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domingo, 15 de março de 2015

Golias, de Scott Westerfeld

Para este volume da trilogia Leviatã estava completamente curiosa e um pouco ansiosa para saber como iria acontecer...como é que seria a cena do reconhecimento do sexo de Mr. Sharp, o ilustre aspirante da aeronave Leviatã. Como iria o príncipe Alek saber que Dylan era, afinal, Deryn?! Era a grande pergunta e só posso dizer que foi muito interessante (para além de toda a trama relacionada com a guerra)!

Sinopse:

Neste terceiro livro, a tripulação do Leviatã e os seus ilustres convidados austríacos (Alek e os seus companheiros) estão em movimento para chegar a Tóquio, para uma missão dada pelo Almirantado. No entanto, a chegada de uma águia imperial, de duas cabeças, vinda do czar, altera a viagem da aeronave, levando-a para novos rumos: Sibéria. Chegados lá, encontram Nikola Tesla, com uma ideia fantástica sobre a sua nova máquina: Golias, que ele diz ter a capacidade de destruir cidades, podendo assim por um ponto final na guerra. Com muitas aventuras pela frente, Alek e Deryn têm muito que fazer, mas há algo para descobrir e o segredo de Deryn está por um fio. Será que a amizade de ambos se consegue manter? Ou será que tudo vai mudar para eles? E, principalmente, para Deryn? E será que a guerra terá um final?  

Opinião:

Foi com grande alegria que li este volume. Foi, de todos, o melhor, mostrando a plena mestria do autor. Scott conseguiu criar uma História alternativa completamente contextualizada, real e bem ancorada na realidade. Como ele refere no pequeno posfácio, muito do que aparece e acontece no livro acaba por ser verdade, ou verdade sob algum ponto de vista. Muitas das personagens são reais e muitos dos acontecimentos também. A maior alteração que o autor fez foi alterar os factos para que o decurso da guerra fosse outro. Ou seja, ele só manipulou os factos para lhes dar outro final. E fê-lo extremamente bem. Confesso que no final fiquei bastante emocionada com os acontecimentos. Se tivesse tudo acontecido assim na vida real, muito teria sido diferente depois da Primeira Grande Guerra, que podia não ter sido tão devastadora. A Segunda podia nunca ter acontecido, bem como todas as atrocidades que dela vieram...e o mundo poderia ter sido diferente.

Gostei muito da forma como a narrativa de desenrolou e de como os acontecimentos progrediram. Alek e Deryn acabaram por se tornar, facilmente, num dos meus pares literários favoritos. Gostei muito de Deryn, Mr. Delyn Sharp, o famoso aspirante condecorado que era uma rapariga escocesa cheia de garra e força, cujo maior sonho era voar na Força Aérea Inglesa. E gostei muito do Príncipe Aleksander Von Hohenberg, ou Alek, para os amigos, que sempre mostrou uma grande coragem e bravura e que sempre se mostrou fiel para com os seus aliados e amigos. Acreditando que o seu destino era fazer com que a guerra terminasse a todo o custo, Alek lutou até ao fim por esse ideal, acabando por ser consumido pela dúvida quanto a outros aspectos. Também gostei da Dra. Barlow, a neta de Charles Darwin, que sempre se mostrou uma grande senhora, em todos os momentos. Enfim, gostei de todas as personagens, que tão bem estão caracterizadas e firmemente bem desenvolvidas. 

Também foi com grande agrado que viajei com a aeronave por todos os locais por onde ela passou: Rússia, Sibéria, Tóquio, o Pacífico (grandes momentos!!!), Estados Unidos, México e de novo os Estados Unidos. Foi  uma viagem maravilhosa, cheia de detalhes e momentos de grande emoção e acção, que ficam na memória. A escrita é tão magistral que é possível imaginar tudo o que está escrito. Por outro lado, as fabulosas ilustrações de Keith Thompson também ajudam, uma vez que vão ao encontro dos detalhes escritos complemente. Todas as ilustrações são maravilhosas, mas a última é de tirar o fôlego! 

Neste volume existem mais momentos de tensão do que nos anteriores. Apesar de considerar o segundo como aquele que mais acção apresenta, e mais aventuras, este acaba por se tornar mais adulto e mais introspectivo, onde as personagens têm de tomar decisões bastante difíceis e onde os acontecimentos se tornam mais negros e melancólicos. Também tem momentos alegres, especialmente sempre que aparece o lóris  perspícuo  Bovril, mas prevalecem os momentos de grande tensão, com intriga, grandes batalhas e muitos perigos.

O desenvolvimento da relação de Deryn e Alek também contribuiu para isso, uma vez que existe um grande foco nesse aspecto do enredo, que era muito necessário e decisivo. Tinha de ser neste volume que se descobria que Dylan era uma rapariga e o autor conseguiu criar momentos de grande emoção em redor desse facto, levando-me sempre a ficar mais ansiosa e curiosa com as reacções das personagens. E não podia ter havido melhor forma de o fazer...de revelar o mistério. Mais uma vez, o autor foi fantástico.


A trilogia é considerada juvenil e por isso, por mais perigos e acontecimentos negros que aconteçam, nunca é demasiado brutal ou chocante, como outras histórias fantásticas e steampunk. Se o autor tivesse criado esta história, igual, mas para um público adulto, acredito que muito do que fica subentendido não teria ficado e que as descrições seriam ainda mais poderosas. Mas Keith traz algum desse conceito para as suas ilustrações, e muito bem. Este aspecto não é uma crítica negativa, de modo algum, é apenas algo que senti quando estava a ler, não apenas este volume, como também nos outros dois.

No entanto, qualquer adulto pode, e deve, ler esta trilogia, que é, para mim, uma das melhores histórias steampunk que li até agora. Todo o conceito e contexto da obra é fantástico e está muitíssimo bem explorado. As duas grandes potencias (Darwinistas e Clankers) e as suas diferenças estão muito bem elaboradas e estão tão perfeitas que parecem reais. Dei por mim a imaginar, durante vários momentos ao longo da leitura da obra, que o mundo podia muito bem ser assim...que o mundo real podia ser aquele e não este em que nós estamos. E isso é tudo o que se pode pedir de uma história fantástica. Penso que não há melhor elogio, por muitos que se façam, do que pensar que se está, de facto, na realidade apresentada pelo autor.

Vou recordar com imenso carinho todas as personagens e toda a história e gostava muito que o autor decidi-se escrever mais sobre esta fantástica dupla. Fiquei muito feliz com o final da trilogia e só queria que houvesse mais! Descobri na net um capítulo posterior, que o autor escreveu, e que Keith Thompson ilustrou. Podem encontrar aqui. Já o li e só posso dizer que está excelente! Repleto de humor e com um final bastante sugestivo, acompanhado por uma ilustração também sugestiva!

Em suma, recomendo totalmente, sem reservas, a todos os que gostam de histórias bem contadas, de personagens inesquecíveis, de emoções fortes e de História.


Citações:

Alek abanou a cabeça, mas as suas pálpebras estavam pesadas. Ele sentiu o corpo a parar de tremar, a ceder na sua luta contra o frio. Os seus pensamentos começaram a desvanecer-se sob o rugido do mundo que o cercava.
- Mantenha-se acordado! - exclamou Deryn - Fale comigo!
- Prometa que nunca mais me mente.
(...)
- Está bem. Não voltarei a esconder-lhe nada enquanto viver.
Alek sorriu (...)
p.188

 Ilustração presente no livro (Keith Thompson)


Podem encontrar as opiniões dos livros anteriores em:

Leviatã
Besta

NOTA (0 a 10): 10

domingo, 7 de dezembro de 2014

Besta, de Scott Westerfeld

Este é o segundo livro da trilogia Leviatã, de Scott Westerfeld.

Depois de ter lido o primeiro há alguns meses e de ter ficado muito agradada, decidi agora retomar as aventuras de Alek e Deryn.


Neste volume, o Leviatã segue viagem para a Turquia, para que seja resolvido o imbróglio diplomático causado pela usurpação, por parte do Almirante Churchill, do navio de guerra prometido aos turcos, incluindo também o animal seu companheiro de nome Beemoth (Besta; um género de Kraken mais poderoso). Depois de vários contratempos, Alek e Deryn são separados e os seus caminhos bifurcam-se, estando sempre presente o dever de ajudar a nação ou tentar travar a guerra.

Pois bem, este é mais uma fantástica aventura passada neste mundo Steampunk, onde a História se enterlaça com a ficção alternativa. O primeiro livro foi muito bom e esperava que este fosse tão ou melhor do que esse. Acabei por gostar ainda mais deste.

As personagens continuam fantásticas, tanto as que já conhecemos como as que vão aparecendo ao longo da história. Existe uma maior fluidez a nível do enredo; não existem tantos termos mais técnicos ou tantas explicações mecânicas ou darwinistas, existindo mais espaço para a ação, para a intriga e para o desenvolvimento das personagens, tanto a nível individual como a nível das suas relações. Gostei imenso das novas personagens. Não sei se vão aparecer no próximo, mas foram fulcrais neste volume! Em especial, gostei imenso do jornalista Malone...um jovem cheio de estilo!

Também gostei de ver a evolução do relacionamento entre Deryn e Alek. O autor soube levar bem a história deles e espera-se bastante confusão na descoberta do segredo de Deryn, que, espero, seja um dos momentos com mais clímax de toda a trilogia. Vê-los como trio, com a Lilit, foi muito engraçado, uma vez que as situações levaram a dupla a momentos bem interessantes e até hilariantes. A Deryn é muito engraçada!

Também houve mais aspetos emocionais e de maior tensão, o que faz com que a narrativa se torne mais "adulta". Os perigos pelos quais as personagens passam são maiores, bem como as intrigas que fazem com que a trama se torne mais densa.

As descrições de locais, seres e máquinas também estão fantásticas. O autor esmerou-se a nível da imaginação e da contextualização histórica/ficção/steampunk. É um "mundo steampunk" deveras interessante, a meu ver! Que tem como atrativo o facto de ter um fundo bastante grande de verdade e de realidade. É, de facto, possível olhar para o nosso passado e imaginá-lo cheio das máquinas e seres que existem nesta história.

Também quero aqui referir as magníficas ilustrações de Keith Thompson, que nos fazem sonhar e imaginar ainda com maior detalhe o que é descrito e narrado por Scott Westerfeld. Fazem uma dupla fantástica.

Em suma, mais uma boa história de Scott Westerfeld. Espero que o terceiro seja, se não for tão bom como estes, ainda melhor! 


 Ilustrações presentes no livro - Keith Thompson

NOTA (0 a 10): 10

terça-feira, 17 de junho de 2014

Leviatã, de Scott Westerfeld

Este é o primeiro livro da trilogia de Scott Westerfeld: Leviatã (Leviatã, Besta e Golias). É um livro juvenil, ou assim está catalogado, com grande contexto steampunk. Já há bastante tempo que o queria ler e não fiquei minimamente dececionada. Excelente livro, com excelente contexto.

Leviatã começa por contar duas histórias aparentemente paralelas: a de Aleksander de Hohenberg e Deryn Sharp. Alek é um príncipe do Império Austro-húngaro, filho do Arquiduque Francisco Fernando e de Sofia Chotek, tendo como tio-avô o Imperador Francisco José. Devido à ascendência plebeia de Sofia, Alek não tem direito a nada da herança do pai, sendo por isso um mero príncipe sem direito ao trono. Aos quinze anos, numa noite de junho de 1914, vê-se sozinho com um conde (Volger) e o melhor mecânico (Kopp) do pai, dentro de um marchador, em fuga pelo Império, para fugir dos assassinos dos seus pais, com destino à Suíça. Nessa mesma noite, na Inglaterra, Deryn prepara-se para entrar na Força Aérea, disfarçada de rapaz, com a ajuda do seu irmão (Jaspert), que também faz parte da Força Aérea. O maior sonho de Deryn é voar nas maravilhosas fabricações (animais fabricados através de um processo parecido com a mutação/transformação genética) da Força Aérea e tornar-se num oficial. Depois de se ter metido em apuros na primeira audição para se tornar aspirante, Deryn (ou Dylan) vê-se abordo do Leviatã, uma aeronave-baleia (uma baleia que voa a hidrogénio) e que é uma das forças de guerra da Força Aérea Inglesa. Depois de várias aventuras, Alek e Deryn encontram-se e começa assim uma amizade inicialmente titubeante, mas que se vai tornando forte. Com a guerra a começar, as alianças são importantes e os interesses, muitos.

A história tem uma grande base imaginativa no seu âmago. Scott Westerfeld conseguiu criar uma história muito boa, com um contexto em parte real, em parte fantástico/ficcional. O assassinato do Arquiduque e da sua esposa é um facto real e foi o que levou à Primeira Guerra Mundial, tal como acontece no livro, apesar de, no livro, os assassinos serem diferentes, possivelmente. As potências aliadas também são as mesmas. Várias personagens são reais, mesmo que alguns dos seus traços sejam diferentes. Alek e Deryn são personagens ficcionais, mas tudo o que envolve os pais de Alek é real, tirando um ou outro aspeto (que não vou referir para não contar detalhes importantes).

Há uma mistura clara do passado com o futuro, misturando factos históricos (o tempo, o espaço, o ambiente, algumas personagens) com invenções futuristas (fabricações e armamento móvel de metal, parecido com robôs gigantes). Assim, é importante compreender as potências que se opõem. Os ingleses são uma potência Darwinista, ou seja, as suas armas são à base de fabricações naturais, como o Leviatã ou o Huxley (uma espécie de alforreca gigante que serve como uma espécie de balão a hidrogénio que serve como posto de observação aéreo), bem como outras como lagartos falantes, que transmitem mensagens, morcegos que se alimentam de frutos e espigões, acabando por libertar os espigões de metal sobre os inimigos, falcões que atacam os inimigos, farejadores (espécie de cão com seis patas que tem como missão detetar fugas de hidrogénio), entre outros seres. Os Austríacos (bem como os Alemães) são uma potência Clanker, ou seja, as suas armas são feitas à base de instrumentos de metal, com grandes potências geradas através de mecanismos e motores. Marchadores (espécies de robôs que andam), couraçados, espécies de cavalos metálicos, e outros instrumentos

Gostei muito do livro. Tudo o que estive a referir nos parágrafos anteriores justifica o meu grande interesse por esta história. Toda a imaginação existente ao longo da história (o que se refere aos Darwinistas e aos Clankers, principalmente), fez-me ficar apaixonada por este mundo. É como se tudo o que eu soubesse sobre a Primeira Guerra se expandisse de modo a abarcar esta nova realidade: os meus conhecimentos entrelaçaram-se com os acontecimentos narrados, dando um novo lado à Primeira Guerra, um lado extremamente mais fantástico e grandioso (apesar da guerra nada ter de grandioso ou fantástico). É uma história alternativa para este acontecimento real do nosso mundo, que aconteceu há 100 anos.

Mas não foi só a parte criativa que me fez gostar da história. Também as personagens foram importantes para isso. Deryn é uma personagem feminina extremamente interessante. Não é nada estereotipada, não é uma “bonequinha”, nem “uma querida”, mas sim uma “badass”, uma rapariga que se faz passar por um rapaz para conseguir o que quer, para alcançar o seu sonho e que tem uns comportamentos muito engraçados. É uma aventureira, muito bem-disposta, esperta e inteligente. Por seu lado, Alek é mais reservado. É um excelente rapaz, que sofre bastante ao longo da narrativa, mas que tem um desenvolvimento bastante interessante. Um tanto tímido, mas também um pouco convencido, em alguns momentos, Alek mostra ser um rapaz de nobres sentimentos, altruísta e muito amigo do seu amigo. Também as personagens secundárias são muito interessantes. Gostei especialmente da Dra. Nora Barlow, a inspetora que vai a bordo do Leviatã. Esperta, inteligente, misteriosa e com um excelente sentido de humor, Barlow “rouba a cena” em vários momentos da narrativa.

A ação é constante. Há mistério, grandes descrições de batalhas e aventuras, momentos de cortar a respiração, humor e vários perigos. O enredo está bem construído, sendo que tudo está interligado. Não um único momento “parado” na narrativa. Também gostei bastante dos diálogos entre as personagens, nomeadamente entre Deryn e Alek. Espero que eles se entendam! E que o Alek descubra que o Dylan é a Deryn (como será que vai ser?! ^^ ). A relação destes dois tem um começo fantástico (melhor era impossível) e torna-se um dos eixos da história, a meu ver.

Também é de referir as maravilhosas ilustrações da ilustradora Keith Thompson. Estão magníficas e dão uma dimensão muito boa ao livro. O facto de ter ilustrações tão boas faz com que não seja necessário uma descrição muito pormenorizadas por parte do autor, em relação a determinados aspetos, como por exemplo: as fabricações e as máquinas dos Clankers. As ilustrações são, a meu ver, fundamentais neste livro. E são lindas.
               
Assim, posso afirmar que o livro é fantástico. Tem tudo o que um bom livro deve ter. Mesmo que não haja uma grande complexidade a nível das personagens e do enredo, tudo está bem construído. As máquinas e as fabricações são fantásticas. As personagens são interessantes. O contexto está muito bem construído e a relação realidade/ficção está perfeita. Dos melhores livros steampunk que já li! Estou muito curiosa para ler o seguinte, pois tudo o que aconteceu neste foi muito bom e o final deixou-me bastante curiosa.
metálicos e mecânicos são a grande força dos Clankers, que odeiam os Darwinistas, afirmando que estes são um bando de hereges que tentam imitar a Vida através das suas fabricações (que advêm da teoria evolucionista de Darwin, que, na narrativa, descobriu como manipular os “fios da vida”, de modo a criar novas espécies (como se fosse o ADN)).

Algumas ilustrações de Keith Thompson:


O site da ilustradora é fantástico! Consultem aqui.

NOTA (0 a 10): 10