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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón

Sinopse:

Não perca o final da saga iniciada com A Sombra do Vento.

Na Barcelona dos fins dos anos de 1950, Daniel Sempere já não é aquele menino que descobriu um livro que havia de lhe mudar a vida entre os corredores do Cemitério dos Livros Esquecidos. O mistério da morte da mãe, Isabella, abriu-lhe um abismo na alma, do qual a mulher Bea e o fiel amigo Fermín tentam salvá-lo.

Quando Daniel acredita que está a um passo de resolver o enigma, uma conjura muito mais profunda e obscura do que jamais poderia imaginar planta a sua rede das entranhas do Regime. É quando aparece Alicia Gris, uma alma nascida das sombras da guerra, para os conduzir ao coração das trevas e revelar a história secreta da família.... embora a um preço terrível. 

O Labirinto dos Espíritos é uma história eletrizante de paixões, intrigas e aventuras. Através das suas páginas chegaremos ao grande final da saga iniciada com A Sombra do Vento, que alcança aqui toda a sua intensidade, desenhando uma grande homenagem ao mundo dos livros, à arte de narrar histórias e ao vínculo mágico entre a literatura e a vida. (in Goodreads)




Opinião:

Depois de alguns anos à espera deste livro, assim que saiu agarrei-me a ele e só o larguei quando terminou. Não esperava outra coisa quando o comecei, sabia que ia ficar sedenta das palavras magicamente elaboradas do autor e confesso que cheguei a atrasar a leitura para poder saborear mais um pouco. 

É o sexto livro que leio do autor e é sempre como se fosse a primeira vez; é sempre algo mágico e rico. E é uma experiência que me delicia. 

Sendo A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e O Prisioneiro do Céu livros que me marcaram e que me deixaram em suspenso, esperava muito deste volume. E não fiquei desiludida. 

Este livro pega na história onde O Prisioneiro do Céu terminou. O mistério continua e muito há para descobrir. Daniel é pai de um menino, Júlian, Fermín continua com as suas atividades e mistérios, mas algo muito mais negro e perigoso entra em cena quando o ministro e ex-diretor da prisão de Montjuic desaparece. Rodeado de um mistério que envolve algo muito grande e perigoso, entra em cena Alicia Gris, uma jovem de profissão um tanto estranha: trabalha para uma espécie de organização-fantasma que ajuda a polícia a resolver casos muito difíceis, entre outros trabalhos arriscados. 

Numa trama a que Zafón nos foi habituando, todas as personagens têm uma ligação, todos os momentos são parte de um puzzle gigante e bem construído, onde cada momento encaixa na perfeição. 

Senti novamente uma grande afinidade com as personagens, todas elas. Uma vez que a história vai sendo contada através de várias personagens e dos seus olhares (apesar de só uma parte ser na primeira pessoa), é possível observar como a teia está interligada e tecida. As pontas, que parecem mais desfeitas do que nunca, vão se aproximando, aproximando...para revelar algo que é acaba por surpreender, e que já vou referir mais à frente. 

Em relação às personagens, devo referir que todas, sem exceção, estão soberbas. Desde as maiores até às menores, todas elas fazem o seu papel na perfeição, com propósitos bem definidos e distintos. Gostei de todas elas e da forma como apareceram na história e deixaram a sua marca. Daniel continua a ser aquele jovem amigável e simpático, se bem que muito mais complexo e que acaba por se mostrar bastante obscuro a dado momento. Fermín continua a ser um mistério e a personagem mais carismática da saga. Sempre pronto a ajudar e sempre com algo a dizer. Beatriz também está muito bem...mas claro, uma das personagens deste livro, aquela que tem mais destaque, é Alicia. Complexa, obscura e sedenta de conhecimento sobre tudo o que a rodeia, ela é a agente secreta perfeita. Com a ajuda do agente da polícia Vargas, fazem uma excelente dupla a resolver o mistério do desaparecimento de Valls, personagem que se vai tornando mais horripilante à medida que a história avança. 

Mas há muitas mais personagens...personagens que regressam, personagens que aparecem só por momentos, personagens que aparecem apenas em conversas entre outras ou por cartas, mas que são o eixo central de toda a história. Todas elas são únicas e especiais e eu gostei de todas. 

Quanto à narrativa, há tanto para dizer...tanto para contar e para comentar... mas não quero adiantar-me muito pois o mais certo seria começar a contar spoilers e este é aquele tipo de história que merece que se vá sendo surpreendido a todo o instante, sem spoilers. Fiz um esforço por não ir à frente e confirmar algumas das minhas teorias, mas lá consegui. Contudo, posso dizer aquilo que senti. 

A história está perfeita. Além do facto de tudo encaixar, a trama está riquíssima. É poderosa, complexa e surpreendente simples. O que parece tão complicado a certa altura e em livros anteriores, acaba por ser algo tão simples que surpreende por si só. Todo o passado acaba por vir à tona e muitos mistérios dos livros anteriores são trazidos a lume, se bem que muito fique nas entrelinhas, o que também me agradou bastante, uma vez que fixa a ideia de mistério que sempre me prendeu à obra. 

Poder, política, corrupção, um enredo sórdido e triste, que no seu âmago leva a uma pequena história, a uma história simples, de amor, amizade e lealdade. No meio de uma trama gigante e rocambolesca, narrada com mestria, está o amor, simples e despido de complexos. É como o desfolhar de uma rosa. As pétalas vão saindo, até mostrar o centro, o motivo de toda a história, de todos os mistérios desvendados e que ficam por desvendar. Porque, afinal, o que move tudo e todos é o amor. O amor em todos os sentidos, seja de que forma for, seja por quem ou pelo que for. Por uma pessoa, pelo poder, pelo prestigio. 

E não é só a história em si que extraordinária e perfeita. É também a forma como é contada. O jogo de palavras, a construção das frases, dos parágrafos... há um motivo para cada palavra estar onde está. O constrói cada frase com o propósito de criar algo único e de conduzir o leitor pelo labirinto. Assim, não se é apenas conduzido pelas personagens e pela história, como pela própria linguagem. A linguagem é ela própria personagem, por assim dizer. Aliás, é como se ela fosse a grande narradora. Como se a história fosse narrada pelas próprias palavras, como se elas se escrevessem a si mesmas e criassem elas mesmas a história. 

É uma história sobre histórias, sobre livros, sobre a arte da escrita e da leitura, sobre o que estas duas artes nos dão e nos tiram. É uma lição de como contar um história e de como apreciá-la e vivê-la. É uma história comovente, grandiosa e inesquecível, que deixa algo em nós e que também fica com algo nosso. Aliás, isso mesmo é descrito a dado momento, o que promove a forma como a escrita faz parte da própria história. 

Zafón volta a surpreender, volta a dar-nos uma maravilhosa história de amor e luta. Luta pela Vida, luta pela justiça, por algo melhor. Por mais violência e descrições cruas e negras que haja, por mais nojeira e asco que apareça, está lá o amor e amizade para as vencer. 

E, mais uma vez, leva-nos por uma brilhante visita a Barcelona. 

Assim, recomendo vivamente a todos os leitores que gostam de histórias poderosas, complexas, densas, misteriosas e belas. É, sem dúvida, uma viagem única e que nos arrebata. Todos devem ler estas histórias, pois são preciosas e mágicas.

NOTA (0 a 10): 10 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

"Marina", de Carlos Ruiz Zafón

Não sabia então que o oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que
nele enterramos. pág. 10.

Nota: a sinopse do Goodreads não está aqui presente pois mais abaixo encontra-se um resumo feito por mim.

"Marina" é uma das primeiras obras de Carlos Ruiz Zafón. Li "A Sombra do Vento" o ano passado, também por esta altura e fiquei de pronto fascinada com a mestria do autor, sentido uma enorme vontade de ler todos os seus outros livros. Li também " O Jogo do Anjo", "O Prisioneiro do Céu" e "O Príncipe da Neblina" e já há um ano que queria ler "Marina". Foi com grande mistério que comecei a ler esta obra e senti-me logo fascinada pela história, pelas personagens e pela escrita/linguagem que o autor usa ao longo da narrativa. Zafón é um autêntico contador de histórias, cuja linguagem pode ser definida com os termos de "delicada", "bela" e "melancólica". Esta história está embebida numa melancolia muito profunda, que persegue e procede todas as personagens ao longo das suas vidas. É um prazer ler este livro, pois nele estão encerrados temas que são fascinantes e misteriosos, acalentando algo estranho e inquietante durante a leitura.

Em "Marina", Zafón apresenta-nos Óscar Drai, um jovem de 15 anos, interno de um colégio de Barcelona. Óscar conta-nos a sua história na primeira pessoa do singular, começando pelo final, para depois iniciar a narração da sua aventura até ao momento final. Óscar, desaparece durante uma semana, em maio de 1980, sem deixar rastro e sem aviso. Então, Óscar decide-se a contar o que aconteceu para se ter eclipsado do colégio. Óscar tinha um passatempo quando terminavam as aulas diárias: sair do colégio e ir passear para o as redondezas. Um dia, no final de setembro de 1979, ele encaminhou-se para o norte do Paseo de la Bonanova, no Sarriá, chegando a uma rua deserta, com uma mansão de dois andares, ladeada por um jardim abandonado com uma fonte de esculturas. Com o portão entreaberto e um gato, Óscar decide aventurar-se dentro do jardim. Acaba por entrar na casa, seduzido pelo som de uma música bela, vinda de um gramofone. Chegado a um salão cheio de quadros na parede, Óscar fica admirado pela beleza do salão, acabando por encontrar um relógio de ouro com uma inscrição. Enquanto admirava o relógio, é surpreendido por um vulto a erguer-se de um cadeirão. Assustado, Óscar foge da mansão, levando consigo o relógio.
Porém, ao longo dos dias, sente uma enorme necessidade de devolver o relógio e voltar à mansão, não querendo ser achado de ladrão. Decide-se e acaba por conhecer uma jovem, muito bela, Marina. Marina é filha de Germán, morando ambos na mansão. Óscar fica desde logo encantado por Marina e encontra em Germán um amigo (o vulto da primeira incursão), começando a frequentar a mansão. Marina acaba por convidar o jovem para um passeio, acabando os dois no cemitério de Sarriá, onde encontram uma misteriosa dama de negro, que todos os últimos domingos do mês vai até lá, com uma rosa vermelha, para colocar num misterioso túmulo. Marina convence Óscar a seguirem a dama de negro e acabam ambos por se verem envolvidos numa trama do passado que nunca poderiam ter imaginado nem sonhado. Juntos vão viver uma aventura intensa, cheia de perigos e de mistérios, cuja história eles nunca poderiam acreditar se não a presenciassem.
Marionetas macabras, criaturas desumanas, estranhas e infernais, um passado repleto de mistério, assassínios e fraudes, invejas e crimes, amores e desamores. Este é o cenário dantesco em que Óscar e Marina vêem as suas vidas mergulhar, para nunca mais serem o que eram antes.

 Personagens presentes na ilustração: Óscar, Marina, Germán Blau, Kirsten Auermann (no retrato), María Shelley, Eva Irinova, Mikhail Kolvenick, marioneta animada

Apesar do tamanho desta obra, das suas parcas 260 páginas, esta é uma história grande, intensa, grandiosa e decadente, que nos enche de melancolia ao ler, mas também de uma beleza sublime e de esperança. É uma história com vários ingredientes, sendo o suspense a sua maior iguaria, uma vez que a viagem ao passado das personagens é bem alucinante e aterradora. Preparem-se para emoções fortes, com alguns laivos de terror à mistura, bem como uma grande dose de romantismo decadente, onde a doença, a amargura, a deformação, o mistério, a utopia, a Natureza e a Ciência, fazem parte do enredo como o ar faz parte da atmosfera. Esta é uma história de fantasmas e de ecos do passado, onde nem tudo o que parece é.

Ao ler este livro, foi-me impossível não associar algumas das ideias a outras presentes nas outras obras deste escritor, nomeadamente no livro "O Jogo do Anjo", em que muito, para não dizer tudo, não é o que parece, sendo toda a história uma espécie de incógnita, muito bela e também macabra, por vezes. Este livro tem vários aspetos desses, sendo o mais normal ter sido "O Jogo do Anjo" a herdar as ideias de "Marina", que lhe é anterior. Criaturas de metal, madeira e carne e osso, animadas por experiências, estão também presentes em "O Jogo do Anjo" (algo que me fascinou na altura e me voltou a fascinar agora, pois a ideia subjetiva a tal conceito é frequentemente apresentada em ficção steampunk ou de fantasia, como é o caso da trilogia de Cassandra Clare, de "O Anjo Mecânico"). Foi-me impossível, também, não fazer uma analogia bastante interessante e que me fascinou, revelando a mestria do autor. Existe uma grande dose de experiências cientificas cujo objetivo é criar vida depois da morte, ou seja, reviver. Uma das personagens, uma jovem de trinta e poucos anos, tem por nome María Shelley, filha de Joan Shelley, doutor especialista em deformações do corpo e doenças raras. Era impossível não associar María Shelley a "Frankenstein", sendo este o nome da sua autora (Mary Shelley).

As personagens estão muito bem definidas e apresentadas, com passados muito bem estruturados e uma história forte. Marina é uma personagem muito forte, carismática e maravilhosa, cuja atitude se mostra sempre interessante e valente, apesar de tudo. Óscar, pelo seu lado, é uma personagem com um temperamento diferente do de Marina, sendo menos perspicaz e menos afoito, acabando por seguir os passos dela e tornar-se num bom "investigador", menos temoroso e mais valente. Todas as outras personagens são muito bem definidas, com histórias brilhantes e com um passado bem sombrio e cheio de "esqueletos no armário". O passado, como em todas as histórias de Zafón, é a personagem principal e mais grandiosa da obra. É um prazer penetrar no passado das personagens de Zafón, numa Barcelona já há muito perdida, como diz Óscar no epílogo: "A Barcelona da minha juventude já não existe". 

Uma noite, era quinta-feira, Marina beijou-me nos lábios e sussurrou-me ao ouvido que me amava e que, acontecesse o que acontecesse, me amaria sempre.
 

Mergulhar na Barcelona de Zafón é mergulhar num mundo mágico e resplandecente, que nos puxa para si, para não mais nos largar. Ler Zafón é como fazer uma viagem, tanto pelo Tempo como pelo Espaço, em que o destino nunca é aquele que se está à espera. Belíssima história, com um final arrepiante e comovente. Uma história repleta de amor e tragédia, com um ambiente digno de um filme de terror ou suspense. Deviam mesmo adaptar estas obras ao cinema. Não esquecerei esta história, nem estas personagens. 

Surpreendi-me a mim mesmo olhando-a fixamente e, sem saber de onde me saiu aquela coragem, inclinei-me sobre o seu rosto procurando-lhe a boca. Marina pousou os dedos sobre os meus lábios e acariciou-me a cara, repelindo-me com suavidade. (...)
Cortou a folha e estendeu-ma.
- É para si, Óscar, para que não se esqueça da minha Marina.
(...)
Apaguei a luz e a imagem de Marina andando na sua praia deserta veio-me à mente.

 Recomendo. 

Às vezes duvido da minha memória e pergunto a mim mesmo se apenas serei capaz de recordar o que nunca aconteceu.
Marina, levaste todas as respostas contigo.
pág. 260

NOTA (0 a 10): 10

sábado, 6 de outubro de 2012

"O Príncipe da Neblina", de Carlos Ruiz Zafón

Depois de um momento de indecisão face à compra deste livro ou de "Marina", do mesmo autor, optei por comprar este. Já há bastante tempo que o tinha na minha wishlist, desde que foi publicado em português, mas ainda não tinha decido apostar na sua compra. A semana passada decidi fazê-lo.

O primeiro livro que li deste autor foi "A Sombra do Vento", que é soberbo. Por isso, sei que vai ser difícil conseguir ler outro livro do autor que se possa comparar à Sombra do Vento ou até ultrapassar. É raro tal acontecer, mas não é impossível. Contudo, ainda não consegui ler outro livro de Carlos Ruiz Zafón que ultrapasse a Sombra do Vento. E este não foi excepção.

Com um enredo interessante e misterioso, Zafón leva-nos a uma visita a uma aldeia na costa atlântica sul da Inglaterra, durante os tempos da 2ª Grande Guerra.

O livro inicia-se com com um prefácio muito bonito, em que o autor escreve sobre si mesmo e sobre o amor aos livros e à leitura e depois começa a narrativa. A história passa-se no verão de 1943. Maximilian Carver, pai de três filhos, Alicia, Max e Irina (por ordem do mais velho para o mais novo), decidi mudar-se para uma aldeia distante da cidade com a sua família de modo a fugir da guerra. Maximilian, a esposa e os filhos partem para a aldeia, para uma casa na praia que tinha sido construída por um rico cirurgião e a sua esposa, mas que tinham tido a infelicidade do seu filho, Jacob, morrer afogado na praia. A casa, abandonada à mais ou menos uma década, passa assim a ser a casa da família Carver.

"Esse é um caminho que cada um de nós deve aprender a percorrer sozinho, rogando a Deus que o ajude a não se perder antes de chegar ao fim. Se fôssemos todos capazes de compreender no princípio da nossa vida isto que parece tão simples, grande parte das misérias e desgraças deste mundo não se chegaria nunca a verificar."

Assim que chegam à estação, Max sente que algo de errado se passa ali. O relógio da estação não funciona bem: os ponteiros andam para trás. E, como que à sua espera, está um gato que decide travar conhecimento com Irina, que logo quer adotar o animal.

Quando chegam a casa, e depois de a limpar e dar alguns retoques, a família sente-se bem no local. Max, ao olhar por uma das janelas, descobre um bosque e um espaço que parece ser um jardim. Decidi explorar o jardim e deparasse com um cenário macabro: um jardim de estátuas de pedra, que formam uma estrela de seis pontas e cujo elemento do centro é um palhaço. O mais arrepiante de tudo é que o palhaço se move, muito devagarinho. Max logo fica apavorado, mas outra descoberta está para se realizar. Max conhece Roland, um rapaz mais velho que está prestes a ir para a guerra. Roland e Max tornam-se amigos e o rapaz mais velho convida Max para ir mergulhar, junto do barco afundado, Orpheus.


O pai de Max, numa das limpezas, descobre uma caixa de filmes e um projetor e decide fazer uma sessão de cinema. Quando o filme começa, depressa percebem que não vão ver filme nenhum famoso: é um filme amador, filmado por alguém que está no jardim de estátuas de pedra. E as estátuas estão todas numa posição diferente da que Max tinha visto aquando da sua exploração.
"Sem demora, Roland agarrou no rosto de Alicia e, pousando os seus lábios sobre os dela, expirou na sua boca o ar que lhe restava..."

Um mistério enorme, onde nem tudo é o que parece; uma amizade forte que vai levar a um final arrepiante, e acima de tudo um amor que vai fazer com que tudo mude.

Max, Roland e Alicia tornam-se amigos, mas o que eles não sabiam é que há mistérios demasiados profundos para serem desvendados e histórias que não podem ser esquecidas.

Recomendo a todos os fãs de Carlos Ruiz Záfon e a todos os leitores em geral. Este é um excelente livro para um público mais jovem, apesar de ser indicado para todas as idades!

Nota (0 a 10): 7,5

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"O Prisioneiro do Céu", de Carlos Ruiz Zafón

Este é o novo livro de Carlos Ruiz Zafón.

Era para ter lido este depois de "A Sombra do Vento", uma vez que é cronologicamente depois dos acontecimentos narrados n "A Sombra do Vento", porém decidi ler "O Jogo do Anjo" e só depois "O Prisioneiro do Céu". Ainda bem que assim foi, porque este livro é "um livro ponte" para algo ainda melhor e porque muito nele está relacionado com os acontecimentos n' "O Jogo do Anjo". 

Em "O Prisioneiro do Céu", Daniel (em 1957) continua a ser o narrador e está a mãos com o seu casamento e com o do seu amigo Fermín, com Bernarda. 

Tudo começa quando um dia um estranho entra na livraria. O estranho compra uma rara edição de "O Conde de Montecristo" e dedica-o a Fermín, entregando-o a Daniel para este lho entregar. Daniel fica muito curiosos e decide seguir o estranho para depois contar a Fermín o que aconteceu. Assim faz e o seu amigo avisa-o de que o estranho é muito perigoso e que não deve voltar a fazer tal coisa. Mas logo Daniel compreende que tal acontecimento transtornou o seu amigo e decide perguntar o que se passa. Depois de muitas tentativas da parte de Daniel, Fermín conta-lhe tudo o que lhe vai na alma, toda a sua preocupaçao, que em parte está relacionada com o seu casamento e o seu nome. 
Mas o que Fermín tem para contar a Daniel é a verdade, a verdade da sua vida e a verdade da vida de Daniel, ou de algo que há muito estava escondido. 
Fermín conta a Daniel a sua história, a sua detenção no castelo de Montjuic e o que lá aconteceu. E como conheceu o escritor David Martín, protagonista e narrador de "O Jogo do Anjo". 

Algo interessante e estranho acontece na narrativa de Fermín e que leva a "duvidar" de boa parte da história que David conta em "O Jogo do Anjo" e que a meu ver é algo muito bem "engendrado" pelo autor. Mais mistério. Um dos pontos altos do livro.

E é através de Fermín, o estranho que "salvou" Daniel em "A Sombra do Vento", que o jovem fica a conhecer o seu passado, ou parte dele, parte de algo que ele nunca poderia adivinhar e que todos queriam esquecer. O que Daniel ficou a saber através de Fermín foi, não apenas a história do seu amigo, mas a sua própria história. E é aqui que podemos ver a ponte para um desenlace magistral que tem como protagonista principal Daniel, o rapaz curioso e armado em detetive de "A Sombra do Vento". Tal só acontecerá num próximo capítulo, mas promete ser muito bom.

É assim que o passado e o presente se entrelaçam e fundem, para escrever uma história de sombras e luzes fugidias, onde a história faz correr um mar de palavras e sentimentos, ações e pensamentos que levam a algo maior e talvez mais sinistro, a história de um rapaz que nada sabia antes de começar as suas deambulações pelo Cemitério dos Livros Esquecidos, a história que há muito parecia estar esquecida e que vai para sempre mudar a vida dele, a história que liga todas as outras, a história de Daniel Sempere. 

Aconselho vivamente a todos os leitores de "A Sombra do Vento" e/ou "O Jogo do Anjo". Este pode não ser a obra prima de Zafón, não é melhor (a meu ver) que "A Sombra do Vento" (para mim, o melhor do escritor, que li até agora), e talvez não seja tão estranho e diferente como o é "O Jogo do Anjo", mas é sem dúvida uma ponte para uma obra que pode vir a ser melhor do que "A Sombra do Vento". 

Nota (0 a 10): 8,5

terça-feira, 4 de setembro de 2012

"O Jogo do Anjo", de Carlos Ruiz Zafón

O segundo livro de Carlos Ruiz Zafón que eu leio. 
 
Decidi apostar nos livros da história iniciada em "A Sombra do Vento" porque a escrita do autor e o próprio enredo são bastante cativantes.

Em "O Jogo do Anjo", a personagem principal é David Martín, um homem jovem, jornalista e escritor. O livro começa com David a fazer uma breve introdução sobre como é que ele começou a escrever histórias e sobre como a sua vida mudou desde que o seu editor lhe deu autorização para escrever uma história para publicar no jornal.
David, sempre debaixo da asa de Pedro Vidal (um homem de Letras, com o grande objetivo de escrever um soberbo livro, muito rico e pertencente a uma nobre família de Barcelona), segue assim os passos iniciais dos escritores. David conta a sua infância e como o seu amor pelos livros começou. De uma forma muito franca conta como a sua infância terminou e o deixou à porta daquela redação de jornal onde trabalhou até quase aos vinte anos e como foi ajudado por Pedro Vidal desde pequeno.
As histórias policiais e misteriosas de David cedo começaram a fazer sucesso e os seus colegas, invejosos, deixaram de lhe falar e mostraram-se hostis para com ele. Só Pedro Vidal e o editor o continuaram a ajudar.
Mas cedo chegou a noticia do despedimento e David não sabia o que fazer. Então, Pedro Vidal contou-lhe que quem o tinha feito perder o emprego tinha sido ele mesmo para assim ajudá-lo a encontrar uma editora que lhe publicasse os livros. David começou a trabalhar com o nome de Ignatius B. Samson e escreveu uma história em fascículos, intitulada "A Cidade Maldita".

O que David não sabia era que um estranho homem, que ninguém conhecia, andava atrás dele para lhe fazer um misterioso pedido. Já desde os tempos das histórias do jornal que várias eram as cartas que o homem lhe enviava, mas daí até David ter conhecimento do desejo do homem corre muita tinta.
David é apaixonado por Cristina, a filha do motorista de Vidal. Cristina também sente afecto por David, mas ambos sabem que tudo devem a Vidal, e mais cedo ou mais tarde a cobrança e David sabe que não pode ficar com Cristina.

Tudo se passa em paralelo com a família Sampere, o avô e o pai de Daniel entram na trama e são de grande importância. O Cemitério dos Livros Esquecidos também é fulcral. E aparece Isabella, a mãe de Daniel, que tem um papel muito interessante e talvez o meu favorito.

Numa visita por uma Barcelona dos anos vinte e trinta, David persegue uma história e uma vida onde nada é o que parece e ele não sabe nada. Uma casa misteriosa onde habita um segredo muito escuro, uma história já vivida por outro homem a quem David está ligado sem imaginar, uma história de polícia e de assassínios misteriosos que não se sabe quem os comete, uma perigosa jornada pela possível loucura de um homem que vivera na casa onde David habita e pela qual sente desde pequeno uma enorme atração.

Uma história de suspense, mistério, traição, amor e paixão. Uma história que mais parece saída de um filme do que de um livro e que devia ser adaptada ao cinema.

Um desenlace misterioso onde muita coisa fica em aberto e que talvez possa ficar mais claro em "O Prisioneiro do Céu", o terceiro volume, publicado há pouco tempo em Portugal e que já vai na 3ªedição, onde Daniel Sampere o o seu amigo Fermín voltam para percorrer uma história que espero ser tão boa ou melhor do que esta, apesar de achar difícil ultrapassar a de "A Sombra do Vento", que na minha opinião é mais belo do que "O Jogo do Anjo".

Recomendo a todos os leitores que gostam de Zafón, e penso que é melhor ler primeiro "A Sombra do Vento" apesar de "O Jogo do Anjo" ser cronologicamente antes dos acontecimentos passados em "A Sombra do Vento". A escrita continua soberba e a forma como Záfon descreve o que vai acontecendo a David é espetacular, num estilo por vezes frenético, em especial na parte final.
Quanto a uma definição de género, talvez o suspense/romance. Tem muitos pontos de loucura e até alguns laivos de terror, com cenas onde não é possível definir o que é real ou não na "mente" de David ou em toda a sua história. Um estrondoso thriller romântico.

Nota (0 a 10): 9,5

terça-feira, 28 de agosto de 2012

"A Sombra do Vento", de Carlos Ruiz Zafón

Depois de muita curiosidade sobre este livro e depois de várias conversas sobre ele, decidi compra-lo e lê-lo.
Tenho a dizer, primeiro, que este é um livro muito especial, muito enigmático e muito, mas muito bom.
Não sei porque é que ainda não fizeram um filme baseado no livro, ia ficar espetacular.

"A Sombra do Vento" tem uma escrita poética e muito bonita, onde o que é dito, uma simples descrição de um ato banal, é feito de uma forma melodiosa e cheia de "sabor". A prosa é soberba, os termos e conceitos fabulosos e extremamente bem escolhidos e colocados. As frases desenham imagens, quadros, a cores. O livro é como uma grande pintura. A escrita de Carlos Ruiz Zafón assim o faz. Fabuloso!

O livro conta a história de como um livro pode ser um passo para o desconhecido, para algo tremendamente misterioso e perigoso. Daniel Sempere vive com o pai por cima da loja de livros que lhe pertence. Depois da guerra civil espanhola houve um grande surto de cólera e uma das vitimas foi a mãe de Daniel. Uma noite, quando Daniel tinha 10 anos (quase 11), o rapaz acorda a chorar por não se lembrar da cara da mãe. O pai, para o acalmar, promete-lhe mostrar algo que ele nunca viu e que é segredo. E nesse mesmo instante leva-o ao Cemitério dos Livros Esquecidos, um local misterioso que alberga todos os livros que foram esquecidos pela Humanidade. O pai diz-lhe que ele tem de escolher um livro e tornar-se seu guardião. Daniel escolhe "A Sombra do Vento", um livro que ele depressa lê e fica maravilhado. Daniel quer mais livros de Julian Carax, o escritor do livro, mas depressa fica a saber que todos os livros (poucos) que o escritor escreveu foram queimados e que alguém anda constantemente à procura de mais livros de Carax para queimar. Daniel fica intrigado e começa a perguntar-se cada vez mais sobre este misterioso escritor. Certa noite, Daniel é perseguido por um homem estranho, que tem um nome de umas das personagens do livro, que lhe propõe a compra do livro, para queimar. Daniel diz que vai à procura do livro, mas na verdade decide esconder o livro de novo do Cemitério dos Livros Esquecidos.
Daniel não desiste de saber mais sobre Carax e com ajuda do seu amigo Fermín e de outras personagens, incluindo a rapariga por quem ele se apaixona, Beatriz Aguilar, irmã do seu melhor amigo Tomás Aguilar, Daniel vai viver uma verdadeira aventura em busca da verdadeira história de Julian Carax e daqueles que viveram perto dele. O que Daniel não sabia era que se estava a meter em águas muito profundas, em assuntos meio-escondidos e em mistérios que se pretendia estarem para sempre esquecidos. Daniel entra numa aventura que pode custar-lhe muito caro.

"Distingui o horror no seu olhar, sem compreender. Vi que poisava a mão no meu peito e perguntei a mim mesmo o que era aquele líquido fumegante que brotava entre os seus dedos"

Uma história de suspense, mistério, intriga e amor. Um história extremamente bem contada e com personagens inesquecíveis, cujo final é uma reviravolta bastante ardilosa.

Tenho de agradecer à Rita Ribeiro, que me disse que os livros de Zafón são maravilhosos :)

Excelente livro, sem dúvida um dos meus favoritos! :)

Nota (0 a 10): 10