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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

The Gospel of Loki, de Joanne M. Harris

The Gospel of Loki é o terceiro livro da autora Joanne Harris que tem como contexto a mitologia nórdica. Depois de ler A Marca das Runas e A Luz das Runas, não podia deixar de querer ler este! 


Neste livro, Loki é o narrador e é ele que conta a sua história e a do começo dos mundos até ao Ragnarok, tendo em conta o seu ponto de vista. Com uma linguagem muito fluída, irónica e bastante sentida, Loki vai contando a sua história, à qual chama de Gospel of Loki (traduzido livremente por mim como O Hino de Loki, ou algo do género). É como que uma explicação pelo que fez durante a sua estadia em Asgard.

No início, Loki começa por introduzir o contexto da sua narrativa, explicando como começaram os mundos de acordo com a História: o Caos (fogo) entrou na Ordem (gelo) por meio de erupções subterrâneas que derivaram na existência de vida (temperaturas tépidas na superfície gelada geraram vida). Vida essa que teve como primeiro ser um gigante de nome Ymir e depois uma vaca (Audhumbla), que quando lambeu o gelo pôs a descoberto o primeiro Aesir, Buri. Buri foi pai de Bor que foi pai de Odin, Vili e Ve. Estes três acabaram por matar o gigante Ymir e, dele, fizeram os elementos dos mundos (o sangue deu origem ao mar, a carne deu origem à terra, o cabelo deu origem à vegetação, o cérebro deu origem às nuvens e o crânio deu origem ao céu). Depois de várias batalhas pela conquista dos mundos, acabou por se chegar à conclusão de repartir as terras pelas diferentes raças, que entretanto apareceram: povo do gelo, povo das rochas, humanos, Vanir, bruxas, feiticeiros, monstros. Os Vanir, nascidos de ligações entre os do Caos e os humanos, acabaram por ganhar mais magia do que os Aesir, uma vez que a magia era um dos poderes do Caos. E com a magia, vieram as Runas, que Odin acabou por cobiçar.

Gullveig-Heid, representante dos Vanir e uma das mais poderosas, foi até Asgard para negociar, mas os Aesir tentaram matá-la por três vezes no fogo, ao que ela conseguiu renascer e fugir, incentivando o seu povo e outros povos à guerra contra os Aesir. A guerra alastrou-se, até que Odin tentou mais um esquema: trocar reféns com os Vanir. Mandou-lhes Mimir e Honir e em troca ficou com Njord e os seus filhos (Frey e Freyja), na medida que os dois Aesir contribuíssem com ensinamentos de estratégia de guerra e os três Vanir contribuíssem com ensinamentos das runas. No entanto, Mímir e Honir tinham um esquema para dar informações falsas, o que levou à decapitação de Mímir, cuja cabeça voltou para Asgard com Honir. Odin acabou por preservar a cabeça com runas e transformou-a num oráculo, que guardou para si. Tempos depois, com novas ameaças dos povos do gelo e das rochas, os Aesir e os Vanir acabaram por se juntar em Asgard e, no final da guerra, uniram-se.

Com o tempo, Odin acabou por compreender que o que lhe fazia falta era alguém que fizesse os “trabalhos sujos” que ajudariam os Aesir a continuar no poder e depois de muito procurar (com a ajuda dos seus dois corvos Munin e Hugin), acabou por encontrar Loki, ainda na forma de Fogo Selvagem, um filho do Caos, filho de Laufey (uma chama) e de um monte de paus.

Loki, curioso por natureza, também andava à procurar de Odin. Andava à procura dos Aesir e dos Vanir através do Sonho, para descobrir quem é que andava a usar as runas e a magia, um dom do seu povo. Sonhava também ser livre, algo que não era no Caos, sempre subjugado por Surt, o Senhor do Caos. Assim, nas margens do rio de Sonho, Loki e Odin encontraram-se, este chamando pelos nomes de Loki de modo a trazê-lo para o seu lado. Loki mudou para o aspeto humano e acabou por se deixar seduzir pelo pedido de Odin: Loki seria um dos deuses, moraria em Asgard, seria estimado e bem tratado, estaria sob proteção de Odin, que seria seu irmão de sangue, trabalharia para Odin e não mais poderia regressar ao Caos. Para isso, como marca de aliança, marcou-o com a runa Kaen (runa do fogo) e levou-o para Asgard. Lá, Loki só encontrou ódio e rancor por parte dos outros Aesir e Vanir, exceto Idun (que não tinha sentimentos negativos por ninguém) e Sygin (que se apaixonou por ele).

A partir daí, Loki conta como foi a sua vida no meio dos deuses, como se deixou encantar e deslumbrar, como acabou por encontrar nada mais do que traição e ódio, como se tornou mais humano do que criatura do Caos, como se sentiu envolto em sentimentos e sentidos que o atormentaram, como encontrou algo parecido com Amor, com família, com amizade, e como acabou por perder tudo, restando-lhe apenas a vingança como arma contra aqueles que o acolheram com sentimentos de raiva e medo, contra aqueles que poderiam ter sido a sua família e que acabaram por se revelaram nada mais do que carrascos. Assim, Loki vai narrando a sua história e como esta se entrelaça com a história dos mundos, com o seu inícios e os seus finais.

Gostei muito do livro, mais do que dos outros dois. Apesar de gostar imenso de A Marca das Runas e de A Luz das Runas, The Gospel of Loki, ultrapassa-os, na minha perspetiva. Isto porque: tem o Loki como narrador e suprema personagem principal (ele é o meu favorito destes livros); tem uma linguagem mais adulta, mais assertiva, mais irónica; tem como cenário Asgard e outros locais míticos; os deuses estão mais presentes; existem momentos de pura melancolia e até bastante tristes, que estão muito bem doseados com momentos de puro riso; é uma boa forma de ficar a conhecer melhor a mitologia nórdica e, em especial, Loki e o seu papel nesta.

Uma vez que, já nos outros livros, Loki tinha-se revelado um eixo fundamental e um pilar de estruturação da história, isso é exponenciado aqui, sendo o narrador e a personagem principal. Também é possível, ao ler nas entrelinhas, descortinar o papel que ele teve em todos os momentos, especialmente nos momentos finais, que servem de ligação para alguns dos acontecimentos dos outros dois livros, principalmente do primeiro. Este livro é como que a base para tudo o que se desenvolve nos seguintes, porém, não significa que seja mais interessante lê-lo antes dos outros. Mesmo porque a ordem de escrita foi: A Marca das Runas, A Luz das Runas, The Gospel of Loki. Este livro é como que a chave para algumas pontas desatadas de algumas partes dos enredos dos outros dois livros, ou pelo menos para quem não é tão conhecedor da mitologia nórdica. Porque sim, o livro é uma espécie de reconto de alguns episódios desta mitologia, mas a forma como é narrado é soberba.

Mais uma vez, Joanne Harris volta a encantar com a forma como desenvolveu mais um capítulo desta história com base nos mitos nórdicos. Para mim, este supera os outros dois. E é pena que, em princípio, seja um standalone, dada a forma como terminou. Por falar nisso, esta é a prova que é possível escrever histórias boas, com um enredo rico, complexo, fantástico, sem ser necessário recorrer a vários livros. Neste pequeno livro (cerca de 300 páginas), acontecem mais episódios do que em qualquer dos outros dois livros passados neste contexto.

Não podia deixar de mencionar outro facto que muito me agradou: a final do livro. Ao longo do livro, o narrador vai-nos dando pistas sobre o final (e todos os que leram os outros dois livros, ou apenas um, ou que conhecem alguns episódios desta mitologia) e eu já sabia o final, pelo menos, a parte mais visível do final. Porém, a mestria com que ele narra a história, a forma como ele utiliza as palavras e as usa para criar os significados subtis que pretende mostrar ao leitor, faz com que o final seja muito mais do que aquilo que se estava à espera. Este é, simplesmente, brilhante, bem como em certa medida, bastante triste. Como referi à pouco, existem momentos de puro riso porque a forma como ele narra e alguns dos episódios que são narrados, permitem que o leitor dê várias gargalhadas. No entanto, Loki mostra ser um ser que também é capaz de refletir, de sentir, de se angustiar e sofrer, de tal modo e de tal forma que faz com que certos momentos do livro se tornam bastante melancólicos. Refiro-me em especial aos momentos com os filhos dele e àqueles em que ele é traído.

É uma história mais adulta do que as dos outros livros. Existem diversas batalhas, com excelentes descrições que me fizeram imaginar lá dentro, o que é muito bom. Existe ação, drama, alegria, amor, magia (muita magia), intriga e dualidade. Estão presentes todos os ingredientes que promovem uma boa história, com um enredo forte e perfeito. Existe um excelente equilíbrio destes ao longo da narrativa. As personagens estão excelentes, muito diferentes umas das outras, muito bem caracterizadas e definidas. Todas elas têm o seu papel determinante para o global da história. Nada aparece por acaso e tudo o que é narrado é importante…tudo está ligado. E essas ligações são bastante expostas pelo narrador, que, enquanto narra a sua história, faz também uma reflexão sobre a sua vida, sobre as suas escolhas e sobre tudo o que poderia ter tido ou feito, pesando todo o seu passado em busca de uma espécie de redenção. Não há apenas um lado nele, não há apenas maldade ou gosto por enganar, por trair. Não. Esta história dá a conhecer um Loki muito mais complexo, um Loki que sempre foi mal-entendido pelos seus pares, que não foi aceite e que por isso se viu votado ao abandono e sem ninguém. E, no fundo, o que ele mais queria era alguém. Da sua maneira, mas alguém.


Um livro maravilhoso. Ainda não está traduzido para português, mas penso que alguma editora (a ASA, talvez…uma vez que traduziu os outros dois) o irá fazer. Espero que leiam e que gostem tanto como eu gostei. Recomendo a todos.


Podem encontrar mais informações no site da autora, aqui

Algumas citações:

Words, like names, are powerful things. Once given, there's no taking them back without risking serious consequences. p. 235

Or was this the scenario she'd always secretly wanted - to have me to herself for good, helpless and in her power?
"I brought some fruitcake for later," she said "If you like I'll cut you a slice."
"Cake," I said. "You brought cake?" p. 243

History spins its yarn, breaks threads, spins again, like a child's top, going back to the beginning. The Oracle knew that. That's what those last stanzas mean; a new world, rising from the ruins of the old. p. 294

NOTA (0 a 10): 10 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Luz das Runas, de Joanne Harris

A Luz das Runas é a continuação de A Marca das Runas, excelente livro da autora Joanne Harris, que muito me agradou. Este não se lhe ficou atrás, nem por sombras. Para mim, A Luz das Runas mostrou-se um pouco superior ao seu antecessor, especialmente por causa dos cenários do enredo, da forma como este se foi desenvolvendo e também por causa da evolução das personagens. 


Passaram-se três anos desde os acontecimentos narrados no livro anterior. Maddy vive com a sua família de deuses em Malbry, no antigo presbitério dos Parson. Depois de algum tempo de calma, Loki é atacado por uma cobra-mulher, um efémero nascido do sonho com um aspeto mortífero para Loki e com o propósito de o matar. Maddy aparece para o salvar, mas depois desse ataque, tudo muda na vida dela e dos deuses. Ethel/Frigg, Vidente, profetiza o reconstrução de Asgard e o Fim dos Mundos, dentro de doze dias, e assim começa a nova aventura pela sobrevivência, poder e vida dos Æsir e dos Vanir, a luta entre a Ordem e o Caos. Porém, a demanda é mais perigosa do que se poderia esperar, pois há uma força que tenta por tudo aniquilar o Povo do Fogo, força essa que é controlada por Maggie, uma rapariga do Fim do Mundo, que viu a sua família morrer depois da Bem-Aventurança (ou da guerra levada a cabo pelo Inominável (Mimir) contra os deuses três anos antes) e da peste que se lhe seguiu, bem como da queda da Ordem. Maggie viveu sozinha por três anos, apenas do ordenado mísero a servir numa estalagem/bar, e do seu estudo através dos milhares de livros (incluindo o Livro das Palavras) por ela descobertos nos túneis da cidade e da Universidade.Todos os esforços são necessários e as mentiras e intrujices são mais do que muitas, tornando as tarefas das personagens bastante árduas.

Gostei muito da narrativa. Apesar de a construção do enredo ser bastante parecida com a do livro anterior, é possível constatar que existe um maior amadurecimento, tanto a nível das personagens como da narrativa. A história é mais complexa, torna-se mais adulta, mais negra. As viagens feitas pelas personagens tornam-se mais complexas, por mais locais do que aqueles que são apresentados no primeiro livro, o que faz com que se tenha uma ideia mais alargada também e bastante mais profunda do ambiente em que as personagens vivem e das suas diferentes culturas. Gostei bastante de ver a cidade do Fim do Mundo, bem como a outra cidade por onde o grupo dos Æsir e dos Vanir passaram aquando da sua viagem até ao Fim do Mundo, onde atuaram e jogaram um perigoso jogo com um ser fantástico. 

Como já referi anteriormente, as personagens mostraram um maior amadurecimento. Depois de três anos isso seria de esperar, mas a subtileza das alterações psicológicas das personagens está muito bem. Também não há uma linearidade nas suas personalidades e nos seus pensamentos/emoções. A autora conseguiu construir um leque de personagens onde a duplicidade está sempre presente. Não digo duplicidade como algo negativo, mas como uma característica de complexidade e interesse.

Também penso que a autora fez um bom estudo da personalidade através das personagens. Afinal, nada é linear e as escolhas que têm de fazer são sempre difíceis. Tudo é mais complexo do que aquilo que parece e nada é perfeito ou totalmente imperfeito. O bom e o mau estão presentes em tudo e todos podem ser surpreendidos e surpreender, tanto por um lado como pelo outro. É um bom estudo, subtil, mas presente.

Ao observar o desenrolar da ação e das ações e pensamentos das personagens, consegui estar sempre seguir os raciocínios e decisões delas, conseguindo também compreender a ambiguidade das suas personalidades e os porquês das suas duplas condutas. Isto é interessante. Por exemplo, Loki tem uma evolução fantástica e árdua, o que é fantástico e que muito me agradou. Também Maddy e Maggie mostram uma grande personalidade, mesmo que por vezes me tenham irritado, em especial Maggie (que no início me estava a deixar um bocado chateada com ela mesma, desejando que Maddy e os outros não se aliassem a ela), que acabou por me surpreender e por ser uma mais-valia para o enredo.  

De realçar também as outras personagens que apareceram neste livro e que foram uma “lufada de ar fresco”: Angie (Angrboda), os Lobos, Sigyn, os Corvos, Perth. Personagens muito interessantes, cujas ações estão muito bem concretizadas, sendo bastante úteis, e necessárias, para a narrativa. 

Outro aspeto que me agradou bastante foi o desenvolvimento da narrativa. Estas histórias da autora não parecem apresentar um fio condutor muito explícito no início, mas a dado momento tudo se começa a encaixar, demonstrando assim a complexidade da história e de como os acontecimentos estão intricadamente relacionados entre si. Isto é uma mais-valia para a história, a meu ver. Também as profecias e antigas canções de embalar/infantis voltam a ter grande importância, acabando por definir a história em si.
Também as descrições são bastante interessantes, no entanto penso que poderiam haver mais. Por vezes, sente-se que o ritmo frenético da história acaba por interferir com a imagem global do ambiente à volta. Algo que não prejudica de modo algum a leitura, claro. 

Bem, já tinha saudades de voltar a ver estas personagens, principalmente o Loki. Sim, é o meu favorito e estava com algum receio de que ele não aparecesse tanto na história, mas fiquei agradavelmente satisfeita com a sua brilhante atuação ao longo de toda a narrativa, sentindo alguns momentos de apreensão e outros de alegria. E gostei imenso de o ver com Angie e Sigyn. 

Em suma, esta é uma história muito boa, divertida, complexa, interessante e com momentos de pura fantasia. Pessoal que gosta de Fantasia, não tenha medo de arriscar. Pessoal que gosta de qualquer outro género literário, também não tenha medo, estes livros são excelentes! Joanne Harris fez um bom trabalho com os deuses nórdicos e as suas aventuras prometem momentos de grande emoção e umas boas gargalhadas. Recomendo vivamente!

- Querido - disse ela - Porque demoraste tanto? - Ela levantou-se e beijou-o na boca. A sensação foi realmente bastante agradável, pensou ele. Afinal, haviam passado mais de quinhentos anos desde que alguém quisera ter alguma coisa a ver com a sua boca, exceto talvez para a fechar de vez.
Fechou os olhos. As mão de Sigyn uniram-se no fundo das suas costas e apertaram-no...
pág.589

NOTA (0 a 10): 10

domingo, 11 de maio de 2014

A Marca das Runas, de Joanne Harris

Primeiro que tudo: FANTÁSTICO! 

Pois bem, A Marca das Runas, primeiro livro de dois, da autora Joanne Harris, é uma excelente obra de Fantasia. Tendo como base a mitologia Nórdica, este livro é uma janela para esse mundo, povoado por deuses, seres mágicos, magia, runas, a Ordem e o Caos. É um completo mergulho nestas lendas e serve-se extremamente bem delas para explorar a história.

Já há algum tempo que andava de olho nele, principalmente devido ao título e à sinopse, mas quando fiquei a saber que o Loki (e companhia) faziam parte do livro, não esperei mais. Tive de o ler! Sempre gostei das lendas nórdicas e muita da Fantasia que tanto gosto vai/foi lá beber. Então, quando vi os filmes do Thor, fiquei completamente apaixonada...pelo Loki, principalmente. Assim, foi com imensa curiosidade e entusiasmo que iniciei a leitura desta obra.

Depois do Ragnarók, os deuses caíram: foram presos ou mortos. Os Æsir foram destruídos, os Vanir banidos. A Ordem impôs-se, nasceu uma nova Ordem, feita de historiadores, clérigos, religiosos, que se uniram contra todo o conhecimento antigo, instaurando uma nova religião, única e verdadeira, baseada na Palavra e no culto ao Inominável. Tudo o que estava relacionado com magia foi banido e aqueles que, porventura nascessem com marcas de runas (humano ou animal) ou que a fizessem eram entregues para serem mortos, num processo inquisitório. A Ordem tinha a sua localidade grandiosa no Fim do Mundo, um tanto longe de Malbry, aldeia onde vivia Maddy Smith, filha do ferreiro da aldeia. Maddy nascera com uma marca numa das mãos e logo foi posta à margem. Era vista como bruxa e não tinha amigos. Mas Maddy não se importava muito, continuando a sua vida e o seu gosto pela magia que sabia poder fazer. Aos sete anos encontrou um velho zarolho na Colina do Cavalo Vermelho, lugar de superstição e magia, e viu que aquele homem sabia muitas coisas que ela quis aprender. A amizade entre eles foi crescendo, e todos os anos, por volta de Beltane, o Zarolho aparecia na Colina e Maddy ia ter com ele. O velho era um comerciante, que sabia muito dos Mundos e de magia e logo compreendeu que Maddy era especial e começou a treiná-la, mesmo sem que ela compreende-se na totalidade. Ensinou-lhe as histórias dos deuses e das guerras da Ordem e do Caos e alertou-a contra possíveis inimigos. Assim foi Maddy crescendo. Pelos seus 14 anos, o Zarolho deu-lhe uma tarefa: entrar na Colina e encontrar o Sibilo. Não lhe explicou nada mais, exceto conselhos contra o Impostor, apenas ajudando-a a entrar. Mas eles não estavam sozinhos: Adam Scatergood, um rapaz da aldeia, ajudante do padre e maldoso, ouvira tudo e logo foi contar ao padre, que depressa arranjou maneira de por o povo contra Maddy, acusando-a de bruxaria, guiando todos para um cerco à Colina e apelando para a Ordem, que enviou um Inspetor.

Sem nada para se orientar, Maddy viu-se dentro da Colina, num mundo de túneis, o Mundo Subterrâneo, sem saber o que fazer. Acabou por encontrar um conhecido seu, um goblin de nome Açúcar e Vinho, que a guiou durante um bocado, acabando por enganá-la. Depois de muito caminhar, acabou por ir ter a uma caverna com um poço de fogo, onde algo estava escondido.
Assim começa a aventura de Maddy pelos Mundos em busca de salvação para os deuses e para os Mundos, uma demanda perigosa, cheia de contratempos e de mudanças, onde nada parece o que é. É uma jornada pela sua vida, pelo conhecimento de quem é de verdade. E, sem saber o que fazer, acaba por ter de guiar-se pelas suas ideias, pela sua coragem e pelos seus companheiros, mesmo desconfiando deles.

Muitos são os enredos paralelos ao longo da história: a demanda de Maddy, a demanda do padre Nat Parson, a demanda do Zarolho, a demanda do Sibilo, a demanda de Loki, a demanda dos Vanir e de Skadi... os objetivos das personagens são variados e as suas decisões afetam tudo e todos. É uma história sobre sobrevivência, poder, sacrifício, coragem. A demanda de Maddy é enorme e sem ela saber, tudo o que dela parte pode mudar os Mundos, literalmente. O fundo do enredo, o grande plot, é muito mais denso do que se imagina inicialmente e só à medida que se vai lendo é que se vai compreendendo verdadeiramente quais os objetivos das personagens, os seus desejos secretos, sendo que tudo está interligado com várias profecias proferidas pelo Oráculo (ou Sibilo), uma vez que estás estão diretamente relacionadas com a vida das personagens.

Ou seja, o enredo é feito de um choque de desejos, que não posso estar aqui a mencionar ou iria contar a história toda! E, acreditem, não vale spoilar, porque a história é fantástica e é ainda melhor saboreada se se for à descoberta!

Gostei imenso. É um dos melhores livros que li este ano, sem dúvida. Gostei muito da escrita: bastante fluída, concreta, terra-a-terra, explícita. Ainda não tinha lido nada da autora e fiquei bastante agradada. A narrativa é muito coerente, muito coesa: tudo se relaciona, tudo está interligado; nada falha, nada fica de fora; todos os pormenores são importantes, até aqueles que, à partida, não parecem sê-lo. Aprecio bastante quando tal acontece, pois, como já referi várias vezes, tal demonstra mestria da parte do escritor. Enredos básicos, onde tudo se descobre "à descarada", sem nenhuma complexidade, neste género de livros principalmente, é bastante monótono e chato. Gosto de histórias que me façam pensar, encontrar teorias, planos...isso dá-me vontade de ler mais, de descobrir, o que faz com que mergulhe completamente na história: é como se estivesse lá com as personagens. É isso que eu procuro, principalmente, nos livros. É bom quando acontece e aqui aconteceu. Muito, muito agradavelmente.

A visão dos Nove Mundos, tudo o que se lhes relaciona, as descrições mágicas e fantásticas, são aspetos que também ajudaram ao meu gosto pela história. A viagem feita pelas personagens também foi feita por mim. É como se estivesse lá...as descrições são tão boas, tão compreensíveis e ao mesmo tempo fantásticas e até impossíveis, que permitem que tal seja possível ao leitor. Senti-me muito próxima das personagens e dos locais. A relação muito próxima com as lendas da mitologia Nórdica está muito bem desenvolvida.

E por falar em personagens, não podia deixar de referir a minha preferida: o Loki! Sim, de todas as personagens, o Loki é a melhor. Ele é fantástico: cheio de charme, de humor, intrigante, escorregadiço, inteligente, mentiroso, mas também bastante nobre e até bondoso. Sim, porque lá no seu intimo, ele tem bondade. Isso é possível de observar ao longo do livro. Também ele ajudou ao meu gosto pela obra. O seu humor, as suas respostas secas, inteligentes, sarcásticas, e também os momentos de perigo porque que passa ao longo da aventura, as suas dores, inquietações, medos, fizeram com que eu sentisse algo por ele, aquele sentimento especial que acontece entre o leitor e certas personagens...carinho, interesse e apreço. Mesmo podendo ser considerado como vilão, eu não o vejo como vilão e se não fosse ele, as coisas por que passou, as suas decisões e do que abdicou, o final da história não teria sido aquele que foi. Sem dúvida, Loki é das melhores personagens da história. Para mim, é a melhor. Ele é fantástico e consegui passar umas boas horas na sua companhia, torcendo por ele em vários momentos, ficando apreensiva noutros, temendo, rindo e alegrando. Assim, é de referir que todas as personagens são interessantes e complexas, sendo ótimas companhias de aventura, sendo que delas, destaco o Loki (que aqui é ruivo).

Em suma, aconselho a todos, sem reservas. É um livro fantástico, de Fantasia, onde a Mitologia se mistura com a imaginação da autora, onde tudo se interliga, havendo momentos de grande intensidade emocional. As personagens são fantásticas, os ambientes também (há mapas cruciais e maravilhosamente elaborados no início do livro, tal como uma lista de personagens e de runas utilizadas ao longo da narrativa). Esta é uma viagem aos Nove Mundos que fica guardada no coração e na mente. Muito, muito bom! Agora, é ler o segundo.

Profecias:

Vejo um exército pronto para a batalha.
Vejo um General isolado.
Vejo um traidor no portal.
Vejo um sacrifício.

E os mortos despertarão nas cavernas do Hel.
E o Inominável erguer-se-à, e Nove Mundos serão perdidos,
A menos que os Sete Adormecidos despertem,
E o Trovejante seja libertado do Mundo Subterrâneo...

p. 268

Quando Odin e o Sábio Mimir se encontrarem, o Caos entrará nos Nove Mundos. Vejo um Freixo no portal aberto - disse o Sibilo. - Atingido por um raio, mas de rebento verde. Vejo um encontro na orla do Mundo da Maldição, do sábio e do não sábio. Vejo uma barca de morte nas margens do Hel… e o Filho de Bór com o seu cão aos pés.
p.286

Citações: 

- Um mar sem marés ficaria estagnado – acrescentou Loki. – Do mesmo modo, um mundo que deixasse de mudar entorpeceria e tenderia para a morte. A própria Ordem precisa de algum Caos. Odin sabia isso quando me levou com ele e quando fizemos um pacto de irmãos de sangue. OS outros não compreenderam. Ficaram de olho em mim desde o primeiro momento.
p. 114



Vinte e dois segundos. Já viam o portal. A entrada não parecia maior que uma ogiva pontiaguda e Thor segurava-a com ambas as mãos,  o rosto visivelmente contraído pelo esforço, os ombros curvados como os de um boi, enquanto eles passavam velozes pela fenda estreita.

Vinte segundos.

- Não te preocupes. Vamos conseguir…

- Maddy… não…

O coração de Maddy estava quase a rebentar quando se esgueirou pelo portal, arrastando atrás de si Loki, que continuava a debater-se.

- Ouve bem! O Sibilo mentiu. Eu sei o que ele quer. Vi-lhe a mente. Sei desde o primeiro dia da nossa viagem. Não te contei, menti, pensei que poderia utilizar esse conhecimento para me salvar.

Quinze segundos.

Maddy forçou o braço de Loki.

Naudr, a Amarra, cedeu com um estalido.
p. 440

Porque um contador de histórias não morre nunca, mantém-se sempre vivo nas suas histórias enquanto houver alguém para as ouvir.

Tudo o que pode ser sonhado é verdadeiro. Procura-me no sonho.

p. 518

NOTA (0 a 10): 10