Mostrar mensagens com a etiqueta Gollancz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gollancz. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

The Boy With The Porcelain Blade, de Den Patrick

Sinopse:

Lucien é um Orfano, um jovem com capacidades especiais, e está prestes a realizar o seu último teste para ingressar na sociedade de Landfall, bem como numa das suas quatro casas. Com capacidades extraordinárias para o uso da espada, Lucien quer ser um importante homem de armas, para assim defender o seu rei. Porém, quando o seu mundo muda e se vê como um proscrito, Lucien tem de fazer tudo para se salvar... a si e aos seus amigos. 



Opinião:

Um livro que me chamou a atenção pela capa e pelo título e que conseguiu prender-me até ao final, se bem que, pelo meio, existam algumas partes mais mornas. É o primeiro de uma trilogia, (Erebus Sequence) e ainda não há em Português. Gostei bastante d' O Rapaz com a Espada de Porcelana.

Passado em Landfall, uma terra com inspirações italianas e renascentistas, com um toque de Scott Lynch e Mervyn Peake (apesar de este autor ainda não ter lido), este primeiro volume centra-se na personagem de Lucien, que é um Orfano, ou seja, um membro distinto da sociedade, cuja ascendência é desconhecida e com características diferentes, em especial particularidades estranhas, sendo que, no caso de Lucien, é não ter orelhas, em conjunto com o sangue azul que todos os Orfanos partilham. 

Lucien foi criado pelos melhores professores para ser um género de par do reino e para servir o rei de Landfall, uma figura misteriosa e reclusa na sua torre, que todos temem mas não conhecem. Sempre alvo de gozo e bulling pelos outros colegas (Orfanos e não-orfanos), Lucien, um dos Orfanos com menos capacidades para lutas, cedo teve de arranjar outras armas para sobreviver numa sociedade hostil, tornando-se misterioso e bastante inteligente. Porém, quando é expulso da sociedade pelos seus superiores, vê-se na situação de tentar salvar-se a si mesmo, mas também àqueles que o tinham ajudado, e que também estavam a sofrer perseguições. 

Não querendo estar a levantar muitos spoilers, porque isso estragaria a possível leitura de muitos de vós, não há muito mais para acrescentar ao enredo. O forte do livro é mesmo o mistério à volta da ascendência dos Orfanos, da figura do rei e dos podres da sociedade de Landfall, que acabam por ser extremamente negros, dando ao livro um cariz muito misterioso e até macabro, em especial nalgumas das partes finais. 

Lucien é uma excelente personagem, muito carismática e honrada, que faz tudo pelos seus amigos e por aqueles que necessitam, mesmo que não gostem dele. Muito altruísta e de bom coração, conseguiu-me prender durante todo o livro, na expectativa de saber como é que ele iria escapar da quantidade de perigos pelos quais vai passando ao longo da história. Também há outras personagens muito interessantes, tais como: Anea, Dino, Mojordomo, entre outras, que trazem complexidade e mistério à história. 

A estrutura narrativa é dividida em duas: presente e passado, sempre pelos olhos de Lucien, se bem que não seja ele o narrador. Tal estrutura torna a leitura também mais interessante, uma vez que os acontecimentos do passado estão sempre intimamente ligados com os do presente da personagem.

Gostei muito da história em si, do mistério criado, da ação, das emoções, mas achei que tinha descrições a mais e contextualização a menos. Ou seja, o mundo criado pelo autor podia estar mais desenvolvido. Gostava mais de saber factos, curiosidades, as bases de Landfall (para além dos pequenos detalhes que vão aparecendo e que são poucos) e do seu castelo gigante, da sua sociedade, dos seus costumes. Enfim, podia ter mais identidade. Tirando isso, e em especial a parte final, o livro é excelente. 

Toda a sequência final é estrondosa, o que acaba por salvar outros aspetos menos interessantes. Sem dúvida, a parte da luta final é uma das mais vibrantes dos livros que tenho lido. 

Em suma, um livro interessante, com personagens enigmáticas e uma história rica e cheia de ação. Espero que os próximos sejam ainda melhores e que se fica a saber mais sobre este contexto! 

NOTA (0 a 10): 8  

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

The Gospel of Loki, de Joanne M. Harris

The Gospel of Loki é o terceiro livro da autora Joanne Harris que tem como contexto a mitologia nórdica. Depois de ler A Marca das Runas e A Luz das Runas, não podia deixar de querer ler este! 


Neste livro, Loki é o narrador e é ele que conta a sua história e a do começo dos mundos até ao Ragnarok, tendo em conta o seu ponto de vista. Com uma linguagem muito fluída, irónica e bastante sentida, Loki vai contando a sua história, à qual chama de Gospel of Loki (traduzido livremente por mim como O Hino de Loki, ou algo do género). É como que uma explicação pelo que fez durante a sua estadia em Asgard.

No início, Loki começa por introduzir o contexto da sua narrativa, explicando como começaram os mundos de acordo com a História: o Caos (fogo) entrou na Ordem (gelo) por meio de erupções subterrâneas que derivaram na existência de vida (temperaturas tépidas na superfície gelada geraram vida). Vida essa que teve como primeiro ser um gigante de nome Ymir e depois uma vaca (Audhumbla), que quando lambeu o gelo pôs a descoberto o primeiro Aesir, Buri. Buri foi pai de Bor que foi pai de Odin, Vili e Ve. Estes três acabaram por matar o gigante Ymir e, dele, fizeram os elementos dos mundos (o sangue deu origem ao mar, a carne deu origem à terra, o cabelo deu origem à vegetação, o cérebro deu origem às nuvens e o crânio deu origem ao céu). Depois de várias batalhas pela conquista dos mundos, acabou por se chegar à conclusão de repartir as terras pelas diferentes raças, que entretanto apareceram: povo do gelo, povo das rochas, humanos, Vanir, bruxas, feiticeiros, monstros. Os Vanir, nascidos de ligações entre os do Caos e os humanos, acabaram por ganhar mais magia do que os Aesir, uma vez que a magia era um dos poderes do Caos. E com a magia, vieram as Runas, que Odin acabou por cobiçar.

Gullveig-Heid, representante dos Vanir e uma das mais poderosas, foi até Asgard para negociar, mas os Aesir tentaram matá-la por três vezes no fogo, ao que ela conseguiu renascer e fugir, incentivando o seu povo e outros povos à guerra contra os Aesir. A guerra alastrou-se, até que Odin tentou mais um esquema: trocar reféns com os Vanir. Mandou-lhes Mimir e Honir e em troca ficou com Njord e os seus filhos (Frey e Freyja), na medida que os dois Aesir contribuíssem com ensinamentos de estratégia de guerra e os três Vanir contribuíssem com ensinamentos das runas. No entanto, Mímir e Honir tinham um esquema para dar informações falsas, o que levou à decapitação de Mímir, cuja cabeça voltou para Asgard com Honir. Odin acabou por preservar a cabeça com runas e transformou-a num oráculo, que guardou para si. Tempos depois, com novas ameaças dos povos do gelo e das rochas, os Aesir e os Vanir acabaram por se juntar em Asgard e, no final da guerra, uniram-se.

Com o tempo, Odin acabou por compreender que o que lhe fazia falta era alguém que fizesse os “trabalhos sujos” que ajudariam os Aesir a continuar no poder e depois de muito procurar (com a ajuda dos seus dois corvos Munin e Hugin), acabou por encontrar Loki, ainda na forma de Fogo Selvagem, um filho do Caos, filho de Laufey (uma chama) e de um monte de paus.

Loki, curioso por natureza, também andava à procurar de Odin. Andava à procura dos Aesir e dos Vanir através do Sonho, para descobrir quem é que andava a usar as runas e a magia, um dom do seu povo. Sonhava também ser livre, algo que não era no Caos, sempre subjugado por Surt, o Senhor do Caos. Assim, nas margens do rio de Sonho, Loki e Odin encontraram-se, este chamando pelos nomes de Loki de modo a trazê-lo para o seu lado. Loki mudou para o aspeto humano e acabou por se deixar seduzir pelo pedido de Odin: Loki seria um dos deuses, moraria em Asgard, seria estimado e bem tratado, estaria sob proteção de Odin, que seria seu irmão de sangue, trabalharia para Odin e não mais poderia regressar ao Caos. Para isso, como marca de aliança, marcou-o com a runa Kaen (runa do fogo) e levou-o para Asgard. Lá, Loki só encontrou ódio e rancor por parte dos outros Aesir e Vanir, exceto Idun (que não tinha sentimentos negativos por ninguém) e Sygin (que se apaixonou por ele).

A partir daí, Loki conta como foi a sua vida no meio dos deuses, como se deixou encantar e deslumbrar, como acabou por encontrar nada mais do que traição e ódio, como se tornou mais humano do que criatura do Caos, como se sentiu envolto em sentimentos e sentidos que o atormentaram, como encontrou algo parecido com Amor, com família, com amizade, e como acabou por perder tudo, restando-lhe apenas a vingança como arma contra aqueles que o acolheram com sentimentos de raiva e medo, contra aqueles que poderiam ter sido a sua família e que acabaram por se revelaram nada mais do que carrascos. Assim, Loki vai narrando a sua história e como esta se entrelaça com a história dos mundos, com o seu inícios e os seus finais.

Gostei muito do livro, mais do que dos outros dois. Apesar de gostar imenso de A Marca das Runas e de A Luz das Runas, The Gospel of Loki, ultrapassa-os, na minha perspetiva. Isto porque: tem o Loki como narrador e suprema personagem principal (ele é o meu favorito destes livros); tem uma linguagem mais adulta, mais assertiva, mais irónica; tem como cenário Asgard e outros locais míticos; os deuses estão mais presentes; existem momentos de pura melancolia e até bastante tristes, que estão muito bem doseados com momentos de puro riso; é uma boa forma de ficar a conhecer melhor a mitologia nórdica e, em especial, Loki e o seu papel nesta.

Uma vez que, já nos outros livros, Loki tinha-se revelado um eixo fundamental e um pilar de estruturação da história, isso é exponenciado aqui, sendo o narrador e a personagem principal. Também é possível, ao ler nas entrelinhas, descortinar o papel que ele teve em todos os momentos, especialmente nos momentos finais, que servem de ligação para alguns dos acontecimentos dos outros dois livros, principalmente do primeiro. Este livro é como que a base para tudo o que se desenvolve nos seguintes, porém, não significa que seja mais interessante lê-lo antes dos outros. Mesmo porque a ordem de escrita foi: A Marca das Runas, A Luz das Runas, The Gospel of Loki. Este livro é como que a chave para algumas pontas desatadas de algumas partes dos enredos dos outros dois livros, ou pelo menos para quem não é tão conhecedor da mitologia nórdica. Porque sim, o livro é uma espécie de reconto de alguns episódios desta mitologia, mas a forma como é narrado é soberba.

Mais uma vez, Joanne Harris volta a encantar com a forma como desenvolveu mais um capítulo desta história com base nos mitos nórdicos. Para mim, este supera os outros dois. E é pena que, em princípio, seja um standalone, dada a forma como terminou. Por falar nisso, esta é a prova que é possível escrever histórias boas, com um enredo rico, complexo, fantástico, sem ser necessário recorrer a vários livros. Neste pequeno livro (cerca de 300 páginas), acontecem mais episódios do que em qualquer dos outros dois livros passados neste contexto.

Não podia deixar de mencionar outro facto que muito me agradou: a final do livro. Ao longo do livro, o narrador vai-nos dando pistas sobre o final (e todos os que leram os outros dois livros, ou apenas um, ou que conhecem alguns episódios desta mitologia) e eu já sabia o final, pelo menos, a parte mais visível do final. Porém, a mestria com que ele narra a história, a forma como ele utiliza as palavras e as usa para criar os significados subtis que pretende mostrar ao leitor, faz com que o final seja muito mais do que aquilo que se estava à espera. Este é, simplesmente, brilhante, bem como em certa medida, bastante triste. Como referi à pouco, existem momentos de puro riso porque a forma como ele narra e alguns dos episódios que são narrados, permitem que o leitor dê várias gargalhadas. No entanto, Loki mostra ser um ser que também é capaz de refletir, de sentir, de se angustiar e sofrer, de tal modo e de tal forma que faz com que certos momentos do livro se tornam bastante melancólicos. Refiro-me em especial aos momentos com os filhos dele e àqueles em que ele é traído.

É uma história mais adulta do que as dos outros livros. Existem diversas batalhas, com excelentes descrições que me fizeram imaginar lá dentro, o que é muito bom. Existe ação, drama, alegria, amor, magia (muita magia), intriga e dualidade. Estão presentes todos os ingredientes que promovem uma boa história, com um enredo forte e perfeito. Existe um excelente equilíbrio destes ao longo da narrativa. As personagens estão excelentes, muito diferentes umas das outras, muito bem caracterizadas e definidas. Todas elas têm o seu papel determinante para o global da história. Nada aparece por acaso e tudo o que é narrado é importante…tudo está ligado. E essas ligações são bastante expostas pelo narrador, que, enquanto narra a sua história, faz também uma reflexão sobre a sua vida, sobre as suas escolhas e sobre tudo o que poderia ter tido ou feito, pesando todo o seu passado em busca de uma espécie de redenção. Não há apenas um lado nele, não há apenas maldade ou gosto por enganar, por trair. Não. Esta história dá a conhecer um Loki muito mais complexo, um Loki que sempre foi mal-entendido pelos seus pares, que não foi aceite e que por isso se viu votado ao abandono e sem ninguém. E, no fundo, o que ele mais queria era alguém. Da sua maneira, mas alguém.


Um livro maravilhoso. Ainda não está traduzido para português, mas penso que alguma editora (a ASA, talvez…uma vez que traduziu os outros dois) o irá fazer. Espero que leiam e que gostem tanto como eu gostei. Recomendo a todos.


Podem encontrar mais informações no site da autora, aqui

Algumas citações:

Words, like names, are powerful things. Once given, there's no taking them back without risking serious consequences. p. 235

Or was this the scenario she'd always secretly wanted - to have me to herself for good, helpless and in her power?
"I brought some fruitcake for later," she said "If you like I'll cut you a slice."
"Cake," I said. "You brought cake?" p. 243

History spins its yarn, breaks threads, spins again, like a child's top, going back to the beginning. The Oracle knew that. That's what those last stanzas mean; a new world, rising from the ruins of the old. p. 294

NOTA (0 a 10): 10 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

The Republic of Thieves, de Scott Lynch

Este é o terceiro livro da saga dos Cavalheiros Bastardos. Li o primeiro em Português, o segundo e este em inglês uma vez que ambos não se encontram editados em Português. Como fiquei apaixonada pelo primeiro e depois pelo segundo, não estive para esperar mais e decidi avançar para a leitura do terceiro. E que espectáculo!


Depois de ter deixado o Locke num estado bastante complicado no final do segundo livro (Red Seas Under Red Skies), foi com grande entusiasmo e curiosidade que iniciei esta leitura. No final do segundo livro, Locke e Jean veem-se a mãos com apenas um frasquinho de uma dose de antídoto contra um veneno latente e produto de alquimia negra. Jean acaba por tomar o antídoto sem saber (invenção do seu amigo)e quando vão discutir quem é que toma o quê, Locke informa-o que já o tinha tomado, uma vez que Locke o tinha misturado no copo de vinho do amigo. Deste modo, Jean vê-se na situação de tentar encontrar uma cura para Locke, que durante seis semanas de viagem pelo mar, começa a dar sinais da doença. Vêm-se em Lashain e com poucos recursos. Depois de vários médicos encontrarem-se com Locke, nenhum encontra uma cura ou um tratamento e os amigos começam a desesperar. Até que aparece uma misteriosa senhora de nome Patience (Paciência). Patience é uma Bondsmagi que promete curar Locke se este e Jean participarem nas eleições da República de Karthain. Duas fações, dois mestres por trás do jogo político de cada fação. Locke e Jean pelos Deep Roots (tradicionalistas) e alguém misterioso pelos Black Iris (mais inovadores). Estas duas fações são geridas (em segredo) pelos Bondsmagi, sendo que os mais tradicionalistas gerem os Deep Roots e os mais revolucionários, os Black Iris. Estes mais revolucionários seguem uma ideia de submeter os não-mágicos ao poder dos mágicos (dos Bondsmagi) e são liderados principalmente pelos mais jovens, nomeadamente o Falconer, o famoso assassino contratado pelo Capa Raza do primeiro livro.

História, lendas, intrigas, política, amor, passado, presente e futuro, entrelaçam-se ao longo desta história. O livro está dividido em partes, estando intercalado entre capítulos e interlúdios, havendo também outras partes (intersects) que se cruzam para mostrar acontecimentos que estão por detrás dos narrados nos capítulos. Nos capítulos temos o presente da narrativa. Nos interlúdios é apresentado a vida do Locke ao longo da sua infância (5 anos, mais ou menos) até à juventude (16 anos) ou mais concretamente desde que conheceu Sabetha Belacoros até ao desenrolar da sua relação com ela.

Sabetha aparece finalmente! Depois de ter "ouvido" falar dela durante dos livros, finalmente "vejo-a" em ação. Sabetha é uma personagem bem interessante. É inteligente, esperta, perspicaz, alerta, sempre pronta para arranjar um plano. A admiração e amor de Locke por ela é um fator muito rico ao longo da história, pois é o que sustenta muito do que acontece ao longo da narrativa. Locke sempre a amou e tudo o que fez e faz para o provar fez com que eu estivesse sempre na expectativa (será que vai dar certo? será que ele vai conseguir? oh não! ahh! e por aí fora) quanto as resoluções das duas personagens. Não é uma relação nada fácil. Sabetha é, para além dos adjetivos mencionados acima, teimosa e um tanto insegura. São características que fazem com que ela se torne mais humana. Não é perfeita, tal como Locke não é. A sua relação com Locke é muito ambígua e todo o percurso de ambos é bastante sinuoso.

Como a narrativa anda para trás, os irmãos Sanza, o padre Chains e outras personagens que apareceram no primeiro livro, voltam a aparecer. Gostei muito de os "rever". Também gostei de ver Jean tomar parte dos Cavalheiros Bastardos e como a sua relação com Locke progrediu durante a juventude de ambos.

Mas Sabetha não é o mais espectacular do livro! Não! O mais espectacular é algo que eu não vou aqui mencionar, mas que está relacionado diretamente com a identidade do Locke. Locke Lamora... já sabíamos que este não o seu verdadeiro nome. Então qual será? Quem é ele? De onde vem? Nunca se soube exatemente a sua origem, nem a sua idade, nem como sobreviveu à praga do bairro de Cathfire... Pois bem! O que posso dizer é que a história de Locke Lamora é mais complicado do que poderíamos supor. E é muito mais rica!

Scott Lynch fez um trabalho notável com este livro. The Republic of Thieves consegue ser mais denso do que o anterior e também mais rico e mais contextualizado. Não é apenas uma continuação. Este livro dá-nos o contexto da vida das personagens, pois nos interlúdios é possível compreender e observar como é que as personagens cresceram e como se tornaram no que são atualmente. Deste modo, completa tudo o que foi apresentado n'As Mentiras de Locke Lamora. Dá-nos o background das personagens, das suas vivências, da sua história e de como se foram relacionando ao longo do tempo. Dá-nos ainda a perspetiva presente, relacionada com a passada. A mestria com que o autor organizou a obra é fundamental para a compreender, tanto em si, como às personagens e às suas resoluções e atitudes. Os intersects também são partes fundamentais, uma vez que nos abrem uma nesga na janela do que se passa do outro lado, ajudando-nos a compreender e a especular sobre o que vai acontecer e o que está, de facto, a acontecer.

Todo o aspeto político do livro está bastante bem caracterizado e bem enquadrado. Todas as explicações fazem sentido e tudo se une para compor o puzzle dos acontecimentos que vão decorrendo desde o início até ao final, havendo sempre algumas perguntas em aberto...para despertar curiosidade e para permitir o seguimento. Os Bondsmagi têm aqui grande relevo e Patience é bastante interessante. É uma personagem que só enriquece a história, pois o mistério e os seus diálogos e explicações sobre a História de Karthain, dos Bondsmagi e também dos Eldren.

Todos os aspetos que eu mencionei ao longo desta revisão fizeram com que eu gostasse muito muito muito do livro. Em parte gostei mais deste do que do anterior, pois o conteúdo histórico, bem como a contextualização que referi anteriormente, são pontos bastante fortes e bem construídos. São histórias diferentes. Todos os livros da saga dos Cavalheiros Bastardos têm aventuras diferentes e novos enredos, mostrando a versatilidade do escritor. Gostei imenso de rever o Locke, o Jean e todas as outras personagens e de conhecer a amada do Locke. Espero que o próximo não demore muito tempo a sair e que seja tão bom ou melhor do que este, pois o final deste é bastante promissor e curioso!

Excelente livro, recomendo totalmente sem reservas. Maravilhoso. Uma leitura rica e densa, que envolve o leitor durante todo o percurso.


"Don't talk. Just listen; you don't have much time left. There's a second reason. I can see now how ill you've been, and how you'll have to push yourself to keep up with me. I can't let you do it, Locke. I can't watch you do it. You'll kill yourself trying to best me, and you can't ask me to permit that. Not when I could stop it. I once cared for you a great deal. I care for you now. Remember that
and forgive me"
p.300


"Tell me you never liked me," said Locke, advancing step by step. "Tell me you never found me worthwhile. Tell me we didn't have good years together. That's all it would take!"
"Stubborn, fixated-"
"Tell me you weren't pleased to see me!"
"...presumptuous-"
"Quit telling me things I already know!" They were suddenly less than a foot apart."Quit making excuses. Tell me you can't stand me. Otherwise-"
p.389

"Of course I'm not alone," she said. "You're here."
(...)
If there were two, might there not be three? Patterns behind patterns, secrets behind secrets, new strings to dance on, and these ones leading all the way back to the Bondsmagi of Karthain. Another Locke, unknown even to himself. What would become of the Lockes she knew if that stranger inside them was real? If he woke up?
"Which one of you wrote this?"
p. 522

NOTA (0 a 10): 10  

sábado, 15 de junho de 2013

"Red Seas Under Red Skies", de Scott Lynch

"Ah ... Jean, I'm afraid you've lost me."

"No." Jean raised one hand, palm out, to the man opposite him. He then slowly, carefully shifted his aim to his left - until his crossbow was pointing at Locke´s head. The man he'd previously been threatening blinked in surprise. "You've lost me, Locke."
page 520

Sinopse:

Thief and con-man extraordinaire, Locke Lamora, and the ever lethal Jean Tannen have fled their home city and the wreckage of their lives. But they can't run forever and when they stop they decide to head for the richest, and most difficult, target on the horizon. The city state of Tal Verarr. And the Sinspire.

The Sinspire is the ultimate gambling house. No-one has stolen so much as a single coin from it and lived. It's the sort of challenge Locke simply can't resist...

...but Locke's perfect crime is going to have to wait.

Someone else in Tal Verarr wants the Gentleman Bastards' expertise and is quite prepared to kill them to get it. Before long, Locke and Jean find themselves engaged in piracy. Fine work for thieves who don't know one end of a galley from another.

in Goodreads

Opinião:

Depois de ter lido "As Mentiras de Locke Lamora", em 2011, ganhei um novo livro favorito. O primeiro livro da saga dos Cavalheiros Bastardos tornou-se logo numa maravilha para mim. O Locke Lamora é uma personagem fantástica, cheia de mistérios, mentiras, artimanhas e jogos que depressa me conquistou. Todo o ambiente e toda a história, com um enredo audaz, rico, extravagante e cheio de reviravoltas, fez-me ficar agarrada a esta história.

Como nunca mais saía o segundo volume em Português, decidi, dois anos depois, ler em Inglês. Como pude estar dois anos longe destas personagens? Como?!?!!

Scott Lynch apresenta-nos um enredo diferente do primeiro livro. Depois de um final em que tudo fica na corda bamba, com Locke a ser levado ao colo pelo seu amigo Jean Tannen para um barco com destino incerto, voltei a encontrar esta dupla a planear um novo esquema mirabolante para roubar os mais ricos, desta vez em Tal Verarr. Numa primeira parte, em simultâneo com o presente, é nos apresentado o passado, ou seja como foi que Locke e Jean chegaram a Tal Verarr, e assim ficamos a conhecer o que aconteceu até se chegar ao presente.

Locke e Jean começam por planear assaltar o cofre de Requin, o dono da casa de jogo mais famosa da cidade: Sinspire. O que eles não sabiam era que nem tudo ia correr como planeado e vêem-se confrontados com Maxilian Stragos, o "Archon" da cidade, o Comandante das tropas e da marinha, que governa a cidade em conjunto com os Priori, que são os representantes das guildas de alquimistas e artificies, que são a "nata da sociedade", também muito poderosos e que estão em "conflito silencioso" com o Archon, devido a lutas antigas e ao facto de quererem o governo da cidade para eles.
Depois de os envenenar, com um veneno latente que necessita de antídoto de mais ou menos dois em dois meses (e que só o alquimista dele sabe), Stragos obriga-os a trabalhar no seu plano.

Locke e Jean encontram-se assim com uma nova missão, pensada por Stragos, e que consiste em fazer deles dissidentes da marinha, com o desejo de se juntar aos piratas das Ghostwinds, umas ilhas um pouco distantes que sete anos antes se tinham rebelado contra Stragos, com o apoio da Capitã Bonaire, uma ex-comandante da marinha de Stragos. Essa revolta foi feita pelos piratas e acabou com Bonaire a assistir à morte dos seus apoiantes (os que foram apanhados), morrendo também depois e com a destruição das habitações e população de uma das ilhas.
Para além disso, as ilhas também têm os seus mistérios sobrenaturais e são por isso temidas.

"Yeah," said Locke, wistfully. "Yeah, she was so mad...so mad and so lovely. I used to love watching her climb. She didn't like ropes. She'd... take her boots off, and let her hair out, and wouldn't even wear gloves sometimes. Just her breeches and her blouse... and I would just-" page 214

Locke passa a ser Orrin Ravelle e Jean Jerome de Ferra, e ambos são treinados por um experiente marinheiro, Caldris. Quando partem para o mar, Locke e Jean vêem-se a braços com várias aventuras e perigos, dos quais muitos deles necessitam de uma grande dose de esperteza e coragem.

Depois de várias aventuras e contratempos, temos uma conclusão espantosa e excelente, com um final muitíssimo empolgante e grandioso, que em muito se compara ao do primeiro livro, se bem que diferente.

Por tudo isto que estive a escrever, pelas personagens, pelo enredo, pelas descrições, pelo humor, pelo perigo, pelas mentiras, pelas conclusões e acontecimentos da história, este é um livro que tem todos os ingredientes que me fazem querer ler um livro. É o meu tipo de livro perfeito, por assim dizer. Já tenho lido vários e as histórias de Scott Lynch fazem-me sempre exclamar palavras ao longo da leitura, o que é um sinal da mestria da sua obra, a meu ver claro. Se bem que é indiscutível a mestria de Scott Lynch! Excelente escritor, porque é preciso ter coragem e audácia para escrever um enredo assim (e como o do primeiro livro). 


Espero com muita curiosidade pelo próximo "Republic of Thieves" que está para sair este ano. Com um final destes, só posso querer ler o que acontece!!! A reação do Jean no fim é a minha reação!

Se gostam de livros de aventuras, não podem perder estas histórias! Fazem um grande favor a vós mesmos ao lerem-nas, porque vão-se divertir muito e até sofrer pelas personagens! Sempre com humor e boa disposição, Locke e Jean conduzem-os por uma atmosfera maravilhosa e mágica, com muita magia e mistério! 

It was a red moment, all the world from sea to sky the colour of a darkening rose petal, of a drop of blood not yet dry. The sea was calm and the air was still; they were without interruptions, without responsabilities, without a plan or an appointment anywhere in the world. page 625

"It is a favour," said Locke. "A favour to me. You save my life all the time because you're an idiot and you don't know any better. Let me... let me do it for you, just once. Because you actually deserve it." page 627

NOTA (0 a 10): 10