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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

The Republic of Thieves, de Scott Lynch

Este é o terceiro livro da saga dos Cavalheiros Bastardos. Li o primeiro em Português, o segundo e este em inglês uma vez que ambos não se encontram editados em Português. Como fiquei apaixonada pelo primeiro e depois pelo segundo, não estive para esperar mais e decidi avançar para a leitura do terceiro. E que espectáculo!


Depois de ter deixado o Locke num estado bastante complicado no final do segundo livro (Red Seas Under Red Skies), foi com grande entusiasmo e curiosidade que iniciei esta leitura. No final do segundo livro, Locke e Jean veem-se a mãos com apenas um frasquinho de uma dose de antídoto contra um veneno latente e produto de alquimia negra. Jean acaba por tomar o antídoto sem saber (invenção do seu amigo)e quando vão discutir quem é que toma o quê, Locke informa-o que já o tinha tomado, uma vez que Locke o tinha misturado no copo de vinho do amigo. Deste modo, Jean vê-se na situação de tentar encontrar uma cura para Locke, que durante seis semanas de viagem pelo mar, começa a dar sinais da doença. Vêm-se em Lashain e com poucos recursos. Depois de vários médicos encontrarem-se com Locke, nenhum encontra uma cura ou um tratamento e os amigos começam a desesperar. Até que aparece uma misteriosa senhora de nome Patience (Paciência). Patience é uma Bondsmagi que promete curar Locke se este e Jean participarem nas eleições da República de Karthain. Duas fações, dois mestres por trás do jogo político de cada fação. Locke e Jean pelos Deep Roots (tradicionalistas) e alguém misterioso pelos Black Iris (mais inovadores). Estas duas fações são geridas (em segredo) pelos Bondsmagi, sendo que os mais tradicionalistas gerem os Deep Roots e os mais revolucionários, os Black Iris. Estes mais revolucionários seguem uma ideia de submeter os não-mágicos ao poder dos mágicos (dos Bondsmagi) e são liderados principalmente pelos mais jovens, nomeadamente o Falconer, o famoso assassino contratado pelo Capa Raza do primeiro livro.

História, lendas, intrigas, política, amor, passado, presente e futuro, entrelaçam-se ao longo desta história. O livro está dividido em partes, estando intercalado entre capítulos e interlúdios, havendo também outras partes (intersects) que se cruzam para mostrar acontecimentos que estão por detrás dos narrados nos capítulos. Nos capítulos temos o presente da narrativa. Nos interlúdios é apresentado a vida do Locke ao longo da sua infância (5 anos, mais ou menos) até à juventude (16 anos) ou mais concretamente desde que conheceu Sabetha Belacoros até ao desenrolar da sua relação com ela.

Sabetha aparece finalmente! Depois de ter "ouvido" falar dela durante dos livros, finalmente "vejo-a" em ação. Sabetha é uma personagem bem interessante. É inteligente, esperta, perspicaz, alerta, sempre pronta para arranjar um plano. A admiração e amor de Locke por ela é um fator muito rico ao longo da história, pois é o que sustenta muito do que acontece ao longo da narrativa. Locke sempre a amou e tudo o que fez e faz para o provar fez com que eu estivesse sempre na expectativa (será que vai dar certo? será que ele vai conseguir? oh não! ahh! e por aí fora) quanto as resoluções das duas personagens. Não é uma relação nada fácil. Sabetha é, para além dos adjetivos mencionados acima, teimosa e um tanto insegura. São características que fazem com que ela se torne mais humana. Não é perfeita, tal como Locke não é. A sua relação com Locke é muito ambígua e todo o percurso de ambos é bastante sinuoso.

Como a narrativa anda para trás, os irmãos Sanza, o padre Chains e outras personagens que apareceram no primeiro livro, voltam a aparecer. Gostei muito de os "rever". Também gostei de ver Jean tomar parte dos Cavalheiros Bastardos e como a sua relação com Locke progrediu durante a juventude de ambos.

Mas Sabetha não é o mais espectacular do livro! Não! O mais espectacular é algo que eu não vou aqui mencionar, mas que está relacionado diretamente com a identidade do Locke. Locke Lamora... já sabíamos que este não o seu verdadeiro nome. Então qual será? Quem é ele? De onde vem? Nunca se soube exatemente a sua origem, nem a sua idade, nem como sobreviveu à praga do bairro de Cathfire... Pois bem! O que posso dizer é que a história de Locke Lamora é mais complicado do que poderíamos supor. E é muito mais rica!

Scott Lynch fez um trabalho notável com este livro. The Republic of Thieves consegue ser mais denso do que o anterior e também mais rico e mais contextualizado. Não é apenas uma continuação. Este livro dá-nos o contexto da vida das personagens, pois nos interlúdios é possível compreender e observar como é que as personagens cresceram e como se tornaram no que são atualmente. Deste modo, completa tudo o que foi apresentado n'As Mentiras de Locke Lamora. Dá-nos o background das personagens, das suas vivências, da sua história e de como se foram relacionando ao longo do tempo. Dá-nos ainda a perspetiva presente, relacionada com a passada. A mestria com que o autor organizou a obra é fundamental para a compreender, tanto em si, como às personagens e às suas resoluções e atitudes. Os intersects também são partes fundamentais, uma vez que nos abrem uma nesga na janela do que se passa do outro lado, ajudando-nos a compreender e a especular sobre o que vai acontecer e o que está, de facto, a acontecer.

Todo o aspeto político do livro está bastante bem caracterizado e bem enquadrado. Todas as explicações fazem sentido e tudo se une para compor o puzzle dos acontecimentos que vão decorrendo desde o início até ao final, havendo sempre algumas perguntas em aberto...para despertar curiosidade e para permitir o seguimento. Os Bondsmagi têm aqui grande relevo e Patience é bastante interessante. É uma personagem que só enriquece a história, pois o mistério e os seus diálogos e explicações sobre a História de Karthain, dos Bondsmagi e também dos Eldren.

Todos os aspetos que eu mencionei ao longo desta revisão fizeram com que eu gostasse muito muito muito do livro. Em parte gostei mais deste do que do anterior, pois o conteúdo histórico, bem como a contextualização que referi anteriormente, são pontos bastante fortes e bem construídos. São histórias diferentes. Todos os livros da saga dos Cavalheiros Bastardos têm aventuras diferentes e novos enredos, mostrando a versatilidade do escritor. Gostei imenso de rever o Locke, o Jean e todas as outras personagens e de conhecer a amada do Locke. Espero que o próximo não demore muito tempo a sair e que seja tão bom ou melhor do que este, pois o final deste é bastante promissor e curioso!

Excelente livro, recomendo totalmente sem reservas. Maravilhoso. Uma leitura rica e densa, que envolve o leitor durante todo o percurso.


"Don't talk. Just listen; you don't have much time left. There's a second reason. I can see now how ill you've been, and how you'll have to push yourself to keep up with me. I can't let you do it, Locke. I can't watch you do it. You'll kill yourself trying to best me, and you can't ask me to permit that. Not when I could stop it. I once cared for you a great deal. I care for you now. Remember that
and forgive me"
p.300


"Tell me you never liked me," said Locke, advancing step by step. "Tell me you never found me worthwhile. Tell me we didn't have good years together. That's all it would take!"
"Stubborn, fixated-"
"Tell me you weren't pleased to see me!"
"...presumptuous-"
"Quit telling me things I already know!" They were suddenly less than a foot apart."Quit making excuses. Tell me you can't stand me. Otherwise-"
p.389

"Of course I'm not alone," she said. "You're here."
(...)
If there were two, might there not be three? Patterns behind patterns, secrets behind secrets, new strings to dance on, and these ones leading all the way back to the Bondsmagi of Karthain. Another Locke, unknown even to himself. What would become of the Lockes she knew if that stranger inside them was real? If he woke up?
"Which one of you wrote this?"
p. 522

NOTA (0 a 10): 10  

sábado, 15 de junho de 2013

"Red Seas Under Red Skies", de Scott Lynch

"Ah ... Jean, I'm afraid you've lost me."

"No." Jean raised one hand, palm out, to the man opposite him. He then slowly, carefully shifted his aim to his left - until his crossbow was pointing at Locke´s head. The man he'd previously been threatening blinked in surprise. "You've lost me, Locke."
page 520

Sinopse:

Thief and con-man extraordinaire, Locke Lamora, and the ever lethal Jean Tannen have fled their home city and the wreckage of their lives. But they can't run forever and when they stop they decide to head for the richest, and most difficult, target on the horizon. The city state of Tal Verarr. And the Sinspire.

The Sinspire is the ultimate gambling house. No-one has stolen so much as a single coin from it and lived. It's the sort of challenge Locke simply can't resist...

...but Locke's perfect crime is going to have to wait.

Someone else in Tal Verarr wants the Gentleman Bastards' expertise and is quite prepared to kill them to get it. Before long, Locke and Jean find themselves engaged in piracy. Fine work for thieves who don't know one end of a galley from another.

in Goodreads

Opinião:

Depois de ter lido "As Mentiras de Locke Lamora", em 2011, ganhei um novo livro favorito. O primeiro livro da saga dos Cavalheiros Bastardos tornou-se logo numa maravilha para mim. O Locke Lamora é uma personagem fantástica, cheia de mistérios, mentiras, artimanhas e jogos que depressa me conquistou. Todo o ambiente e toda a história, com um enredo audaz, rico, extravagante e cheio de reviravoltas, fez-me ficar agarrada a esta história.

Como nunca mais saía o segundo volume em Português, decidi, dois anos depois, ler em Inglês. Como pude estar dois anos longe destas personagens? Como?!?!!

Scott Lynch apresenta-nos um enredo diferente do primeiro livro. Depois de um final em que tudo fica na corda bamba, com Locke a ser levado ao colo pelo seu amigo Jean Tannen para um barco com destino incerto, voltei a encontrar esta dupla a planear um novo esquema mirabolante para roubar os mais ricos, desta vez em Tal Verarr. Numa primeira parte, em simultâneo com o presente, é nos apresentado o passado, ou seja como foi que Locke e Jean chegaram a Tal Verarr, e assim ficamos a conhecer o que aconteceu até se chegar ao presente.

Locke e Jean começam por planear assaltar o cofre de Requin, o dono da casa de jogo mais famosa da cidade: Sinspire. O que eles não sabiam era que nem tudo ia correr como planeado e vêem-se confrontados com Maxilian Stragos, o "Archon" da cidade, o Comandante das tropas e da marinha, que governa a cidade em conjunto com os Priori, que são os representantes das guildas de alquimistas e artificies, que são a "nata da sociedade", também muito poderosos e que estão em "conflito silencioso" com o Archon, devido a lutas antigas e ao facto de quererem o governo da cidade para eles.
Depois de os envenenar, com um veneno latente que necessita de antídoto de mais ou menos dois em dois meses (e que só o alquimista dele sabe), Stragos obriga-os a trabalhar no seu plano.

Locke e Jean encontram-se assim com uma nova missão, pensada por Stragos, e que consiste em fazer deles dissidentes da marinha, com o desejo de se juntar aos piratas das Ghostwinds, umas ilhas um pouco distantes que sete anos antes se tinham rebelado contra Stragos, com o apoio da Capitã Bonaire, uma ex-comandante da marinha de Stragos. Essa revolta foi feita pelos piratas e acabou com Bonaire a assistir à morte dos seus apoiantes (os que foram apanhados), morrendo também depois e com a destruição das habitações e população de uma das ilhas.
Para além disso, as ilhas também têm os seus mistérios sobrenaturais e são por isso temidas.

"Yeah," said Locke, wistfully. "Yeah, she was so mad...so mad and so lovely. I used to love watching her climb. She didn't like ropes. She'd... take her boots off, and let her hair out, and wouldn't even wear gloves sometimes. Just her breeches and her blouse... and I would just-" page 214

Locke passa a ser Orrin Ravelle e Jean Jerome de Ferra, e ambos são treinados por um experiente marinheiro, Caldris. Quando partem para o mar, Locke e Jean vêem-se a braços com várias aventuras e perigos, dos quais muitos deles necessitam de uma grande dose de esperteza e coragem.

Depois de várias aventuras e contratempos, temos uma conclusão espantosa e excelente, com um final muitíssimo empolgante e grandioso, que em muito se compara ao do primeiro livro, se bem que diferente.

Por tudo isto que estive a escrever, pelas personagens, pelo enredo, pelas descrições, pelo humor, pelo perigo, pelas mentiras, pelas conclusões e acontecimentos da história, este é um livro que tem todos os ingredientes que me fazem querer ler um livro. É o meu tipo de livro perfeito, por assim dizer. Já tenho lido vários e as histórias de Scott Lynch fazem-me sempre exclamar palavras ao longo da leitura, o que é um sinal da mestria da sua obra, a meu ver claro. Se bem que é indiscutível a mestria de Scott Lynch! Excelente escritor, porque é preciso ter coragem e audácia para escrever um enredo assim (e como o do primeiro livro). 


Espero com muita curiosidade pelo próximo "Republic of Thieves" que está para sair este ano. Com um final destes, só posso querer ler o que acontece!!! A reação do Jean no fim é a minha reação!

Se gostam de livros de aventuras, não podem perder estas histórias! Fazem um grande favor a vós mesmos ao lerem-nas, porque vão-se divertir muito e até sofrer pelas personagens! Sempre com humor e boa disposição, Locke e Jean conduzem-os por uma atmosfera maravilhosa e mágica, com muita magia e mistério! 

It was a red moment, all the world from sea to sky the colour of a darkening rose petal, of a drop of blood not yet dry. The sea was calm and the air was still; they were without interruptions, without responsabilities, without a plan or an appointment anywhere in the world. page 625

"It is a favour," said Locke. "A favour to me. You save my life all the time because you're an idiot and you don't know any better. Let me... let me do it for you, just once. Because you actually deserve it." page 627

NOTA (0 a 10): 10

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"As Mentiras de Locke Lamora", de Scott Lynch

Apesar de já ter lido este livro há um ano é com muito gosto que escrevo agora esta opinião sobre ele. "As Mentiras de Locke Lamora" é, talvez, o meu livro favorito. De todos os livros que tenho lido, é muito difícil escolher apenas um como favorito. Sendo fã de várias sagas, é sempre difícil não vê-las como favoritas em detrimento de um livro sozinho. Mas não foi dificil descobrir dentro de mim que este livro foi diferente.  

Porquê?

Porque é completamente e totalmente diferente de qualquer outro que eu já tenha lido! A história que se desenrola nas páginas mágicas de "As Mentiras de Locke Lamora" tem uma velocidade louca, estonteante e grandes momentos de ação. Momentos como nunca antes tinha lido. É por isso que gosto muito deste livro e digo que é o meu favorito. 

O Locke Lamora: 
Personagem principal do livro, Locke é um ladrão que assombra Camorr...que rouba a nobreza e que tem uma quadrilha muito especial. Locke é um ladrão muito engraçado e espertalhão que mente muito e muito e muito e arranja planos completamente loucos e perigosos para desenvolver os seus trabalhos, em conjunto com os seus companheiros. Só o Locke é meio livro. Só o que ele faz e diz vale mais do que muitas histórias que por aí andam. Ele é o "Espinho de Camorr", o famoso e desconhecido ladrão mais famoso de sempre!


Camorr:
A cidade onde Locke vive é um local que pode ser visto como uma espécie de Veneza do século XVI. Talvez, porque não tem muito a ver. Camorr é Camorr.  É "governada" pelo Capa Barsavi, um "mafioso" que vive no navio com os seus três filhos (dois rapazes e uma rapariga, amiga de Locke). Oficialmente, Camorr é governada pelo Duque de Camorr, que vive na sua imponente torre! A estrutura da cidade é completamente maravilhosa e as descrições são soberbas.

Os Cavalheiros Bastardos:
Assim se chama o bando de Locke. É composto por ele mesmo (o Garrista do bando (líder)), Jean Tannen, Calo e Galdo Sanza (gémeos), Bug, um novato, e Sabetha, uma rapariga misteriosa que não aparece fisicamente no livro e que é a amada do Locke.

Ao longo da história vamos sabendo aspetos passados que explicam a essência deste universo. Trechos sobre o passado de Camorr, sobre outros locais, sobre feiticeiros e outros aspetos são-nos apresentados ao longo da narrativa o que é muito interessante. 

A história não é apenas sobre aventuras deste bando. Não. É muito mais do que isso. No meio dos planos "normais" de Locke e das atividades dos Cavalheiros Bastardos, aparece uma misteriosa personagem que se intiula "Rei Cinzento" e que ameaça toda a cidade. O seu objetivo é conquistar Camorr e nada o pode impedir. Com a ajuda de um Feiticeiro. Muitos dos mais importantes criminosos da comunidade começam a aparecer mortos e tudo indica que é obra do Rei Cinzento. Este toma conhecimento da esperteza de Locke Lamora e vai utilizá-lo para conseguir alcançar os seus objetivos, através de magia e de outros meios. 

Um enredo muito bem intrincado, cheio de ação e momentos de cortar a respiração são apenas alguns dos ingredientes deste fantástico livro que merecer ser divulgado!
Este não é um livro stand-alone, mas sim o primeiro de uma possível saga. O segundo já está publicado, chama-se "Red Seas Under Red Skies" e ainda não está disponível em Português. Espero que esteja brevemente, porque o final é tão estonteante que e curiosidade merece ser saciada!

Quem ainda não leu ou não conhece, leia! Este livro é um dos melhores que por aí existem!

Nota (0 a 10): 10