilhoso livro e por me ter dado a conhecer esta autora, aquando da leitura do já mencionado O Indesejado

Neste livro, a autora dá-nos a conhecer personagens muito interessantes e complexas, envoltas numa trama quotidiana, mas cujo centro é bem denso e intrincado. 

Miss Frances é uma mulher forte, autónoma e senhora de si mesma. Quando põe a sua casa senhorial com para alugar uma parte da casa, não estava à espera de tanta diferença à sua volta, uma vez que o casal que para lá vai morar é bastante diferente dela e de sua mãe: um autêntico casal dos anos 20 ou seja, despreocupado, com algum sucesso e que fingem euforia para não mostrar os seus reais sentimentos e realidades. Frances acaba por ficar inebriada pela extraordinária Mrs. Lilian e um tanto na dúvida quanto a Leonard. E, à medida, que se vão conhecendo, vai crescendo uma amizade que é mais do que aquilo que parece...uma amizade pouco convencional para a época e que vai acabar por influenciar toda a história. 

Gostei muito da forma como a autora introduz a história e as personagens. Aparentemente, tudo é normal e do dia a dia. Nada é estranho ou está fora dos padrões de normalidade de uma vida quotidiana da classe média alta inglesa, a viver algumas dificuldades no pós-guerra. As tarefas do dia a dia são descritas e tratadas de uma forma bastante normal, mas que acaba por ter a sua própria melodia e a magia. São descritas e elaboradas de forma natural, mas têm no seu teor uma certa ironia muito bem disfarçada. 

Tal também está presente nas relações entre as personagens. Mais uma vez, é-nos apresentada um complexa rede de emoções e relações entre as personagens. Não que sejam muitas personagens! Nada disso. Aliás, são bastante poucas. Mas isso mesmo provoca uma enorme tensão entre elas, tensão essa que está tão vincada, tão vincada que é possível sentir as vibrações de tal tensão. Existe uma multitude de emoções vividas pelas personagens ao longo  que despoletam as mais diferentes ações e reações. O que parece ser algo de pouco acaba por ser como que uma onda gigante na teia que é o enredo onde as personagens habitam. A autora é, de facto, uma mestre nesta arte. 

Mas é também uma mestre em manipular as personagens, o enredo e o leitor. Apesar de a história ser um pouco previsível (coisa que O Indesejado não é!), até se chegar a tal momento tudo é imprevisível e estonteante. O que começa por ser calmo e trivial, transforma-se nalgo revolto e violento. 

As descrições são de grande beleza, beleza essa que não tem nada de grandioso, mas sim banal. E nessa sua banalidade mostra-nos a sua subtil beleza, a beleza do dia a dia e das tarefas rotineiras. É de facto muito inteligente. 

Mais uma vez fiquei rendida à autora e espero poder ler mais das suas obras, porque são maravilhosas e cada uma traz sempre momentos de grande emoção e admiração. Recomendo vivamente a todos os que gostam de uma história inteligente e poderosa, onde a amizade e o romance estão por trás de momentos muito marcantes. Uma excelente aposta da editora! 

NOTA (0 a 10): 9