quinta-feira, 13 de março de 2014

A Espuma dos Dias, de Boris Vian

Sinopse:

Obra-prima do escritor francês Boris Vian, A espuma dos dias faz uso de imagens poéticas e surreais para apresentar um universo absurdo. Trata-se da história dos amigos Colin, Chick, Nicolas, Chloé, Alise e Isis, que vivem em Paris num ambiente repleto de referências ao jazz e ao existencialismo dos anos 1950.
Colin, um jovem muito rico, se apaixona por Chloé e gasta toda a sua fortuna em flores para tratar justamente da flor que cresce no pulmão de Chloé e ameaça matá-la. A angústia de Colin ao tentar salvar sua esposa acaba por deformar tudo a sua volta.
Chick, grande amigo de Colin, se casa com Alise, mas parece mais preocupado com sua fixação pelo filósofo Jean Sol Partre, o que leva sua mulher à loucura. Nicolas, o chef de cozinha de Colin, vive aventuras ao apaixonar-se por Isis, amiga de Chloé e Alise.
A doença de Chloé, que progride conforme avança a leitura do romance, contamina o clima da história: o que de início era belo, claro e iluminado vai se tornado sombrio, triste e fúnebre. A leitura revela-se profunda sobre a vida e o amor, mesmo que sob uma aparente ingenuidade e simplicidade.
(in Goodreads)


Opinião:

Aqui está um livro difícil de descrever e de refletir sobre. E também de pontuar. Sinceramente, não tinha muitas expectativas sobre a história, uma vez que não sabia muito bem de que tratava (só assim por alto). Decidi ler este livro devido a ter visto o trailer do filme, que estreou há algumas semanas.

O melhor adjetivo para o caracterizar é "estranho". Sim, estranho. De facto, toda a história é estranha. Não é a história em si que o é, mas sim a narrativa e os vocábulos e conceitos empregues pelo autor. E é nessa estranheza que está o interesse, em alguns momentos. Por ser tão estranho, torna-se sedutor. Este é outro termo que define a história: "sedutora".

Escrito na década de 40 do século XX, no pós-guerra, esta obra parece ter alguma mensagem. Parece ser uma metáfora, pelo menos algumas das suas partes. É uma crítica à sociedade da época e, a bem ver, a todas as sociedades de todas as épocas. Muitos dos diálogos debocham mesmo de situações caricatas relacionadas com aspetos do quotidiano, como o trabalho e o dinheiro e a situação da mulher na sociedade. Também as situações em que as personagens se encontram em alguns momentos são uma sátira à sociedade. No conjunto, A Espuma dos Dias, é uma sátira à sociedade, aos seus membros, instituições, funções, atitudes e valores. A época em que foi escrita explica bastante bem o porquê de assim ser, bem como o país. O autor é francês, a França teve um grande abalo com a guerra. E, antes desse abalo, houve uma enorme efusividade. Os loucos anos vinte, as extravagâncias que aconteciam nessa altura, festas, dinheiro a rolar, relações mais livres, futilidades, exageros a todos os níveis. Ora, depois dessa "loucura" veio a decadência. A imagem do mundo e da vida que até então tinha sido vivida (mesmo já tendo havido uma guerra), foi destruída pela guerra. Penso que essa decadência está bem presente na obra e está muito bem abordada, de uma forma ora subtil ora devastadora. Mesmo que metaforicamente ou conceptualmente.

Fazendo outras analogias, deu-me a sensação que estava a ler sobre os excêntricos que habituam os livros dos Jogos da Fome. Em certos momentos, comparei as personagens, situações e imagens, com aquelas personagens, situações e imagens que aparecem no Capitólio. Claro que não há real comparação, e a haver teria de ser de inspiração nesta obra para os Jogos da Fome. O que quero realçar é o aspeto visual e de atitudes das personagens, tanto principais como secundárias e até figurantes. A estranheza e extravagância excessiva está bem marcada ao longo da história.

O autor consegue criar um mundo real em que a realidade é completamente alterada e alucinada. É um mundo dos sentidos, é um mundo surreal. Aqui está outra ponte: o surrealismo. Enquanto estava a ler, pareceu-me estar a observar uma pintura surrealista, cheia de cores, formas e dimensões espantosas e diferentes. É uma história surrealista.

Outro aspeto interessante são os jogos de palavras usados pelo autor, que dão todo o sentido à obra. No final, estão umas notas de tradução que exploram e ajudam o leitor a situar-se face ao sentido real ou parcial dos jogos de palavras criados pelo autor para satirizar e criticar atitudes e situações. Esta é uma obra sátira e crítica.

Agora, mais a nível das personagens e da história em si, do enredo. Gostei bastante. Todas as personagens são interessantes, com os seus ângulos e diferenças. As alterações que vão sofrendo ao longo da história são bastantes, o que permite observar a sua evolução/decadência. É uma forma de acompanhar as personagens. É também interessante observar a evolução do espaço envolvente. Achei muito interessante! É que o espaço muda consoante as pessoas que nele habitam, consoante as suas situações, emoções, estados de saúde, espírito e material. A história é bastante simples. É uma narrativa que parece básica, apesar de não o ser explicitamente, devido aos fatores já referidos anteriormente. É, também, uma história de amor.

Lê-se muito bem, apesar das descrições serem muitas. No entanto, são necessárias para a evolução da história, uma vez que o espaço está ligado intimamente ao desenvolvimento das personagens.

Em suma, é um livro interessante. Diferente, sem dúvida, mas bastante interessante. Deve ser lido sem barreiras, tal como a escrita do autor. A melhor forma de entrar na história é sentir a história, mais do que tentar compreender. Este é um livro para os sentidos e não tanto para a compreensão. Contudo, é muito importante estar atento e compreender as mensagens subjacentes à história em si. Ou seja, usar a compreensão através da sensação é a melhor forma de nos apropriarmos desta história. Muito interessante! 

Podem ver o trailer aqui:


NOTA (0 a 10): 7

terça-feira, 11 de março de 2014

Passatempo Ruth - À Reconquista do Reino

De modo a presentear os meus seguidores, bem como para promover a parceria que estabeleci com a Chiado Editora, decidi fazer um passatempo. 

http://www.chiadoeditora.com/index.php?page=shop.product_details&flypage=flypage.tpl&product_id=700&category_id=7&option=com_virtuemart&Itemid=53

Podem clicar na imagem para saberem mais sobre a história.

Para se habilitarem a ganhar este livro basta preencherem o formulário que está abaixo e, claro está, serem seguidores do Blogue, aqui e/ou no Facebook.
As regras são:
- participar até às 23h59 de 25 de março de 2014;
- ser seguidor do Blogue aqui e/ou no Facebook;
- ser residente em Portugal;
- só são aceites uma participação por pessoa e por morada;
- apenas haverá um vencedor, que será apurado através do site: random.org.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Nas Montanhas da Loucura, de H.P. Lovecraft

Esta é uma história que eu já queria ler há algum tempo, por causa dos "rumores" sobre o filme, por causa do autor e por causa de tudo o que já tinha lido sobre o livro e que me estava a deixar muito curiosa. E, muito importante, porque este é um livro que remete para um outro que eu li e apreciei bastante: As Aventuras de Gordon Pym, de Poe, cujo final é o mais estranho que li até agora e que ficou gravado na minha memória como algo fantástico, sobrenatural, misterioso e maravilhoso.

Assim que dei com ele na biblioteca, trouxe-o logo e, depois de ler Artur, dediquei-me à sua leitura.

Lê-se muito bem, fluentemente e com gosto. Isto porque há um imenso mistério que faz com que se queira saber o que é que vai acontecer e o que é que aconteceu.

A história é contada pelo narrador, o geólogo William Dyer, que fez parte de uma expedição à Antárctida para descoberta de materiais primitivos, rochosos, vegetais e/ou animais e para estudar melhor o território. Sendo passado por volta de 1930, conta uma história posterior às descobertas dos exploradores que cruzaram aqueles fantásticos mares e territórios misteriosos e inóspitos, que tanto mistério levantaram naquela época. O narrador conta o que aconteceu na expedição, para dissuadir uma nova expedição que vai acontecer. O relato é feito tempos depois da expedição em si e é bastante estranho e misterioso.

O grupo parte para a região gelada e, depois de um membro da expedição (Lake) encontrar uma estranha amostra de pedras com uma figura fossilizada, decide ir em busca de mais informações para saber mais sobre aquela estranha descoberta. Parte com mais alguns membros e monta acampamento noutra parte das montanhas. O narrador e outros membros ficam na base e vão escutando os relatos de Lake sobre as descobertas, ficando entusiasmados e curiosos com os resultados, uma vez que Lake e os outros descobrem umas estranhas criaturas, bem como outros estranhos achados (névoas, cavernas, ossadas...). O narrador e o seu grupo decide juntar-se ao grupo de Lake e após uma noite sem notícias, partem para o acampamento de Lake. Quando chegam, encontram um cenário aterrador. O narrador e outro membro, um jovem de nome Danforth, partem num avião para explorarem a região e acabam por transpor as enormes montanhas, encontrando o que há para lá desse horizonte nunca antes explorado ou sequer visto por humanos. É aí que o mais estranho acontece e as descobertas são desconcertantes e medonhas.

Ao longo da narrativa existem várias menções a mitos e lendas antigos, que se vão relacionando com as descobertas das personagens e que estão relacionadas com um livro chamado Necronomicon, escrito pelo árabe louco, Abdul Alhazred, livro esse que aparece noutras histórias de Lovecraft e que foi por ele imaginado. Esse livro aborda vários temas esotéricos e fantásticos, incluindo os Antepassados, ou seja, os seres que, segundo o livro, chegaram à Terra e criaram Vida. Também se relacionam com Chtulhu, Shoggoth, Mi-Go e outros seres relacionados com estes mitos do escritor. Existem ainda outras referências a locais como Leng, que também estão presentes noutras obras de Lovecraft.

Gostei do livro. Existem vários momentos de tensão e apreensão, que fazem com que a obra tenha um cariz dinâmico. As descrições dadas pelo narrador são muito precisas e com conceitos bastante científicos, especialmente quanto às Eras Terrestres e também a conceitos físicos e geométricos. É sempre interessante ler histórias onde aparecem conceitos que foram abordados nas aulas de Ciências, ao longo da escolaridade.

Claro, gostei bastante das referências à história de Poe, que como já referi anteriormente foi uma das histórias que mais me fascinou, especialmente devido à sua estranheza e mistério na parte final.

Fiquei muito curiosa para ler outros livros do autor, principalmente para ficar a conhecer melhor os seus mitos que me parecem bastante interessantes.

Muito bom! Recomendo. 

NOTA (0 a 10): 8

domingo, 9 de março de 2014

Bibliotecas

Há muito tempo que gosto de requisitar livros na biblioteca da minha cidade. Porém, durante alguns anos andei mais afastada.  

Com os livros mais caros e com a dificuldade de encontrar alguns decidi que estava na altura de voltar a requisitar. Quando vou à biblioteca é preciso  estar com calma e disposição para procurar. É possível encontrar bons livros, encontrar o que quero e descobrir outros, desde que se esteja com calma e com disposição para andar a ver e a ler os títulos das prateleiras. 

Há duas formas de ir à biblioteca, a meu ver. Ir já com os títulos em mente e procurar apenas por esses e ir à descoberta. Pessoalmente, gosto mais de ir à descoberta, pois assim tenho a oportunidade de ficar a conhecer o que existe no espaço. Esta forma também é útil para a primeira que referi, uma vez que, sabendo o que já para ler, é mais fácil decidir previamente o que ir buscar. São, assim, formas complementares. 

Claro que há muitas outras razões para ir à biblioteca. Este espaço não se resume apenas à leitura e requisição. Há Internet, livros técnicos e de pesquisa, hora do conto, exposições. Há, hoje em dia, uma variedade de atividades à disposição de quem frequenta a biblioteca. Basta ao indivíduo escolher o que pretende fazer. Isto é bom, pois permite uma maior dinamização tanto do espaço como dos recursos e dos interesses. Torna-se também mais diferenciado.

E vocês, utilizam as bibliotecas? 

Livros da biblioteca que tenho cá em casa

sábado, 8 de março de 2014

Artur - O Ciclo Pendragon, de Stephen Lawhead

Sinopse:
Outrora existiu um rei digno desse nome. Esse rei chamou-se Artur” (...) foi o que, entre todos os reis, nobres e chefes, arrancou a Espada da Bretanha da pedra rija onde, por obra de Merlim, se achava cravada até ao punho.
Estranhas e contraditórias são as opiniões dos homens sobre esse que deteve o poder nestes míticos tempos de brumas, de magias, de paixões e violências loucuras. Para as entender, importa seguir o convite com que encerra o prólogo de Artur: “Ouvi pois, se quiserdes, a história de um verdadeiro rei”
(in Goodreads)


Opinião:
Artur é o terceiro livro do Ciclo Pendragon, de Stephen Lawhead. Foi bom grande gosto que entrei nesta história. Comecei por Taliesin, passei por Merlim e agora terminei com Artur. Existem mais três livros do autor com as personagens, mas são como que "à parte" ou derivados.

A lenda do Rei Artur, de Merlim, Morgana e todos os que a ela estão associados (Cavaleiros da Távola Redonda...) sempre foram elementos da minha curiosidade e do meu interesse. Já vi séries e filmes. É um tema que me agrada e fascina e é de onde retiro muito do meu gosto pela Idade Média e pelas histórias de cavalaria e batalhas.

Gostei muito dos dois livros anteriores, mas este tem um gosto especial. É a conclusão da trilogia. É onde aparece o Rei Artur.

Pois bem, só tenho a dizer bem deste livro. Tal como os seus antecessores, está soberbamente bem escrito. Os narradores são extraordinários, o que dá à obra uma subtileza quase que real. Existem várias batalhas, intrigas, traições, algum romance, magia, muitos mistérios, amizade, beleza. As personagens tem características distintas, fortes. Têm personalidade. Todas elas. Todas são diferentes e todas são necessárias para o enredo. E depois, há o final. Mesmo sabendo que o final seria algo deste género, não estava totalmente à espera. Há um mistério tão grande, tão forte, no final que fez com que eu ficasse a olhar para as páginas...a pensar: "Que estranho... que terá acontecido? Que raio...". Fiquei espantada, mas satisfeita. É o melhor final que esta trilogia podia ter, apesar de deixar tudo em aberto. É um final misterioso, que deixa um véu levantado, um véu que não tem resposta. É a lenda, daí não ser facto histórico. É um dos melhores finais para a história de Artur e Merlim, apesar de ser tão agridoce. Especialmente no que refere a Merlim e ao Povo das Fadas. Isso foi o que mais espanto me causou.

O livro é dividido em três partes. A primeira é narrada por Peleias, o amigo e escudeiro de Merlim. A segunda, por Bedwyr, amicíssimo de Artur, um dos membros da Távola Redonda. A terceira, por Aneirin ou Gilas. Todas as partes/narradores são diferentes. Cada narrador tem a sua personalidade. O seu foco na narrativa é diferente, apesar de o foco ser a vida de Artur, desde a sua apresentação aos reis até ao seu "final". Cada narrador dá-nos uma imagem da jornada de Artur, tendo em conta a sua própria experiência junto do rei, dos seus companheiros e adversários e dos acontecimentos. Peleias apresenta-nos um Artur mais jovem; Bedwyr, as batalhas para chegar a ser rei; e Aneirin conta o reinado de Artur.

O autor recorre quase sempre a este tipo de perspetiva. Já no primeiro livros existem dois narradores. No segundo, temos Merlim. E neste volta a haver mais do que um narrador. É uma perspetiva interessante pois é possível ter várias visões dos acontecimentos e das personagens ao longo da narrativa.

Não podia deixar de mencionar duas outras personagens que tem um grande relevo ao longo deste livro: Merlim e Morgana. Mesmo não sendo narradores, há um grande enfoque em ambos, especialmente em Merlim. Foi com grande interesse que constatei isso. São duas das minhas personagens favoritas desta lenda e foi com prazer que as vi tão relevantes. Tudo ou quase tudo está interligado com ambas, pois são dois pilares fundamentais desta história e dos acontecimentos que aconteceram naquele período de tempo e naquele contexto. São como que dois lutadores, um contra o outro. Neste livro é possível observar Morgana em ação, mostrando todo o seu poder. Gostei imenso de ver os confrontos de ambos ao longo do enredo; os seus diálogos, as suas ações. Não estava à espera do que acontece quase no final, no que diz respeito a Morgana. Fiquei agradada ao compreender os seus esquemas e as suas façanhas ao longo dos acontecimentos e, principalmente, nos acontecimentos finais. É aqui que aparece Medraut (Mordred), personagem fantástica e de extrema importância. Tem um papel de grande relevo e consegue estar à altura.

O autor consegue re-inventar as personagens da lenda muito bem. As suas personalidades não distam muito daquelas que são apresentadas em outras obras. O que é importante, pois dá coerência à história e à lenda. Também consegue com grande mestria apresentar os locais e as batalhas. A precisão, o pormenor (que não é demasiado, mas oportuno) e a narrativa em si, são fatores que criam uma leitura fluente, rica e agradável. O facto de existir muito mistério neste volume, fez com que estivesse várias vezes a pensar: "E agora?", querendo saber o que vinha a seguir. O autor permite, assim, que o leitor possa ser curioso.

Todos estes aspetos levam a uma só avaliação ou opinião. Este é um livro maravilhoso, a meu ver o grande dos três (apesar do primeiro ser muito, muito bom). É um prazer ler estes livros, pois, de facto, são obras de relevo da literatura, especialmente no que toca à lenda do Rei Artur.

Fantástico, recomendo sem reservas a todos os que gostam destes temas. 

NOTA (0 a 10): 10

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A Rapariga Que Roubava Livros, de Markus Zusak

Depois de ter visto o filme era impossível não ler o livro.

Foi com grande entusiasmo que iniciei esta leitura, uma vez que gostei muito do filme e também porque queria muito ler o livro há já algum tempo.

A Rapariga Que Roubava Livros conta a história de Liesel Meminger. A história é narrada pela Morte e apresenta um período da vida de Liesel, desde 1939 a 1945 e depois um bocadinho mais. É contada através das páginas deixadas por Liesel e pelo que o narrador conhece. Passa-se na Alemanha, numa pequena rua de Molching, a rua Himmel (Céu). Uma rua na parte pobre de Molching, onde há fome.

Liesel, quase com dez anos, é levada para a casa 33 da rua Himmel, para ser acolhida por um casal de meia idade, os Hubermann. No caminho para Molching, Liesel vê o seu irmão morrer. Iam no comboio quando tal aconteceu e é nessa primeira vez que o narrador encontra Liesel. Filha de comunistas, Liesel (e o irmão, Werner, também era para ter ido) é entregue pela mãe para ser acolhida por outras pessoas, no desejo de que tenha um futuro melhor, um futuro livre de sofrimento, pelo menos de um menor sofrimento. Apesar de Liesel compreender isso, custa-lhe acreditar e assimilar tal facto. Quem queria mal à sua família? O que poderia estar a causar aquilo?
Depois de algum tempo de adaptação, Liesel começa a amar aquele casal: Rosa e Hans. Os dois diferentes, mas com bons corações. Começa também a gostar do lugar e dos seus amigos, nomeadamente Rudy Steiner, seu vizinho da casa ao lado.
Rudy é um rapaz de cabelo cor de limão, praticamente da mesma idade de Liesel e é ele quem começa a amizade, pensando em, um dia, ter algo mais com Liesel. Pede-lhe por diversas vezes um beijo, quase sempre derivado de alguma aposta ou feito ("Que tal um beijo, Saumensch?"). Começa por defendê-la na escola e nos jogos de futebol e também por picá-la para outras atividades. Rudy é, também, um rapaz de enorme coração, pronto para tudo. É um bom ouvinte, bom amigo, bom a guardar segredos. É ainda irmão de mais cinco jovens, rapazes e raparigas, e muito bom aluno. É ainda um grande atleta, cujo sonho era ser como Jesse Owens, o que na Alemanha nazi era estranho, podendo levar a bastantes "reprimendas".
Liesel não sabia ler quando chegou à rua Himmel. Nem escrever. Roubara um livro no funeral do irmão e é a partir desse livro que Hans a ensina a ler e a escrever, adaptando a cave da casa para servir de dicionário (as paredes depressa ficam cobertas de palavras) e para servir de oficina de escrita. Liesel acaba por se apaixonar pela leitura e pela escrita e começa a roubar livros, pois não tinha outra forma de os obter, apesar de ganhar alguns no Natal.
Mais tarde, aparece na sua vida e na vida dos Hubermann um jovem judeu: Max. Aparece para ser acolhido e escondido, devido a uma promessa antiga de Hans, feita na Primeira Guerra ao pai de Max. Liesel e Max começam por criar um laço tímido, mas esse laço começa a expandir-se e a amizade nasce de forma bem bonita e ele alimenta ainda mais o amor de Liesel pela escrita e pela leitura.

A história acompanha um período da vida de Liesel, mas não só. Acompanha o início e o fim da Segunda Guerra. Acompanha algumas pessoas de uma rua pobre da Alemanha. Através da vida destas pessoas é possível seguir o decorrer da guerra e das políticas de Hitler: Juventude Hitlariana, as marchas de judeus, as perseguições, os campos de concentração, a repressão pública, a injustiça, a crueldade, a mesquinhez, a repressão da bondade nos corações e as consequências dessa bondade, acima de tudo.

Ao longo deste livro é mostrado um outro lado da Alemanha. Um lado pobre, onde muitos se veem na necessidade de roubar comida para não ter fome. Um lado em que há pessoas que estão contra Hitler, mas que não o podem mostrar, se não vão sofrer por isso. Em que há quem sofra pelo mal que o seu país faz. Claro, na panóplia de personagens, também há quem esteja de acordo com tudo o que se faz de mal, mas essa é a realidade. Há sempre os dois lados e há sempre quem apoie os dois lados. A diferença está em que, um lado pode mostrar (e deve) todo o seu esplendor e apoio e o outro só pode esconder o que sente para não sofrer por isso. Várias são as vezes e as personagens que sofrem consequências por se oporem ao sistema e isso é uma das coisas que mais dói ao ler o livro. Porque foi assim, é verídico. Apesar de ser uma história de ficção, a realidade foi assim. É assim. E há que fazer tudo para que não se torne assim novamente. Há lugares no Mundo aonde ainda é assim. Vai sempre haver, infelizmente, e o narrador confronta-se e confronta os leitores com isso: os humanos são assim.

As imagens da história são vividamente contadas e "pintadas". São narradas com pormenor e delicadeza e mostram todo o esplendor que têm para mostrar. Esta é uma história onde há esperança, pelo menos em alguns momentos, onde a guerra está sempre presente, a pairar, mas que não a mostra diretamente. É o pano de fundo, mas há mais do que isso. Há amor, amizade, esperança, palavras, livros...há roubos. Muitos tipos de roubos. Roubos de vários géneros, humanos e materiais. As palavras são outro dos panos de fundo desta história. Tudo gira à sua volta, até a guerra. O que é a guerra senão um ato nascido de palavras? Palavras proferidas por alguém, num determinado momento, num determinado lugar. Tudo é palavra. A palavra está em todo o lado. Se se disser uma palavra que não queira ser escutada, que não possa ser proferida, são logo ditas outras palavras e quem disse a palavra proibida é afastado, é punido. Este é um livro que transmite a força que as palavras têm em todo o lado e em especial na sociedade. As palavras são vida e geram vida, geram atos que as tornam vivas, que as tornam em algo bom e/ou em algo mau. Em algo que acolhe, acarinha e acalma ou em algo que destrói, mata, sufoca.

A forma como o autor compreendeu e expôs esta ideia é genial. Markus Zusak fez aqui um trabalho esplêndido e maravilhoso. Não poderia ter feito melhor, a meu ver. Consegue transmitir completamente o sentido subjacente a toda a guerra, a tudo o que aconteceu. Consegue dar um lado ingénuo da guerra, um lado em que há quem acredite na bondade dos seres humanos e tente por ao de cima essa bondade.

A parte gráfica do livro, a organização dos capítulos, títulos e discurso, é bastante boa e complementa muito bem a história em si. Faz parte da história. Existem ilustrações e histórias dentro da história principal que são uma delícia; são mágicas e belas.

É muito interessante poder acompanhar a vida destas personagens, especialmente de Liesel e Rudy, e observar a sua distância face à guerra em si, até dado momento, e depois o seu ódio para com Hitler e para com tudo o que a guerra trouxe às suas vidas. Duas crianças que passam a adolescentes e que tentam ser diferentes num sítio onde não o podiam ser. Acolher, amar e alimentar judeus, querer ser como alguém que não é ariano, mas sim negro, ter orgulho em ser bom e em ser contra o sistema, dar algo a quem não tem, mesmo quando nada se tem para dar. É uma mensagem muito bonita que é aqui passada. Uma mensagem diferente da guerra e do que ela provoca nas pessoas.

Mesmo que o final seja como é e que haja uma tremenda melancolia e tristeza nesses momentos, esta é uma história de bondade e esperança. É uma história em que o bem prevalece, apesar de tudo. Mesmo que seja um bem invisível e sussurrado. Há coragem nas palavras e elas podem muito. É só preciso usá-las para as coisas certas, para o bem.

Gostei muito do livro. É fantástico. Todos o deviam ler, pois há palavras nele inscritas que precisam de ser lidas e assimiladas. Precisam de ser postas para fora. Palavras de coragem e de História. Muito bom. Excelente. Recomendo sem reservas. 

NOTA (0 a 10): 10

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Duas Gotas de Sangue e um Corpo para a Eternidade, de Carina Portugal

Sinopse:

Em pleno séc. XVI, a Inquisição lavra as terras de Inglaterra. Numa aldeia remota, um inocente amarrado à fogueira amaldiçoa todos aqueles que o condenaram à morte. As suas palavras acordam os espíritos da Natureza, e as gémeas Alaina e Leanora pressentem-no. Contudo, o que poderão fazer duas curandeiras para os deter? Além disso, ambas escondem um segredo que as poderá matar ‒ o seu próprio amor. (in Goodreads)


Opinião:


Este é o segundo conto que leio da autora Carina Portugal. Depois de ter lido Coração de Corda, decidi participar na leitura conjunto do grupo do Fiacha no facebook. Desse modo, tive de ler o conto proposto para a atividade, que foi este, Duas Gotas de Sangue e um Corpo para a Eternidade.

Como o tema de Coração de Corda é mais do meu interesse, fui para a leitura a pensar que porventura não iria gostar tanto. Pois bem, de facto gostei mais de Coração de Corda, pelo tema e pelo ambiente em si, bem como pelas personagens. No entanto, Duas Gotas de Sangue e um Corpo para a Eternidade não se lhe fica nada atrás e em alguns momentos é lhe superior. Estou-me a referir aos momentos de suspense finais do conto. Gostei bastante do final, aliás foi a minha parte favorita, porque fez todo o sentido.

É um conto mais dark do que Coração de Corda, com um ambiente mais real na medida em que houve mesmo a Inquisição. Gostei do enredo e das personagens, bem como das descrições de sentimentos, atos e ambiente. A autora consegue descrever, sem entrar em grandes detalhes que por vezes podem tornar-se cansativos, com grande pormenor e relevo fazendo com que o leitor consiga observar e absorver o que está a ler como se ele mesmo estivesse lá dentro da história, sendo também uma personagem ... assim como o Harry no Pensatório do Dumbledore ou no Diário do Tom Riddle, sabem o que quero dizer!

A coerência histórica também está bastante bem relacionada com o contexto do conto. Era assim naquele tempo e não vale a pena tentar mascarar com meias palavras o que aconteceu, mas sim fazer melhor e não repetir. O desenlace foi bem resolvido, da melhor forma aliás, tendo em conta todo o contexto e características das personagens e do ambiente mágico que a autora criou. Tem ainda momentos com bastante emoção, o que é interessante.

Gostei muito e recomendo, pois tem todos os ingredientes que fazem com que um conto seja bom! 

NOTA (0 a 10): 8