
Este é um livro como nunca tinha lido. Podem ouvir
aqui a música.
É bastante singular. A sua estrutura, as suas personagens, a sua mensagem. Tudo é singular e brilhante.
Cloud
Atlas, ou o Atlas das Nuvens, conta-nos a história de Adam Ewing,
Robert Frobisher, Luisa Rey, Tomothy Canvandish, Sonmi - 451 e Zachry.
Todas estas personagens têm as suas histórias dentro da grande história que é o Atlas das Nuvens.
O
livro inicia-se com a história de Adam Ewing, passando para Frobisher,
Rey, Cavandish, Sonmi e Zachry. Terminando a história de Zachry, temos
Sonmi, Cavandish, Rey, Frobisher e Adam Ewing. Ora vejamos!
Passei esta quinzena na sala de música, trabalhando os meus fragmentos com vista a um "sexteto para solistas imbricados": piano, clarinete, violoncelo, flauta, oboé e violino, cada um com a sua própria linguagem, com a sua clave, escala e cor. Na primeira parte, cada solo é interrompido pelo seu sucessor; na segunda, cada interrupção é completada pela mesma ordem. (pág. 518)
Só a própria estrutura por si demonstra uma criatividade, um requinte, que logo me seduziu.
Cada
personagem vive numa época distinta, desde o século XIX até um futuro
distante (depois da Queda da Civilização). Ao longo das histórias das
personagens vão aparecendo certas ligações que as unem. Algumas ligações
são perceptíveis de imediato, outras estão mais ocultas, puxando pela
mente do leitor.
As histórias que as personagens nos contam são o
pano de fundo para algo maior; algo que está sempre presente e algo que
pode levar a graves problemas.
Cloud Atlas fala-nos dos perigos
da ganancia, da sede de poder, das atitudes e ações para com os outros
que geram algo no futuro. Cloud Atlas dá a entender que as personagens
vão reencarnando umas nas outras, sendo as mesmas ao longo da história.
É verdade, os Antigos dominaram doenças, dominaram as sementes e fizeram acontecer milagres, mas não dominaram uma coisa: uma fome nos corações humanos, sim, uma fome de MAIS! (pág. 326)
Ao
longo das histórias é possível observar a sociedade. O que está
presente na história de Adam Ewing está também na de Zachry, muitos
séculos depois. O mal, as más ações, vinganças, terrores, crueldade,
ganancia, leva, em Cloud Atlas, à extinção da Civilização e ao recomeço
das tribos e do canibalismo. Ou seja, é como se tudo por que a
Humanidade tenha lutado ao longo dos tempos fosse destruído por essa
mesma Humanidade, que se consome a si própria através das suas ações que
despoletam algo no presente e no futuro, algo que a destrói.
Não
sei se agrada a todos, mas eu gostei muito. Não é uma leitura fácil.
David Mitchell consegue criar personagens muito diferentes, com
características diferentes, mesmo a nível de escrita e de linguagem, que
levam a que seja necessário estar com atenção às nuances e subtilezas
da riqueza destas características.
Toda a história é uma critica
à sociedade. É uma critica ao que a Humanidade tem vindo a fazer na
Terra. Existem muitas histórias sobre catástrofes e acontecimentos
dantescos. Esta história não é sobre nada disso, mas sim sobre uma
possível realidade, que poderia acontecer com o passar do tempo. Os
avanços científicos, as questões governamentais, o Poder, o dinheiro, as
mudanças sociais, o consumismo, tudo isso está presente ao longo da
história e tudo isso é real. Esta história é sobre as ações do Homem
sobre si mesmo. É como que um ciclo que se renova; como que um sistema. É
possível encontrar isso na subtil referencia à reencarnação e também
noutras partes da história, onde a renovação da matéria está presente
(matéria física, espiritual e ideológica/mental).
As histórias são muito boas, bem construídas. Personagens bem construídas, também. Uma música, um mapa das nuvens.
Aconselho
vivamente. Pelo prazer da leitura, pelo prazer de algo mais filosófico e
critico. Pelo prazer de ler um bom livro: diferente, original e muito,
muito bom.
Não conhecia este livro. Vi primeiro o filme, como já postei aqui no
Blog.
É um filme muito bom, bastante estonteante e até complexo, que tem uma beleza infinita.
É ligeiramente diferente do livro. Gostei imenso, imenso do livro, no entanto existem certos momentos da história em que prefiro o filme, talvez por ser mais visual, talvez por ter gostado muito das imagens do filme. Sinceramente não compreendo como pode não estar nomeado para os Óscares. Provavelmente por causa da mensagem que transmite. O trabalho fotográfico e da maquilhagem é fantástico. Os atores estão muito bem "disfarçados". É fabuloso. Há diferenças no desenrolar dos acontecimentos entre o livro e o filme, não que as considere negativas. Não são muitas as vezes em que tendo a achar que o filme é um pouco melhor. Acontece isso com Cloud Atlas. Também acontece com a Invenção de Hugo. Em ambos, penso que tal acontece, tal como disse, por causa do efeito visual.
Os sábios encontram movimentos nas
histórias e formulam esses movimentos como regras que governam a ascensão e a queda das civilizações. Eu, pelo contrário, penso que a
história não admite regras, mas só efeitos.
O que é que causa os efeitos? Ações más e ações boas.
O que é que causa as ações? As convicções.
A convicção é ao mesmo tempo o prémio e o campo de batalha, dentro do espírito e no espelho do espírito que é o mundo.
(...)
E só com o teu último suspiro é que hás de perceber que a tua vida não é mais que uma gota num oceano sem limites!
E, contudo, o que é o oceano senão uma profusão de gotas? (pág. 590)
NOTA (0 a 10): 10