sexta-feira, 8 de novembro de 2013

"Princesa Mecânica", de Cassandra Clare

Sinopse: Último livro da sequela de sucesso da série Caçadores de Sombras, que nos mostra as suas Origens. Tessa Gray devia estar contente, como todas as noivas! Mas, enquanto se prepara para o casamento, uma rede de sombras envolve os Caçadores de Sombras do Instituto de Londres. Surge um novo demónio, ligado pelo sangue e secretismo a Mortmain, o homem que tenciona usar um exército de impiedosos autómatos, os Instrumentos Infernais, para destruir os Caçadores de Sombras. O perigo, a traição, os segredos, os feitiços, o amor e a morte entrelaçam-se quando os Caçadores de Sombras quase se autodestroem na conclusão de cortar a respiração da trilogia de os Caçadores de Sombras, as Origens. (in Goodreads)
Opinião: 
É com enorme prazer que venho aqui escrever a minha opinião sobre este esplêndido livro.

Depois de ter esperado meses por ele, ansiosamente, cheia de curiosidade e a ver algumas ilustrações no deviantArt e imagens no Tumblr, de modo a ter alguns vislumbres do que por aí vinha, chegou o momento de poder ler "Princesa Mecânica". Foi um momento emocionante, pois estava a começar o terceiro e último livro desta maravilhosa trilogia de Cassandra Clare, que me cativou imediatamente no primeiro: "Anjo Mecânico".

Foram inúmeros os enredos que criei na minha imaginação, bem como os finais que esta história podia ter. Imaginei muita coisa que podia muito bem ter acontecido neste livro. Imaginei vários momentos pelos quais desejava. E muito do que imaginei não aconteceu. Simplesmente, porque não era para acontecer. Não era. Cassandra Clare deu-nos uma história bastante marcante, muito bela, muito triste, que me fez chorar por várias vezes, bem como gritar com o livro, literalmente. É daquelas histórias que me agarram e prendem, não me deixando fugir.

Apaixonei-me pelas personagens, principalmente por Jem Carstairs. Tendo em conta a situação em que ele se encontrava no final do segundo livro, foi com algum sentimento de melancolia que esperei pelo seu desfecho. Como sempre torci pelo casamento entre Tessa e Jem, foi com grande entusiasmo que segui a história, esperando pelo momento.
Sabia que não ia ser fácil ver Tessa e Jem juntos, despedaçando o coração de Will, que amava Tessa e estimava acima de tudo Jem. Gostando de todas as personagens, sabia que ia "sofrer" fosse qual fosse o final delas. E "sofri".

Cassandra Clare consegue desenvolver um enredo apaixonante, onde nem tudo é o que parece, onde muito fica encoberto, sendo depois descoberto adiante. Tudo acontece no momento certo, como se estivesse sempre um relógio, um compasso certo. As personagens vivem as suas vidas de modo a que tudo se encaixa, tanto nas sua vidas como no ambiente circundante.

A ameaça de Mortmain torna-se feroz, total e arrepiante, o que só acrescenta emoção à história. A ação é total, com grandes momentos de suspense, terror, emoção, intriga, medo, paixão, dor, sofrimento e amor. Finalmente ficamos a saber a verdadeira história da vida de Theresa Gray. Quem é ela, de onde veio, como foi feita, por quem... o que a protege e porquê. A sua história é bastante triste, estando ligada a outras personagens que já apareceram nos livros anteriores. É muito bom ver as ligações que a autora estabelece com os passados das personagens de modo a moldar-lhes uma história só sua. Tudo está ligado e isso é algo que me seduz num livro, pois demonstra que é sinal de inteligência por parte de quem o escreve, uma vez que puxa pela mente do leitor.

E surpreendeu-me. A história de Tessa, e do seu passado, surpreendeu-me, bem como a forma como aconteceu o desenlace. Mas não foi só aí que fiquei surpreendida. A amizade/amor de Will, Tessa e Jem também me surpreendeu, pois o amor de Jem por todos foi sublime e de partir o coração. Houve momentos em que só me apeteceu bater no livro. Houve momentos em que foi triste e houve momentos em que sorri. A história destas três personagens é muito bela, das mais belas que já li. Digna de um romance gótico clássico.

Jem é a personagem mais fantástica, com o carácter mais belo, mais bondoso, mais misericordioso, das que tenho tido o prazer de acompanhar ao longo das minhas viagens literárias. Jem é a personagem que mais sofrimento trás à história, é aquela personagem pela qual sempre senti um carinho especial, como já disse. E foi com enorme tristeza que o vi ser traído. Foi o momento mais horrível desta leitura. Foi o mais chocante.

Existem vários acontecimentos paralelos ao longo da história. Temos Cecily, a irmã de Will, que quer levá-lo para casa. Temos Charlotte (e as invenções de Henry) a tentar aguentar o Instituto, sendo atacada pelo consul Wayland e pelas suas traições. Temos Gideon e Gabriel Lightwood, Sophie, Cyril e Bridget, e ainda o regresso atribulado de Jessamine. Temos vislumbres do passado de várias personagens. Temos romances paralelos e histórias muito belas pelo meio. É um romance muito completo, pois não é redutor, mas abrangente. 

As descrições são muito belas, nomeadamente do País de Gales, onde se passa grande parte da história. A escrita da autora é fluente e rica, sendo por isso possível imaginar-me lá no meio da ação.

E como não podia deixar de ser, temos um final digno dos finais mais cruéis, mais belos e mais apaixonantes. Não esperava por aquele final, porque para mim, ou ela ficava com Will ou com Jem. Não esperava o que aconteceu e foi um momento de grande emoção, que me fez vibrar o coração. Foi deveras maravilhoso, estranho, mas perfeito. No final, depois de ter sofrido durante grande parte da história, senti-me satisfeita, senti-me completa. Aquele foi o melhor final, apesar de tudo o que o proporcionou. Sem o que aconteceu pelo meio, aquele final seria impossível e o livro não teria tido um final tão mágico, tão emocional e belo.
Não, este foi o melhor final, o mais justo para todas as personagens e o mais difícil. 

Não sei o que posso dizer mais sem contar pormenores... o que posso mais dizer? Qualquer detalhe seria um spoiler, e esta história não é para ser "spoilada". Desde a leitura de "Os Dragões do Assassino", de Robin Hobb que não me sentia assim. Brilhante e belo, é o que posso dizer.

Leiam a trilogia, é completamente maravilhosa e o desenlace é esplêndido!
Deixo-vos algumas citações, para que possam maravilhar-se com eles.

- Confrontei-o - continuou Will - quando soube que andava a tomar mais yin fen do que devia. Fiquei furioso. Acusei-o de desperdiçar a vida. Sabes o que ele me disse? "Por ela faço tudo." (...) A decisão foi dele, Tessa, tu não o obrigaste a nada. Jem foi feliz contigo (...) Apesar de tudo o que te disse, ainda bem que ele teve aquele tempo contigo. Tu também devias estar contente.

Jem começara a tocar em memória dos anos de vida de Will, tal como ele os vira; em memória de dois rapazes a treinar na sala de armas, um a mostrar ao outro como se lançavam facas; em memória do ritual parabatai: o fogo, os votos e as runas que queimavam; em memória de dois rapazes a correr pelas ruas escuras de Londres, parando para se rirem encostardos a uma parede; em memória do dia na biblioteca em que tinham brincado com Tessa por causa de patos; em memória da viagem de comboio para Yorkshire, durante a qual Jem dissera que os parabatai deviam amar-se como às suas próprias almas; em memória do amor de ambos por Tessa e do dela por eles; em memória das palavras de Will: nos teus olhos encontrei sempre bondade; ...

-Eu posso viver para sempre - disse Tessa (...)
-Eu sei - replicou Jem. - (...) Eu acredito que renascemos, Tessa. Eu sei que vou voltar, mesmo que não neste corpo. As almas que se amam são atraídas umas pelas outras na vida seguinte. Eu sei que voltarei a ver Will. os meus pais, os meus tios (...)
- Mas a mim não. (...)
- Estou a ver-te agora - replicou ele (...)
- E eu a ti - murmurou ela. Jem sorriu com ar cansado e fechou os olhos. Tessa levou a mão ao rosto e cobriu-lhe a mão com  a sua, sentido-lhe os dedos frios na pele, até que ele adormeceu. Com um sorriso pesaroso, a jovem baixou a mão e pousou-a na colcha. 


Não insistas para que te deixe, pois onde tu fores eu irei contigo e onde pernoitares, aí ficarei; o teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus. Onde morreres, também eu quero morrer e ali serei sepultado. Que o Anjo me trate com rigor e ainda o acrescente, se até mesmo a morte me separar de ti. 

- Onde estás James? Procuro-te nas trevas, mas não te encontro. Tu és o meu pretendido, os laços que nos ligam deviam ser inquebráveis. Mas eu não estive presente no teu leito da noite, não me despedi de ti.

- Amavas-me? - interrompeu-a ele.

Tessa lembrava-se de ele lhe ter oferecido o pingente de jade da sua mãe com mãos trémulas, lembrava-se dos beijos no interior de uma carruagem, de entrar no quarto dele banhado pela luz do luar e de ver o rapaz dos cabelos de prata em frente da janela, tirando uma música maravilhosa do violino que tinha nas mãos.

- Vi muita coisa por esse mundo fora, mas ainda não vi tudo. Vem comigo para ver o resto, Jem Carstairs.



Podem ler as opiniões dos outros livros da trilogia aqui:

Anjo Mecânico
Príncipe Mecânico
NOTA (0 a 10): 10

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Thor - O Mundo das Trevas


Sinopse: Na sequência de "Thor" e "Os Vingadores" da Marvel, Thor luta para restabelecer a ordem em todo o cosmos, mas uma antiga raça liderada pelo vingativo Malekith regressa para mergulhar o universo nas trevas. Perante um inimigo que nem Odin nem Asgard conseguem vencer, Thor embarca na mais pessoal e perigosa aventura que alguma vez enfrentou, que o levará a reunir-se com Jane Foster e irá forçá-lo a sacrificar tudo para nos salvar (tirado de http://txiling.sapo.mz/agenda/thor-o-mundo-das-trevas#)

Sou uma pessoa que gosta bastante de ver filmes da Marvel, no entanto ainda não tinha visto nada sobre Thor. Como também gosto bastante de lendas e mitos, achei que era altura de ver estes filmes.

Vi o primeiro um dia antes, para me contextualizar e fiquei um bocado desiludida. Não que o filme esteja mau, nada disso. Porém senti que faltou alguma coisa. Praticamente o que gostei mais foi mesmo da parte final, em especial da luta entre Loki e Thor, bem como do ambiente visual, nomeadamente Asgard, Bifrost e a câmara para ir para os outros reinos. Achei que o filme era demasiado "mundano" e que não tinha muita ação para um filme da Marvel. 

Por isso foi com algum receio que fui ver o segundo, para o qual já tinha os bilhetes antes de ver o primeiro. 
E foi maravilhoso! Sim, o segundo filme é muito melhor do que o primeiro... bastante melhor. Aqui não sei se se pode considerar segundo ou terceiro, uma vez que há Os Vingadores pelo meio, filme que ainda não vi. 

 
O que para mim fez com que o filme fosse especial e melhor do que o anterior foi a história em si, todo o enredo, bem como os vilões (o Elfo Negro e Loki). Não achei o vilão de Jotunheim assim nada por aí além e por isso fiquei agradada com o Elfo Negro, que conseguiu ser mais malvado do que o rei do gelo. Depois temos Loki. Loki, irmão adotivo de Thor, é um espanto. Para mim é a melhor personagem, uma vez que é de uma maldade bem trabalhada, esperto e inteligente. Ele é de facto um grande mágico, ilusionista, ciumento, vingativo e enganador, sendo também bastante engraçado e até melancólico. A cena no reino do Elfo Negro foi simplesmente de tirar o fôlego. Quem viu o filme de certo que entende a que me estou a referir. Ver Loki e Thor juntos por uma causa e depois ver o desfecho de tal jornada foi de ficar aterrado. Pensei mesmo "Agora que ele estava a ser uma boa "pessoa"! Não merecia isto...". 


O filme está recheado de surpresas. Existem várias reviravoltas, bem como diálogos bem elaborados, ação grandiosa e maravilhosa (que qualquer filme destes tem de ter, pois em parte é o que lhe dá vida), personagens complexas, ambientes de cortar a respiração, uma banda sonora bem enquadrada (algo que sinto que também faltou no primeiro) e mais acontecimentos em Asgard. Os efeitos especiais estão excelentes e o 3D é desnecessário (vi em 2D e fiquei muito satisfeita). O enredo tem uma parte cientifica muito interessante, que me fez lembrar vários factos que por aí têm aparecido como o alinhamento dos planetas e outras teorias (estas da ficção), como as fendas no tecido dos mundos (algo que é recorrente na serie Doctor Who, da qual sou fã) e possíveis consequências. Natalie Portman também está melhor neste filme do que esteve no primeiro, com um papel decisivo e de extremo relevo para toda a história. 

Em suma, este é um filme muito bom, que vale a pena ser visto e revisto. De fazer notar a excelente elaboração das cenas das lutas e das reviravoltas, que alimentam o filme com a sua seiva. 


Recomendo a todos, especialmente àqueles que gostam dos filmes da Marvel. Achei muito interessante ver a junção dos deuses nórdicos com o universo da Marvel. Vão ver o filme! É muito bom!



NOTA (0 a 10): 10

domingo, 27 de outubro de 2013

"Taliesin - O Ciclo Pendragon", de Stephen Lawhead

Sou uma grande admiradora da história do Rei Artur e de Merlim, mas nunca antes tinha lido nada sobre ambos. Já vi vários filmes, vi a série da BBC, mas leituras nunca. Foi por isso que decidi ler este livro, para ler algo sobre esta lenda que tanto me fascina. E tenho a certeza absoluta que não podia ter começado por outra melhor.

Stephen Lawhead mostra-nos o que está antes da vida destas personagens, mostra-nos o contexto anterior às suas vidas, algo sempre importante para conhecer bem as histórias e as personagens. Mesmo não sendo esta a verdade da lenda, tal nunca vai ser possível saber e este não é um romance somente histórico, tendo também algo de fantástico, se bem que muito do que acontecia naquela altura possa ser visto por nós hoje em dia como fantástico. Naquela altura não o era. Havia de facto druidas e outros conhecimentos que hoje estão esquecidos e que naqueles tempos eram normais.

Pois bem, "Taliesin" é o primeiro livro do Ciclo Pendragon, uma saga que conta a história de Artur, Merlim, Morgana e outras personagens que fizeram parte desta história. Mas há mais para além da lenda. Vejamos.

A narrativa é apresentada por duas grandes personagens (principais): Charis e Taliesin.

Charis, filha de Avallach e Briseis, reis de Sarras na Atlântida, é uma jovem rapariga forte, corajosa e persistente, que se vê a braços com a terrível destruição do seu mundo, lutando por salvar-se a si e aos seus. Consegue escapar da destruição da Atlântida, acabando por chegar a uma terra desconhecida: Llyonesse. Segue depois para Ynys Witrin, acabando por se estabelecer lá com os que conseguiram escapar, nomeadamente o seu pai, Avallach; a mulher deste, Lile; a filha, Morgana; e Annubi, amigo de Charis e vidente.
Charis acaba por tornar-se uma mulher solitária e triste, procurando por algo na sua vida, algo que não sabe sequer nomear.

Taliesin, filho adotivo de Elphin e Rhonwyn, foi encontrado por Elphin aquando de uma pescaria nas caniçadas do salmão, dentro de um saco de pele de foca, não se sabendo de onde veio nem de quem era. O rapaz é criado pelos pais adotivos e por Halfan, o bardo e druida de Caer Dyvi, conselheiro do pai de Elphin e depois de Elphin também. Taliesin acaba por tornar-se aluno de Halfgan, tornando-se no maior bardo que jamais existiu, de grande sabedoria e belo dom para a criação musical. Logo cedo começou a compor as suas canções, criando uma enorme fama como cantor e druida.

Todo o que acontece até à reta final é importante para todo o enredo; nada é ao acaso. As guerras, as intrigas, as paixões, as traições, as viagens...tudo vai culminar no final que está descrito no livro. Este é o início da vida de Merlim e de como é que ele foi feito, como nasceu e como isso foi um ato com grandes consequências. É a história da profecia da vinda de alguém que faria frente à Idade das Trevas, tempos em que os bárbaros avançaram pelo antigo Império Romano, saqueando, lutando e conquistando. É a história do início do Cristianismo na Grã-Bretanha, terra pagã. É a história da luta entre o passado e o futuro, entre as trevas e a luz. É a história de Morgana e de como ela começou a sua vida e a sua passagem por este mundo, semeando um caminho perigoso. 


Este é o início da lenda da casa Pendragon, segundo Stephen Lawhead, e já me conquistou.

As personagens são muito ricas, complexas. Todas elas, mesmo as mais secundárias. É possível acompanhar a sua evolução, compreender os seus sentimentos e emoções. É possível compreender as suas vidas.
As descrições dos locais e dos ambientes são soberbas e tão bem feitas que, ao ler, é como se estivesse mesmo lá. É possível cheirar, respirar, ver, ouvir, percorrer os caminhos das personagens.

Através das canções dos bardos é possível ficar a conhecer mais sobre a História da Grã-Bretanha e das suas lendas. É possível ficar a conhecer mais sobre os modos de vida deste tempo, dos druidas e das pessoas em geral, que viveram neste Tempo.

O contexto histórico está muito bem elaborado, sendo possível fazer um paralelo com o que aconteceu de verdade: a presença romana, as invasões bárbaras, a chegada do Cristianismo e como se desenvolveu na Grã-Bretanha, nomeadamente nos locais apresentados na obra.

Gostei muito do livro e é com grande interesse que vou ler os seguintes, esperando que sejam tão bons ou melhores do que este!
Recomendo vivamente. 

Charis já o ouvira falar muitas vezes da sua visão, mas agora ele cantava acerca dela, e, pela primeira vez, descrevia o rei que habitaria esse reino sagrado: um rei nascido para governar não pela força ou pelo título mas pelo amor da justiça e dos direitos; um rei nascido para servir a verdade e a honra, para conduzir o seu povo na humildade e para defender a sua terra em nome do Deus Salvador.
Ao ouvi-lo, Charis ficou com a impressão de que tudo o que Taliesin pensara ou dissera acerca desse reino imaginário estava a materializar-se na sua canção, ideias que se agrupavam em sons vigorosos, palavras que se formavam ao ser proferidas, carne a envolver o esqueleto filosófico.
E pensou: "O Reino do Verão nasceu esta noite, tal como a criança que tenho nos braços se fez carne e nasceu. Os dois foram feitos um para o outro. São apenas um."
Baixou os olhos, fitando o bebé que lhe sugava o seio.
- Estás a ouvir, Merlim? - perguntou-lhe num suave murmúrio. - O teu destino chama-te para lá do futuro. Escuta, meu filho. Esta é a noite em que o teu pai, cantando, deu uma nova forma ao mundo. Ouve e recorda. pág. 574.

NOTA (0 a 10): 10

domingo, 13 de outubro de 2013

"O Último Adeus", de Honoré de Balzac

Encontrei este livro na biblioteca da Faculdade e trouxe-o para ler. Com apenas 80 páginas, pequenas dimensões e uma capa bem bonita, achei-o excelente. Não pesa nada e é de fácil transporte. Também já há algum tempo que queria ler algo deste autor.

Este pequeno conto é uma delícia. Fiquei completamente maravilhada com a paixão presente na obra. A paixão e o amor que nela se apresentam é de uma pujança que faz estremecer o coração.

Este conto conta um episódio da vida de Phillipe de Sucy, um major francês que esteve na guerra da França contra a Rússia, no período de Napoleão, em 1812.
Em 1820, Phillipe vai com o seu amigo D'Albon, pelo meio de uma floresta, quando encontram uma bela casa, do género de um ermitério abandonado, coberto de trepadeiras e com ares de abandono. Porém, aquando se aproximam, vêem uma estranha mulher, de longos cabelos negros revoltos, pele pálida, olhos negros e parados e um longo vestido negro. Pensando tratar-se de algo sobrenatural decidem aproximar-se ainda mais, descobrem outra estranha mulher. Enquanto fazem perguntas à estranha mulher, parecida com uma índia, a outra aproxima-se, curiosa. Ao vê-la de perto, Phillipe tem um ataque e cai desmaiado.

A história retrocede no passado e é nos apresentado a vida de Phillipe na Rússia, tentando salvar a sua amada e o esposo desta, a condessa de Vandrières, que desaparece para sempre depois desse episódio. Anos depois, Phillipe reencontra Stéphanie naquela casa antiga e abandona e faz tudo para reviver o seu amor.

O que aqui se nos apresenta é um romance trágico e melancólico, bem ao estilo dos grandes romances do período Romântico. Todo o ambiente de melancolia, amor ardente, paixão, loucura, drama, tristeza e degradação da condição humana e posterior desilusão, é-nos aqui apresentado. Este pequeno conto consegue ter todos estes ingredientes. Fez-me relembrar "O Monte dos Vendavais", de Emily Bronte, em vários momentos; livro esse que foi um deleite para a minha imaginação e emoção. Não podia deixar de dar nota máxima a este pequeno conto, pois de facto a história narrada nas suas páginas é de extrema mestria e beleza, com personagens fortes e memoráveis.


Um conto que recomendo sem reservas!

NOTA (0 a 10): 10

sábado, 12 de outubro de 2013

"O Ladrão da Tempestade", de Chris Wooding

Não sabia nada sobre este livro quando o adquiri. A sinopse é bastante interessante e reveladora e eu interessei-me pelo que nela está escrito. O título também é bastante sugestivo.

Comecei por achar a história boa, mas não muito expetacular. Um escrita agradável, fluente; descrições boas e personagens boas... mas nada que pudesse dizer: "Maravilha! Aqui está um mundo arrebatador." Não posso esperar que todos os livros me façam pensar assim, como é óbvio. Mas aos poucos fui ficando mais apegada à história e ao desenrolar dos acontecimentos até que, na reta final, fiquei absolutamente contente com o facto de estar a ler o livro. É, de facto, um livro muito bom, com um desenlace que reflete toda a obra, todo o seu teor e alma. É um bom final para a história, e o que acontece até lá é muito bom. A parte final é muito, muito boa e foi isso que me fez dar quatro estrelas a este livro.


Fazendo um pequeno resumo:

"O Ladrão da Tempestade" conta a história de Rail e Moa, dois adolescentes dum gueto da cidade de Orokos, uma cidade fortificada, no meio do oceano: uma ilha. Os habitantes de Orokos vivem uma vida sossegada e tranquila que só é afrontada aquando das tempestades de probabilidades. Aquando dessas tempestades, a cidade é modificada, há sempre mudança. Pessoas mudam de figura, alteram-se, podem ficar doentes, podem ficar saudáveis, podem ir parar a outro ponto qualquer da cidade; os cursos do rio alteram-se, as casas e os locais. Tudo pode mudar numa tempestade dessas. E também aparecem os Invasores, que são uma espécie de espectros de energia: éter. Os Invasores atacam pessoas, matando-as suavemente e apoderando-se dos seus corpos, passando estes a designarem-se por Capturados. Os Capturados dedicam a sua existência a atacar e destruir edifícios do Protetorado e também a matar possíveis rivais. Ou seja, os Capturados são Invasores incorporados em corpos de pessoas.

Orokos é governada pelo Protetorado. Esta entidade é o poder absoluto, governado pelo Patrício, um humano "mascarado" com uma máscara negra, para ocultar o rosto e uma bata tipo cirurgião, preta também. Quem mantém o governo é a Polícia Secreta, que manda no Exército. A grande função deste orgão é manter a cidade: a ordem e a harmonia.
Essa ordem e harmonia passa por sectarizar a população, sendo que os mais pobres, doentes e/ou criminosos são postos em guetos, de onde não podem sair, sendo todos tatuados com um código. Nesses guetos abundam as organizações de ladrões.
Outra função do governo (exército) é dar caça aos Invasores e Capturados, tentando aniquilá-los.

A cidade foi fundada há muito muito tempo, no meio do oceano. Existe factos que comprovam a existência de uma sociedade anterior, que era muito mais avançada tecnológica e cientificamente. Mas, não se sabendo bem porquê, essa sociedade acabou, marcando-se cronologicamente esse período como: Extinção. Então, o tempo atual em Orokos é depois da Extinção. Em Orokos não há forma de medir o tempo.
Por fim, existe a lenda de que as tempestades são obra do Ladrão da Tempestade, que tem como seus ajudantes os Invasores, que o servem e alimentam com os humanos e com o que destroem. Eles geram o caos numa sociedade que procura a todo o custo uma ordem (mesmo que irreal e imperfeita, feita à custa dos mais necessitados que são vistos como escumalha e como desordeiros e a causa da falta de ordem).

É nesta trama que vamos encontrar Rail e Moa, dois adolescentes dos guetos: ladrões que acabam por descobrir um misterioso artefacto. Na expetativa de ficarem com ele, ambos fogem da ladra-chefe, que envia Finch atrás deles para os matar e obter o artefacto.
Pelo caminho encontram Vago, um golem (penso que cyborg seria mais adequado?), que está perdido e cujo seu maior desejo é encontrar o seu passado e o seu criador. No meio de toda essa aventura, Moa tem um sonho: o sonho de sair de Orokos. Ela acredita que existe mais para além do horizonte do oceano.

Ora, não foram as personagens que me fizeram vibrar com a história, apesar de ter gostado delas. O que me fez vibrar foram as descrições dos espaços, as reviravoltas, a história de Orokos e o desenlace. Toda a história é um hino à liberdade, à perseguição dos nossos sonhos e ao não desistir de os alcançar. É uma história de redenção e coragem, de amizade e luta. A luta pela sobrevivência foi outro facto que me agradou ao longo da narrativa. Está muito bem contada e refletida.
Talvez possa caracterizar esta obra como dystopia. Comparei bastante a "Incarceron", de Catherine Fisher e um pouco a "Os Jogos da Fome". Este género de obras deve ser lido com uma atitude reflexiva. Não são meros livros para ler por divertimento (também o são claro!). Estas histórias têm uma moral: a ganância humana, os interesses humanos, o interesse e a maldade, a segregação da população e a descriminação têm um preço, que tem de ser pago a qualquer custo. Devemos ler estas histórias pensando: "o que posso refletir com isto?". É um exercício interessante e educativo. Ter uma ideia das atitudes e das suas consequências é importante.

A luta pela liberdade, presente ao longo do livro, é extremamente comovente. O desejo de fuga, de descobrir uma saída, de ter uma vida melhor, mais digna são desejos que fazem parte da Humanidade. Vê-los retratados nas obras é sempre bom e faz pensar. Também o desejo de redenção, aceitação e amor é uma marca desta história. Vago, o golem, é uma personagem bastante complexa e interessante por isso mesmo. Moa e Rail também, pelo desejo de fuga e paz. Há outras personagens muito interessantes ao longo da obra, como Lelek, que habita um quadro, sendo uma personagem deveras misteriosa e maravilhosa. Também gostei de Finch, que é bastante esperto e manhoso.
A lição a tirar da história é rica e faz pensar nos nossos comportamentos em sociedade e da sociedade perante os seus indivíduos. A ordem e o caos, a segurança e a insegurança, a liberdade e a prisão: dicotomias presentes que são factos essenciais à vida humana e que devemos ter em atenção.
Há ainda um aspeto a referir e que se prende com as descrições dos espaços. O autor tem uma capacidade imaginativa bastante bem desenvolvida e rica. Os detalhes são bem encontrados!

Recomendo =) 

NOTA (0 a 10): 8,5