sábado, 12 de outubro de 2013

"O Ladrão da Tempestade", de Chris Wooding

Não sabia nada sobre este livro quando o adquiri. A sinopse é bastante interessante e reveladora e eu interessei-me pelo que nela está escrito. O título também é bastante sugestivo.

Comecei por achar a história boa, mas não muito expetacular. Um escrita agradável, fluente; descrições boas e personagens boas... mas nada que pudesse dizer: "Maravilha! Aqui está um mundo arrebatador." Não posso esperar que todos os livros me façam pensar assim, como é óbvio. Mas aos poucos fui ficando mais apegada à história e ao desenrolar dos acontecimentos até que, na reta final, fiquei absolutamente contente com o facto de estar a ler o livro. É, de facto, um livro muito bom, com um desenlace que reflete toda a obra, todo o seu teor e alma. É um bom final para a história, e o que acontece até lá é muito bom. A parte final é muito, muito boa e foi isso que me fez dar quatro estrelas a este livro.


Fazendo um pequeno resumo:

"O Ladrão da Tempestade" conta a história de Rail e Moa, dois adolescentes dum gueto da cidade de Orokos, uma cidade fortificada, no meio do oceano: uma ilha. Os habitantes de Orokos vivem uma vida sossegada e tranquila que só é afrontada aquando das tempestades de probabilidades. Aquando dessas tempestades, a cidade é modificada, há sempre mudança. Pessoas mudam de figura, alteram-se, podem ficar doentes, podem ficar saudáveis, podem ir parar a outro ponto qualquer da cidade; os cursos do rio alteram-se, as casas e os locais. Tudo pode mudar numa tempestade dessas. E também aparecem os Invasores, que são uma espécie de espectros de energia: éter. Os Invasores atacam pessoas, matando-as suavemente e apoderando-se dos seus corpos, passando estes a designarem-se por Capturados. Os Capturados dedicam a sua existência a atacar e destruir edifícios do Protetorado e também a matar possíveis rivais. Ou seja, os Capturados são Invasores incorporados em corpos de pessoas.

Orokos é governada pelo Protetorado. Esta entidade é o poder absoluto, governado pelo Patrício, um humano "mascarado" com uma máscara negra, para ocultar o rosto e uma bata tipo cirurgião, preta também. Quem mantém o governo é a Polícia Secreta, que manda no Exército. A grande função deste orgão é manter a cidade: a ordem e a harmonia.
Essa ordem e harmonia passa por sectarizar a população, sendo que os mais pobres, doentes e/ou criminosos são postos em guetos, de onde não podem sair, sendo todos tatuados com um código. Nesses guetos abundam as organizações de ladrões.
Outra função do governo (exército) é dar caça aos Invasores e Capturados, tentando aniquilá-los.

A cidade foi fundada há muito muito tempo, no meio do oceano. Existe factos que comprovam a existência de uma sociedade anterior, que era muito mais avançada tecnológica e cientificamente. Mas, não se sabendo bem porquê, essa sociedade acabou, marcando-se cronologicamente esse período como: Extinção. Então, o tempo atual em Orokos é depois da Extinção. Em Orokos não há forma de medir o tempo.
Por fim, existe a lenda de que as tempestades são obra do Ladrão da Tempestade, que tem como seus ajudantes os Invasores, que o servem e alimentam com os humanos e com o que destroem. Eles geram o caos numa sociedade que procura a todo o custo uma ordem (mesmo que irreal e imperfeita, feita à custa dos mais necessitados que são vistos como escumalha e como desordeiros e a causa da falta de ordem).

É nesta trama que vamos encontrar Rail e Moa, dois adolescentes dos guetos: ladrões que acabam por descobrir um misterioso artefacto. Na expetativa de ficarem com ele, ambos fogem da ladra-chefe, que envia Finch atrás deles para os matar e obter o artefacto.
Pelo caminho encontram Vago, um golem (penso que cyborg seria mais adequado?), que está perdido e cujo seu maior desejo é encontrar o seu passado e o seu criador. No meio de toda essa aventura, Moa tem um sonho: o sonho de sair de Orokos. Ela acredita que existe mais para além do horizonte do oceano.

Ora, não foram as personagens que me fizeram vibrar com a história, apesar de ter gostado delas. O que me fez vibrar foram as descrições dos espaços, as reviravoltas, a história de Orokos e o desenlace. Toda a história é um hino à liberdade, à perseguição dos nossos sonhos e ao não desistir de os alcançar. É uma história de redenção e coragem, de amizade e luta. A luta pela sobrevivência foi outro facto que me agradou ao longo da narrativa. Está muito bem contada e refletida.
Talvez possa caracterizar esta obra como dystopia. Comparei bastante a "Incarceron", de Catherine Fisher e um pouco a "Os Jogos da Fome". Este género de obras deve ser lido com uma atitude reflexiva. Não são meros livros para ler por divertimento (também o são claro!). Estas histórias têm uma moral: a ganância humana, os interesses humanos, o interesse e a maldade, a segregação da população e a descriminação têm um preço, que tem de ser pago a qualquer custo. Devemos ler estas histórias pensando: "o que posso refletir com isto?". É um exercício interessante e educativo. Ter uma ideia das atitudes e das suas consequências é importante.

A luta pela liberdade, presente ao longo do livro, é extremamente comovente. O desejo de fuga, de descobrir uma saída, de ter uma vida melhor, mais digna são desejos que fazem parte da Humanidade. Vê-los retratados nas obras é sempre bom e faz pensar. Também o desejo de redenção, aceitação e amor é uma marca desta história. Vago, o golem, é uma personagem bastante complexa e interessante por isso mesmo. Moa e Rail também, pelo desejo de fuga e paz. Há outras personagens muito interessantes ao longo da obra, como Lelek, que habita um quadro, sendo uma personagem deveras misteriosa e maravilhosa. Também gostei de Finch, que é bastante esperto e manhoso.
A lição a tirar da história é rica e faz pensar nos nossos comportamentos em sociedade e da sociedade perante os seus indivíduos. A ordem e o caos, a segurança e a insegurança, a liberdade e a prisão: dicotomias presentes que são factos essenciais à vida humana e que devemos ter em atenção.
Há ainda um aspeto a referir e que se prende com as descrições dos espaços. O autor tem uma capacidade imaginativa bastante bem desenvolvida e rica. Os detalhes são bem encontrados!

Recomendo =) 

NOTA (0 a 10): 8,5

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Este é o primeiro que leio do autor e gostei muito.

      Eliminar
  2. Olá,

    Já tinha lido alguns comentários mas não fazia ideia de estar na presença de um livro tão interessante.

    Cá para mim estás a ficar uma grande especialista em comentar livros, fico sempre super curioso e com vontade de ler os livros, parabéns ;)

    Bjs e boas leituras ;)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Fiacha,

      eu não conhecia nada deste livro. Fiquei muito contente por ter tido oportunidade de o ler =)

      Eheh, obrigada =D há que melhorar sempre! É isso que eu pretendo, que o pessoal fique curioso =D

      Bjs e boas leituras!

      Eliminar