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sábado, 9 de dezembro de 2017

A Minha Prima Rachel, de Daphne de Maurier

Sinopse:

Sem sequer nunca se terem encontrado, Philip odeia Rachel, com quem Ambrose, seu primo, casou durante uma estadia em Itália. E quando este lhe escreve e lhe transmite a suspeita de que a mulher o quer envenenar, Philip não sente quaisquer dúvidas.

Ambrose morre em circunstâncias pouco claras e Philip jura vingar a sua morte. Semanas depois, Rachel visita-o na sua propriedade da Cornualha, e a animosidade que Philip sentia por ela vai dando lugar a um fascínio incontrolável. Quem é Rachel, afinal? Uma mulher realmente apaixonada? Ou movida por interesses pessoais? 

Daphne du Maurier confirma nesta obra o seu enorme talento para escrever histórias com uma grande riqueza narrativa, suspense intriga permanentes e uma apurada caracterização das personagens. Um romance clássico, cativante, com uma escrita belíssima. (in Goodreads)



Opinião:

Aqui está um livro que me surpreendeu. Não o conhecia, apesar de já ter lido sobre o filme, que acabei por ver enquanto o lia. Já tinha lido algumas opiniões sobre Rebecca, mas ainda não tinha tido aquele desejo de ler A Minha Prima Rachel. Mas ainda bem que o descobri, porque foi uma leitura sublime, cheia de emoção e surpresa. 

A Minha Prima Rachel conta a história da prima de Philip e do mistério que a envolve. Philip, um jovem rapaz da Inglaterra rural, ao cuidado do seu primo, Ambrose, tem uma bela casa para administrar e cuidar. O seu primo, depois de partir para a Itália em busca de uma saúde melhor por causa do clima, casa com Rachel, uma mulher com um passado escondido, cujo primeiro marido fora morto em duelo. Quando Philip começa a receber cartas de Ambrose cujo conteúdo é dúbio em relação a Rachel, Philip começa a desconfiar da prima. E quando Ambrose morre doente, Philip acredita que foi Rachel que o envenenou. Mas, quando Rachel aparece na sua casa, o que era certeza acaba por tornar-se nalgo mais complexo e Philip vê-se num complexo jogo do qual não sabe sair. 

Uma história muito bem contada, repleta de mistério, suspense, intriga, romance e com uma narrativa maravilhosamente orquestrada, cuja escrita é soberba e muitíssimo acutilante. A autora criou uma aura de mistério numa história aparentemente óbvia e plana. Pelos olhos e palavras de Philip, o leitor entra na vida daquelas personagens, torna-se parte do cenário e do enredo e consegue assim seguir os passos de Rachel, ou antes, aqueles que Philip acredita serem os seus interesses, porque Rachel começa e termina por ser uma das mais misteriosas personagens da Literatura, cujos segredos e razões são um mistério. 

Em relação às personagens, só tenho a referir que são todas maravilhosas. Por mais normais que sejam, por mais comuns, todas elas são de uma complexidade ínfima, sendo Rachel a mais complexa de todas. Philip também tem o seu fascínio. O seu amadurecimento tem muitos altos e baixos e não tem um crescimento linear. É confuso e complexo e nem ele mesmo se compreende muito bem, pois é bastante imaturo. Com mudanças de humor que fazem com que a leitura seja uma montanha russa de emoções, uma vez que é ele o narrador, Philip leva o leitor para um mundo de sombras e segredos. Começa por apresentar Rachel como uma bruxa, uma assassina, para depois se apaixonar por ela e dar a conhecer uma Rachel que pode ser verdadeira, mas que está bem escondida, terminando por mostrar uma Rachel que é um mistério maior do que aquilo que foi parecendo ao longo de toda a narrativa. 

A forma como ele narra a história permite criar um clima tenso, elétrico e sombrio, o que faz com que o leitor esteja sembre num sobressalto e na tentativa de descobrir o que aconteceu e quais são os motivos de Rachel. É uma história de mistério, e o mistério está muito bem criado e muito bem conseguido, pois não é linear, nem fácil de entender nem de esclarecer. Aliás, o que parece ser logo muito fácil, acaba por se ir enevoando ao longo da leitura, deixando o leitor na dúvida até depois de terminar o livro. E foi isso mesmo que me conquistou, para além das personagens, da narrativa, da escrita... foi a perfeita dúvida quanto a Rachel e como a autora conseguiu deixá-la ser um mistério. 

Com uma escrita simples, mas cheia de detalhes e com uma clareza excelente, a autora dá a conhecer aquilo que é importante para a história em si e aquilo que é importante para o lado sombrio do enredo. Descrições fortes, belas e poderosas, diálogos elevados e cheios de emoção, fazem de A Minha Prima Rachel um livro belíssimo, que, a nível da escrita, fez-me lembrar Longe da Multidão, de Thomas Hardy.  

Um dos melhores livros que li este ano, sem dúvida. O filme, apesar de ter um final um tudo diferente, não lhe chega nem perto. Está interessante, mas o livro é muito melhor, na minha opinião. Recomendo vivamente! Uma história para ler com calma e saborear, apesar da narrativa e da escrita em si darem vontade de o devorar. Um livro belíssimo, com personagens únicas, mistério, romance...tudo aquilo que faz de uma história, uma obra de arte. 

NOTA (0 a 10): 10

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

As Horas Distantes, de Kate Morton

Sinopse:

Tudo começa quando uma carta, perdida há mais de meio século, chega finalmente ao seu destino...
Evacuada de Londres, no início da II Guerra Mundial, a jovem Meredith Burchill é acolhida pela família Blythe no majestoso Castelo de Milderhurst. Aí, descobre o prazer dos livros e da fantasia, mas também os seus perigos.

Cinquenta anos depois, Edie procura decifrar os enigmas que envolvem a juventude da sua mãe e a sua relação com as excêntricas irmãs Blythe, que permaneceram no castelo desde então. Há muito isoladas do mundo, elas sofrem as consequências de terríveis acontecimentos que modificaram os seus destinos para sempre. No interior do decadente castelo, Edie começa a deslindar o passado de Meredith. Mas há outros segredos escondidos nas paredes do edifício. A verdade do que realmente aconteceu nas horas distantes do Castelo de Milderhurst irá por fim ser revelada...
(in Goodreads)


Opinião: 

Tinha bastante curiosidade em ler os livros desta autora. Primeiro, porque as suas sinopses sempre me despertaram a atenção; segundo, pelas suas fantásticas opiniões no Goodreads. E foi uma agradável descoberta, que só não foi uma surpresa porque esperava uma boa história, sendo isso mesmo o que aconteceu. Esta história prendeu-me logo nas primeiras páginas, criando um imaginário muito forte e deixando-me sempre em suspense, sempre a querer ler mais e a desvendar o mistério por detrás de tanta história. 

O livro, tal como refere na sinopse, conta a história de uma jovem editora, que, depois de ver a sua mãe receber uma carta misteriosa que tinha sido perdida no período da Segunda Guerra, fica completamente curiosa sobre de onde veio a carta (do castelo de Milderhurst) e sobre todo esse mistério. Mistério esse que reside na vida, mais especialmente num determinado acontecimento numa noite de tempestade em outubro de 1941, em que tudo se alterou no castelo de Milderhurst, sendo que as três irmãs nunca mais foram as mesmas. Sempre com momentos de grande intriga, mistério, romance e drama, a autora conseguiu criar um excelente romance com toques de mistério muitíssimo bem escrito e contado, uma vez que é narrado com extrema mestria. 

O enredo é fortíssimo, cheio de momentos de grande tensão e emoção, que me deixaram presa à leitura. Senti constantemente um grande apelo por saber mais, desvendar o segredo por detrás do castelo, por detrás das irmã ...e isso é revelador da força do enredo e do seu mistério. Não é um enredo previsível, sem sombra de dúvida, antes pelo contrário, e isso é fundamental numa história deste género. Tem todos os ingredientes que uma boa história deve ter e em doses bem repartidas. 

As descrições também são fantásticas e muito bem elaboradas, sem serem maçadoras. É possível sentir, ver e estar com as personagens ao longo da narrativa por causa das descrições pujantes e cheias de vida. Mesmo descrições de momentos sem corpo, como "ser chamado do meio do livro" (quando se está a ler e se é chamado), estão tão perfeitas que servem para definir esses momentos que por si mesmos não têm definição. É como se estivesse lá, se estivesse com as personagens...como se se fizesse parte do castelo e daquela história. São, de facto, descrições de grande intensidade, força e beleza. Muito assertivas e esplêndidas. 

Em relação às personagens, posso afirmar que são todas excelentes. Gostei imenso de Edith, que é a narradora e jovem editora. Sempre cheia de genica e muito curiosa, consegue ser a narradora perfeita para a história, porque está sempre à procura de respostas para os mistérios do castelo. Também gostei dos familiares de Edith, todos muito diferentes e com histórias bem fortes. E claro, também gostei das irmãs Blythe: Seraphina, Percy e Juniper, que cada uma é tão diferente da outra como o dia da noite e o sol da lua e todas têm tudo em comum e uma história tão arrepiante. Gostei de todas, cada qual à sua maneira. E também gostei muito de Tom Cavill, o eterno visitante e noivo de Juniper. 

Ao longo da leitura fui pondo várias hipóteses para a resolução dos mistérios, mas confesso que não descobri totalmente e fiquei bastante por me ter surpreendido nas minhas conjeturas, porque é sinal de que a autora conseguiu encontrar uma explicação bastante inteligente e interessante, conseguindo criar um todo global muito bem conseguido, juntando todas as peças e toda a história numa grande cúpula cheia de do passado, presente e futuro de todas as personagens. Todos os acontecimentos tiveram um propósito e uma ligação e isso está muito bem elaborado ao longo da história. 

Não tenho nenhum ponto negativo a apontar. Talvez haja quem ache a narrativa um bocadinho lenta de início, mas eu não achei, uma vez que achei isso parte integrante do mistério. 

Em suma, aqui está uma autora que espero acompanhar e que recomendo sem reservas. Excelente!

NOTA (0 a 10): 10

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Contos Misteriosos e Fantásticos, de Mary Shelley

Comprei este livro numa Feira do Livro porque estava a um preço bastante acessível e porque gostei muito de Frankenstein e por isso decidi apostar nele. Depois de alguns meses na estante, peguei nele e não foi bem aquilo de que estava à espera. Existem três contos: Transformação, O Mortal Imortal e O Mau-Olhado. O livro começa por uma breve biografia da autora.


Sinopse:

Mary Shelley é recordada sobretudo pela obra "Frankenstein". Este livro concede aos leitores, seguidores da Literatura fantástica e admiradores do período romântico inglês, uma imagem mais completa e complexa desta escritora fabulosa, ao enfatizar a completa variedade e significado da sua escrita. Um livro obrigatório para compreender a narrativa de Shelley, que trouxe uma visão inovadora que deu expressão à imaginação criadora, às inquietudes, reflexões, descobrimentos e avanços da ciência, e às possíveis transformações sociais que abalaram a concepção tradicional da orbe. Transgrediu os limites dos espaços familiarizados do mundo, infringiu o tempo conhecido por todos nós (presente e passado histórico) e, abriu a porta à especulação de outras dimensões e elementos da realidade, a par da luz e da sombra, do Belo e do Feio, do Bem e do Mal. Mary Shelley advertiu-nos que todas as ambivalências são humanas, sendo necessário contemplá-las de modo amistoso. Sob o prazer heterodoxo declarou-nos que a fealdade não é medonha, pelo contrário, pode ser maravilhosamente sedutora; somente a ambição desmesurada nas diversas áreas funcionais do ser humano e a repressão são valores não desejáveis.Estes contos misteriosos e fantásticos, traduzidos pela primeira vez para português, comprovam o talento e a actualidade desta autora quando no século XXI procuramos aparentar aquilo que afinal não somos, como na obra-prima da Literatura gótica: "Transformação", conto macabro e sinistro. (in Goodreads)

Opinião:

Estava à espera de mais Mary Shelley do que o que encontrei aqui. Estava à espera e contos mais sombrios e mais góticos e não foi bem isso que encontrei. Encontrei três contos relativamente simples e sem grande densidade, em que muitos dos elementos presentes em Frankenstein não estão presentes. Apesar de ter gostado dos contos em si, principalmente do conto do meio (O Mortal Imortal), não senti nada de gótico ou de terror em nenhum deles. São contos leves, em que se levanta um pouco o véu sobre assuntos como a imortalidade e a transformação entre o bem e o mal, mas em que não há verdadeiramente um cariz assustador ou em que o ambiente seja descrito de forma a criar emoções fortes ou até a incomodar o leitor. O terceiro conto até é bastante diferente do que estou habituada a conhecer referente à autora. 

Transformação
Em relação ao primeiro conto, Transformação, posso afirmar que gostei, principalmente dos momentos iniciais, quando a personagem principal anda nas suas deambulações juvenis e dos seus dilemas amorosos e mundanos. No entanto, achei-o um pouco morno e não senti nada em relação às personagens. Está bem estruturado e bem escrito, o ambiente está bem descrito, mas não transmite muita emoção.

NOTA (0 a 10): 6 


O Mortal Imortal

Este foi o conto que mais gostei, porque gostei das personagens, bem como das relações estabelecidas entre elas e dos acontecimentos da narrativa. A sequência dos acontecimentos também está bem elaborada e faz sentido. Tem um cariz mais sombrio, mais ao estilo encontrado em Frankenstein, e isso também me fez gostar mais deste conto. Tem também mais ação e dilemas mais interessantes do que o primeiro e o terceiro contos. 

NOTA (0 a 10): 8


O Mau-Olhado

Neste conto a autora muda um bocadinho de cenário e de cultura e isso sentiu-se bastante no conto. Realmente não parece um conto de Shelley e sim um conto de aventuras de outro autor menos na vertente do gótico e do romântico. Em relação ao enredo e às aventuras é interessante.

NOTA (0 a 10): 5

Em suma, uma pequena antologia, que tem o seu interesse, mas da qual esperava mais emoção. Recomendo aos interessados em Mary Shelley para conhecer mais alguns dos seus contos. Um livro interessante, com três contos pequenos e que se leem muito bem.

NOTA GLOBAL (0 a 10): 6

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A Elizabeth Desapareceu, de Emma Healey

Tive a oportunidade de ler este livro através da Editora Marcador e quero agradecer a experiência. Além da maravilhosa capa que tem, acabou por ser uma leitura diferente!


Sinopse:

Um mistério, um crime não resolvido e uma personagem inesquecível: Maud.

Maud está convencida de que a amiga desapareceu, mas ninguém acredita nela. Tem cerca de 80 anos e o seu contacto com a realidade não é o mesmo de outros tempos. Existem pedaços de papel por toda a casa: listas de compras e de receitas, números de telefone, notas sobre coisas que aconteceram. É a memória em papel que impede Maud de esquecer as coisas. De repente, nas mãos de Maud encontra-se uma nota com uma mensagem simples: «Elizabeth desapareceu.». É a sua letra, mas não se recorda de a ter escrito. O que aconteceu?

Maud está certa de que a amiga corre perigo.
(in Goodreads)


Opinião:

Gostei da história. Gostei da forma como Maud se apresenta e da forma como narra a história, entrelaçando os acontecimentos do presente com os do passado e que podem ser comparados. O ambiente de leve suspense que trespassa a obra deixou-me sempre a pensar na trama e dei por mim a ler o livro a uma grande velocidade. Uma excelente narradora, com um discurso fluído e simples, que a autora sobe moldar para dar carácter à personagem de Maud.

Maud é uma velhinha muito interessante. Com os seus 80 e tal anos, com problemas de memória e com uma história complicada por resolver no seu passado enquanto jovem, Maud consegue ser um enigma. Ela passa aproximadamente metade da história à procura de Elizabeth, outra senhora idosa, sua amiga, o que dá um certo mistério ao enredo, porque há a grande pergunta: o que aconteceu a Elizabeth?

No entanto, para mim, o grande mistério da história não foi esse e sim o do passado de Maud: a sua irmã, Sukey. No rescaldo da 2ª Guerra Mundial, Maud e a família vivem o dia-a-dia num ambiente que se vai tornando diferente a cada dia, devido ao final da guerra. Ainda com racionamento e com alguns problemas, Maud vê a sua irmã, Sukey, desaparecer. Casada com Frank, um homem amistoso mas com algumas questões mais negras, Sukey é feliz, mas tem alguns comportamentos estranhos, que mais tarde acabam por se manifestar através de conversas com vizinhos, quando Maud parte em busca de Sukey. Com a polícia a tentar descobrir o seu paradeiro e com as notícias de várias mulheres a fugir dos maridos regressados da guerra, bem como de uma assassino em série, Maud tenta descobrir por si mesma o que aconteceu com a sua irmã. 

Tudo o que se vai descobrindo sobre este episódio é transmitido por Maud, em pequenos trechos de pensamentos, que vão aparecendo em paralelo com a busca por Elizabeth, e a dado momento o mistério fica um tanto baralhado, o que faz parte do enredo e acaba por ser interessante, porque trás suspense à obra. 

Achei que o tema foi bem explorado; o dia-a-dia e as dificuldades de uma pessoa que está a perder a memória está bastante explícito e bem trabalhado e esse tema acaba por sobressair mais do que o mistério em si, o que me deixou um bocadinho desiludida, porque estava à espera que houvesse mais suspense e que essa parte da história, o mistério do passado de Maud, estivesse mais desenvolvida. Porque, no final, o que interessa mesmo é saber de Sukey e não de Elizabeth, e o que é que acontece? A resposta ao mistério fica a meio. Há uma nuvem que encobre o que aconteceu e que só desaparece tenuemente, como que por um breve instante. Penso que, se o livro fosse maior, a história podia ter sido mais desenvolvida, a todos os níveis. 

Porém, gostei do que li e o facto do mistério ter ficado relegado para uma espécie de segundo plano, só frustrou um pouco as minhas expectativas, porque confesso que a dado momento me apeteceu atirar o livro contra a parede, tal não foi a raiva que senti em relação ao rumo que a história estava a tomar. Isto só mostra como a história mexe com o leitor, o que é algo excelente. Se eu não me entusiasmar com a história, não vou ter reação nenhuma destas ou pensar em fazer algo do género, por tanto, se querem ler algo que vos intrigue, já sabem, optem por este livro, que me deixou ainda mais intrigada no final do que no início! 

NOTA (0 a 10): 8

sexta-feira, 6 de março de 2015

O Indesejado, de Sarah Waters

Este é um livro diferente, com uma história diferente daquelas que costumo ler. É bom variar o género literário, para explorar novas paisagens e horizontes. Há bastante tempo que andava com este livro debaixo de olho, por isso, só tenho a agradecer à Editorial Bizâncio, que me proporcionou estes momentos.


Sinopse:

O Indesejado conta a história de Faraday, um médico rural de Warwickshire, no pós-guerra. Faraday começa a narrativa indo atrás no tempo, para a contextualizar. Filho de pessoas não muito ricas, Faraday sempre sentiu um enorme espanto e encanto pela mansão dos Ayres: Hundreds Hall, onde a sua mãe trabalhava. Certo dia de 1919, numa festa para entrega de medalhas a jovens escuteiros, na mansão, Faraday, com dez anos, vai até ao interior da casa e, maravilhado com os retoques do tecto, decide cortar uma das bolotas de pedra do rebordo. Mais tarde, acaba por ficar sem a bolota, mas o seu fascínio por Hundreds continua. Faraday acaba por ser chamado para uma urgência, na casa, alguns anos depois do final da Segunda Guerra. Depois desse dia, o seu convívio com a família começa a crescer, à medida que a casa continua a decair e a ficar cada vez mais decrepita. Roderick, Caroline e Mrs. Ayres também começam a ver em Faraday um amigo e este passa a ser um visitante assíduo de Hundreds.

Enquanto a amizade avança, muitas coisas começam a acontecer na casa, deixando antever algo de sobrenatural, apesar de Faraday afastar sempre essa hipótese, chegando a temer pela sanidade mental dos seus novos amigos.

Com uma casa arruinada, cheia de dívidas e assuntos misteriosos, a família Ayres, há séculos a viver no local, começa a por em causa a permanência na casa, à medida que se embrenha nos acontecimentos.


Opinião:

Faraday é um excelente narrador. Muito sincero, sempre a justificar as suas acções e a tentar ajudar os Ayres, acaba ser uma personagem bastante enigmática, à medida que a história avança. Cheguei muitas vezes a exasperar-me com Faraday, por causa da sua visão dos factos. Porém, com o final do livro, essa sensação acabou por tornar-se num entendimento sobre muita coisa relacionada com a história e os seus mistérios, apesar de não ficar nada concluído.

As outras personagens também são bastante interessantes. Todos os membros dos Ayres são bastante complexos. Toda a história que os envolve o é. Depois de uma história e riqueza e esplendor, duas guerras e as mudanças sociais relacionadas, Hundreds parece não ter força para resistir, apesar da relação que parece haver quanto à visita de Faraday pela primeira vez e o corte da bolota. Mas isto é apenas uma ideia.

Depois existem os criados da família, que são apenas dois: Betty, uma adolescente, e Mrs. Bazeley. Betty é a primeira a sentir e a contar a Faraday as estranhas presenças na casa. Mais tarde, Roderick também refere essas presenças, relatando a Faraday várias experiências. E depois Mrs. Ayres. Caroline parece ficar de parte, mas acaba por dedicar-se à pesquisa sobre o tema, descobrindo algumas teorias sobre o distanciamento do inconsciente de alguém perturbado ou com impulsos extremamente fortes em relação a algum desejo, que acaba por criar algo de sobrenatural que passa a agir na sombra (uma espécie de Mr. Hyde espectral ou psíquico).

Não é possível contar muito mais sobre o enredo, pois este é o género de livros que não faz sentido contar spoilers, para não estragar os suspense! Por isso, vou debruçar-me sobre alguns pontos que me agradaram.

A autora conseguiu criar um ambiente bastante gótico e, por vezes, assustador. Apesar do tom calmo e linear com que os acontecimentos são narrados, essa calma acaba por ser estilhaçada com grande estrondo com um crescente de terror que, apesar de ser suave e um tanto poético, se torna deveras assombroso. A narrativa é feita de diminuendos e crescendos, como que uma melodia. Todas as descrições, bastante vividas, contribuem para este ambiente, e estão bastante perfeitas.

É uma narrativa cujo ambiente não se altera muito. Tudo acontece à volta de Hundreds e o dia-a-dia das personagens também não se altera muito. E é isso que também faz com que o suspense e as cenas misteriosas só se tornem mais "grotescas".

Gostei muito da forma como a autora abordou os diferentes temas e como os relacionou. Todas as descrições e acontecimentos médicos estão muito bem retratados e descritos, mostrando bons conhecimentos da autora e uma boa contextualização. Depois, também nas partes relacionadas com o sobrenatural, existe esse cuidado.

As relações entre as personagens e os seus passadas também estão muito bem. O final é perfeito, para a história em si. Aquele último parágrafo diz muito sobre toda a história, mesmo que nada fique concluído. O próprio narrador refere isso...a inconclusão de toda a trama e de todo o mistério só serve para adensar o mistério em si. Mas há muito para compreender nas entrelinhas e a leitura torna-se imensamente rica quando todos os pormenores são tidos em conta. Apesar da conclusão que eu tirei poder estar errada, penso que não. Há sempre a hipótese de haver várias explicações, mas a que me sugeriu o desenlace foi a melhor para englobar todos os intervenientes e pormenores.

Existe em toda a obra uma beleza poética e misteriosa, que só encontrei em O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë: uma beleza extremamente romântica e um tanto bucólica e, por vezes, decadente.

É, sem dúvida, uma das leituras mais interessantes que já fiz. Recomendo a todos os que gostam de uma boa história de amor e mistério, em que o passado se cruza com o presente e com o futuro. É uma boa história e deve ser lida com uma mente aberta, sem ideias pré-feitas. Um livro muito bom! Vou querer ler mais obras desta escritora!

NOTA (0 a 10): 10

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Histórias de Mistério e Imaginação, de Edgar Allan Poe

Este é o segundo livro que leio do autor. Li As Extraordinárias Aventuras de Gordon Pym e agora li este, que é um livro de contos. Ao todo, este livro apresenta dez contos de Poe, todos com uma temática obscura em que o medo, o terror e a estranheza são presenças constantes.

Como são contos, vou fazer uma pequena opinião de cada um, uma vez que o livro não é todo sobre a mesma história.


A esfinge da caveira

Este conto é muito breve e retrata a estadia de dois indivíduos que partem da cidade de Nova Iorque para o campo para fugir da epidemia de cólera que assolara a cidade. Um desses indivíduos, o narrador, é mais sensível às emoções e mais dado à suscetibilidade, começando a temer a epidemia e o que lhe poderia acontecer. Assim, começando a sentir-se atormentado, certo dia, imagina ver um animal fantástico, aterrorizador, com uma caveira, a descer de um monte em direção à casa. Aterrorizado, pede ajuda ao amigo e os dois ficam a observar.

Pois bem, é um conto bastante simples, que serve como que aperitivo para os contos que se seguem. Achei interessante, no entanto não fiquei arrebatada pelo ambiente e pelas emoções vividas pelas personagens.
Nota: 7


O escaravelho de ouro

Neste conto é o narrador é amigo de um jovem homem, William Legrand, que está como que numa espécie de retiro, com o seu empregado antigo escravo de nome Júpiter. O narrador vê-se envolvido numa estranha demanda relacionada com a descoberta de um escaravelho de ouro, feita por William. Quando William aparentemente começa a enlouquecer, Júpiter pede auxílio ao amigo do seu patrão para o ajudar no que for preciso. 

Este conto apresenta uma história com um pano de fundo maior, mais complexo. As personagens têm uma complexidade maior. É mais virado para a aventura, se bem que sempre com um toque de escuridão. Gostei bastante, foi dos contos de que gostei mais. Fez-me lembrar A Ilha do Tesouro, livro esse que é dos meus favoritos.
Nota: 10


Silêncio - Uma fábula

Este conto é pequeno e tem uma componente bastante melancólica e introspetiva. Parece um poema em prosa. É quase todo ele uma descrição, tanto dos elementos naturais e de ambiente, como dos sentimentos.

Não foi dos que gostei mais, no entanto gostei da forma como está escrito: parece um poema em prosa, sendo bastante melodioso.
Nota: 5


A queda da Casa de Usher

Neste conto, o narrador é amigo de Roderick Usher e conta o que aconteceu quando foi ter com ele, à sua mansão vetusta e muito degradada: a Casa de Usher. O narrador, deveras incomodado com o aspeto da casa, logo começa por divisar um certo terror que está presente na casa e no seu amigo. Roderick, doente e sozinho, tenta que o amigo o ajude, especialmente com a irmã, Madeline. 

Gostei muito deste conto. Pelo ambiente que apresenta, pelas personagens e pela forma como estabelece o enredo. Tendo em conta que a maioria dos contos de Poe tem um cariz de terror, este foi dos que mais apresentou esse cariz, no meu entender. A casa é muito bem descrita, descrição essa que provoca emoções no leitor. Toda a descrição remete para o terror que habita a casa e, num momento, Roderick faz uma observação bastante interessante: a casa está viva e tanto ela como os seus habitantes (a linhagem de Usher) estão interligados, ou seja, o que acontece aos habitantes espelha-se na casa. Tendo em conta o que acontece na reta final e no final, esta observação torna-se deveras crucial para todo o conto.
Nota: 10


Ligeia

Ligeia era a esposa do narrador deste conto. O narrador apresenta-a com todo o esmero, com grande detalhe e com grande emoção. Bela, de cabelos compridos e negros como corvos, de olhos um bocadinho grandes de mais e também negros, de grande inteligência, mestre em Matemática, Física, todas as línguas clássicas e em assuntos transcendentes e místicos, Ligeia foi a sua companheira, a sua mestra, a sua amada. O narrador, nada sabe do seu passado, nem o seu sobrenome, apenas que a conheceu numa aldeia antiga nas margens do Reno (se sabe mais alguma coisa, não se recorda). 

Não posso referir mais nada da história, senão estaria a dizer o que acontece, mas posso afirmar que é um conto muito interessante. Encontrei-lhe beleza, uma beleza um tanto melancólica, mas uma beleza distinta. Ligeia é, deveras, uma personagem intrigante e toda a descrição que lhe é feita define-a bem, mesmo que fique sempre alguns detalhes no escuro. O narrador consegue estabelecer uma narrativa bastante densa, um tanto descritiva (mas necessária), que provoca diversas emoções ao leitor. Gostei bastante do final, porque foi inesperado e misterioso, uma vez que fica sempre uma ligeira dúvida no ar: foi mesmo assim ou não teria passado de um sonho ou induzido pelo ópio fumado pelo narrador? Um conto muito bom, com um ambiente bastante sombrio.
Nota: 10


O retrato oval

Outro conto bastante curto. O narrador, ferido durante um ataque, e o seu criado pernoitam numa casa antiga. Essa casa está cheia de quadros muito belos e diversos. Com a tempestade lá fora e com o ambiente sombrio da casa, o narrador passa a noite deitado a observar os quadros, muitos deles também um tanto sombrios. Ao encontrar um livro que descreve e comenta as obras expostas nas paredes, começa a lê-lo. A dado momento, vê um quadro que ainda não tinha visto: um retrato de uma jovem muito bela, numa moldura oval. Ao ficar muito intrigado e incomodado com o retrato, decide saber mais sobre ele e recorre ao livro. O que encontra é uma história bastante triste e solitária, que conta como foi que a jovem foi pintada no retrato e o que lhe aconteceu, a ela e ao pintor, que era seu amado.

Apesar de pequeno, é um conto bastante interessante. Gostei de como é narrado. Não tem tantos detalhes, nem mostra tanta emoção, uma vez que é narrado por uma pessoa “de fora”, não pela rapariga do quadro ou pelo pintor. O facto de ser o livro a contar o que aconteceu, pelas palavras do narrador, também faz com que a narração seja mais distante e não tanto emotiva. Apresenta uma história também sombria, mas não tanto, se bem que o que aconteceu entre a rapariga, o pintor e o retrato é bastante melancólico, mas de certa forma poético.
Nota: 9


O pipo do "Amontillado"

Um homem jura vingar-se de um amigo que o humilhou e decide armar uma situação para o fazer. Esta é a melhor descrição para este conto, pois de outro modo estaria a contar o que acontece. 

Gostei do conto, apesar de não ter sido dos meus favoritos. É um conto de vingança e a forma como esta é engendrada é bastante detalhada e “perfeita” na sua execução.
Nota: 7


O poço e o pêndulo

Um homem está preso numa cela. Foi preso e condenado pela Inquisição e espera a desfecho da sua pena. Na cela onde está existe um poço no centro, com algo de horrível no seu fundo. Quando ele não cai no seu interior, os seus algozes decidem-se por outra tortura. Amarrá-lo no chão com um pêndulo cortante a descer do teto a cada segundo, como um pêndulo de relógio a mover-se. 

O conto é narrado pelo prisioneiro e é narrado com extremo terror. É dos contos que mais explora este sentimento, uma vez que a situação em que a personagem se encontra é deveras aterrorizante. As emoções, sensações e terrores são muito bem narrados e a personagem é um grande sofredor. E também inteligente. É um conto com o seu interesse, apesar de não ser dos que gostei mais.
Nota: 7


O gato preto

Este conto é sobre um homem que era uma pessoa muito boa, que amava a sua esposa e os seus animais. No entanto, os seus sentimentos começaram a mudar e ele acaba por tornar-se num homem muito perverso e malvado, acabando por cometer atrocidades aos animais e à esposa. Eventualmente, acaba por matar o gato que tinha e depois disso começa a sentir que nada de bom lhe acontece depois disso. Arranja outro gato, bastante parecido com o anterior, mas também começa a sentir horror ao animal. 

É um conto bastante sombrio e perverso. Acaba por ser um estudo interessante sobre as alterações que as pessoas podem sofrer e como isso modica os seus íntimos e os seus destinos. Não foi dos que mais gostei, mas é um conto interessante e com uma evolução bastante densa.
Nota: 7


Os crimes da Rue Morgue

O conto mais extenso do livro. O narrador e o seu amigo, Auguste Dupin, veem-se a braços com um estranho e misterioso caso de assassinato de duas mulheres. Sem solução à vista, a polícia começa a desesperar, o que faz com que Dupin se interesse pelo caso e comece a investigar, recorrendo a métodos dedutivos, de observação e de análise.

Um conto bastante interessante que me fez lembrar Sherlock Holmes. Uma vez que esta personagem é anterior a Sherlock, seria o Sherlock a fazer lembrar o Dupin. Mas como conheço Sherlock há mais tempo, compreende-se a minha associação cronológica. É um conto policial, que apresenta todos os ingredientes de uma boa história deste género. Gostei bastante.
Nota: 8

Em suma, gostei bastante destes contos de Poe e espero ler mais contos do autor.