terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Bizarro Incidente do Tempo Roubado, de Rachel Joyce

Sinopse:

Em 1972, foram adicionados ao tempo dois segundos para compensar o movimento de rotação da Terra. Byron Hemmings está fascinado por este fenómeno. Nesse mesmo ano, envolve-se num acidente de consequências devastadoras.

Byron e James Lowe, o seu melhor amigo, estão convencidos de que a culpa foi daqueles dois segundos. Assim, decidem iniciar uma investigação para apurar as verdadeiras razões de tal acidente. Mas desafiar o destino pode ser perigoso...

Rachel Joyce confirma o seu talento de grande romancista, com este retrato de uma família levada ao desespero pela obsessão de uma criança. (in Goodreads)



Opinião:

Este é um livro muito interessante e bem trabalhado. O que parece ser uma simples história sobre dois amigos na casa dos dez anos, acaba por tornar-se nalgo muito mais denso e complexo, com contornos bastante sérios. A história é narrada de uma forma bastante engraçada e descontraída, o que provoca ainda mais a subtil tristeza e complexidade da história. Com personagens carismáticas e bem construídas, este livro lê-se de uma forna interessante, exigente por vezes, e não nos deixa indiferentes. Esta divido entre passado e presente e essa divisão está muito bem conseguida, tendo como grande mérito dar solidez é corpo à história.

Byron e James andam numa escola particular, são ricos e estão protegidos de tudo. Um tanto diferentes de outros colegas, ambos sãos os melhores amigos. James, o mais inteligente dos dois, é a âncora de Byron e está sempre disposto a ajudá-lo. Quando, no início de 1972, lhe diz que aquele ano teria mais dois segundos, Byron entra em pânico, temendo esse tempo a mais e o que tal provocaria ao mundo no geral. 

Toda a história nasce em torno deste medo de Byron, que acaba por desencadear os mais graves acontecimentos ao longo da narrativa. A forma como a história roda e roda em torno dos dois segundos e dos medos de Byron e James acaba por dar a forma ao enredo e por ser o contexto todo da obra.  Um medo de nada, de uma criança, acaba por provocar danos irreparáveis nas vidas de todos ao redor de Byron. Mesmo que sejam, primeiramente, atitudes e acontecimentos pouco preocupantes, acabam por se transformar num mar revolto, onde James, Byron e Diana, a mãe de Byron, se veem ligados de uma forma muito unida. 

Existem vários temas abordados na história. Desde as diferenças sociais e económicas, até a questões psicológicas muito sérias, passando pela amizade e o preconceito, as personagens dão à história um contexto rico em desenvolvimentos e temas. O preconceito, principalmente, acaba por estar na base de muitas das atitudes das personagens, bem como o medo, que é gerado pelo preconceito, que também é gerado pelo medo, como um círculo. Preconceitos sociais, económicos, físicos, psíquicos são os principais e estão muito bem trabalhados, mesmo que nem sempre sejam logo notados à primeira vista. Tudo é tão subtil que nada está dito expressamente.  

Todas as personagens são interessantes e complexas, se bem que o grande trunfo acabam por não ser tanto as personagens mas as suas ações e sentimentos. O que gira em torno delas é que faz com que a história aconteça. 

Não é uma leitura fácil, pelo menos a partir do meio do livro. Inicialmente é como que uma história engraçada com um contexto original. No entanto, a dado momento o que era engraçado e original passa a ser muito sério e acontece uma espécie de decadência das personagens. Não que percam interesse, mas que elas próprias, nas suas realidades, acabam por desfazer-se e modificar-se tanto, mas tanto, que a decadência é grande. O que era belo torna-se feio, o que era ativo, passivo e até apático. As personagens sofrem imensas transformações ao longo da história, o que faz com que a história siga o seu percurso. 

A escrita é muito bela e original. A autora consegue criar imagens visuais muito fortes e marcantes através do uso de determinados vocábulos, expressamente usados de modo a criar tais imagens. Os significados das ações, descrições e acontecimentos também estão muito bem descritos e apresentados. 

Em suma, gostei bastante da história e recomendo-a a todos os que gostam de um bom livro. 

NOTA (0 a 10): 9

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Os Hóspedes, de Sarah Waters

Sinopse:

1922. Londres vive dias de tensão.

Numa casa de gente bem-nascida, no sul da cidade, cujos habitantes ainda não recuperaram das perdas devastadoras da Primeira Guerra Mundial, a vida está prestes a modificar-se. 

A senhora Wray, e a sua filha Frances - uma mulher com um passado interessante a caminho de se tornar uma solteirona - vêem-se obrigadas a alugar quartos. 

A chegada de Lilian e Leonard Barber, um jovem casal da "classe média", traz uma série de perturbações: a música do gramofone, o colorido, o divertimento. As portas abertas permitem a Frances conhecer os hábitos dos recém-chegados. 

À medida que ela e Lilian são empurradas para uma amizade inesperada, as lealdades começam a mudar. Confessam-se segredos e admitem-se desejos perigosos; a mais vulgar das vidas pode explodir de paixão e drama. 

A autora de Afinidade e Falsas Aparências, entre outros, surpreende-nos, uma vez mais, com esta história de amor que é também a história de um crime.

Esta é Sarah Waters no seu melhor: tensão permanente, ternura verdadeira, personagens autênticos e surpresas constantes. (in Goodreads)



Opinião;

Desde que li O Indesejado que fiquei fascinada pela mestria da autora. Mestria a todos os níveis necessários e desejados para que o livro seja uma obra prima...uma obra de arte. Assim, tendo gostado muitíssimo d' O Indesejado, esperei atentamente pela edição portuguesa de The Paying Guests ou Os Hóspedes. Quero agradecer à Editora por me ter dado a oportunidade de ler este maravilhoso livro e por me ter dado a conhecer esta autora, aquando da leitura do já mencionado O Indesejado

Neste livro, a autora dá-nos a conhecer personagens muito interessantes e complexas, envoltas numa trama quotidiana, mas cujo centro é bem denso e intrincado. 

Miss Frances é uma mulher forte, autónoma e senhora de si mesma. Quando põe a sua casa senhorial com para alugar uma parte da casa, não estava à espera de tanta diferença à sua volta, uma vez que o casal que para lá vai morar é bastante diferente dela e de sua mãe: um autêntico casal dos anos 20 ou seja, despreocupado, com algum sucesso e que fingem euforia para não mostrar os seus reais sentimentos e realidades. Frances acaba por ficar inebriada pela extraordinária Mrs. Lilian e um tanto na dúvida quanto a Leonard. E, à medida, que se vão conhecendo, vai crescendo uma amizade que é mais do que aquilo que parece...uma amizade pouco convencional para a época e que vai acabar por influenciar toda a história. 

Gostei muito da forma como a autora introduz a história e as personagens. Aparentemente, tudo é normal e do dia a dia. Nada é estranho ou está fora dos padrões de normalidade de uma vida quotidiana da classe média alta inglesa, a viver algumas dificuldades no pós-guerra. As tarefas do dia a dia são descritas e tratadas de uma forma bastante normal, mas que acaba por ter a sua própria melodia e a magia. São descritas e elaboradas de forma natural, mas têm no seu teor uma certa ironia muito bem disfarçada. 

Tal também está presente nas relações entre as personagens. Mais uma vez, é-nos apresentada um complexa rede de emoções e relações entre as personagens. Não que sejam muitas personagens! Nada disso. Aliás, são bastante poucas. Mas isso mesmo provoca uma enorme tensão entre elas, tensão essa que está tão vincada, tão vincada que é possível sentir as vibrações de tal tensão. Existe uma multitude de emoções vividas pelas personagens ao longo  que despoletam as mais diferentes ações e reações. O que parece ser algo de pouco acaba por ser como que uma onda gigante na teia que é o enredo onde as personagens habitam. A autora é, de facto, uma mestre nesta arte. 

Mas é também uma mestre em manipular as personagens, o enredo e o leitor. Apesar de a história ser um pouco previsível (coisa que O Indesejado não é!), até se chegar a tal momento tudo é imprevisível e estonteante. O que começa por ser calmo e trivial, transforma-se nalgo revolto e violento. 

As descrições são de grande beleza, beleza essa que não tem nada de grandioso, mas sim banal. E nessa sua banalidade mostra-nos a sua subtil beleza, a beleza do dia a dia e das tarefas rotineiras. É de facto muito inteligente. 

Mais uma vez fiquei rendida à autora e espero poder ler mais das suas obras, porque são maravilhosas e cada uma traz sempre momentos de grande emoção e admiração. Recomendo vivamente a todos os que gostam de uma história inteligente e poderosa, onde a amizade e o romance estão por trás de momentos muito marcantes. Uma excelente aposta da editora! 

NOTA (0 a 10): 9

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Top 2016

Num ano de várias leituras, li excelentes livros, descobri novos mundos e novas personagens cheias de histórias e mistérios, li outros menos interessantes, e li alguns bem divertidos e engraçados. 

Voltei a encontrar algumas das minhas personagens favoritas e voltei a entrar em algumas das minhas histórias favoritas. Também encontrei autores que não conhecia e com os quais fiquei fascinadas, como Julia Quinn, Mark Lawrence e Elena Ferrante. 

É sempre difícil fazer um top com apenas três lugares quando existem vários candidatos ao pódio, mas aqui está. 


1º Lugar 


Fool's Assassin, de Robin Hobb






2º Lugar

O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón







3º Lugar 

Longe da Multidão, de Thomas Hardy 




E vocês? Quais as vossas leituras favoritas de 2016? E quais as que têm em vista para este ano?

domingo, 1 de janeiro de 2017

Rogue One - Uma História de Star Wars

Fui ver o filme logo na semana de estreia, mas só agora venho fazer o post sobre ele. 

Para contextualizar a história, esta situa-se entre A Vingança dos Sith e Uma Nova Esperança e tem um leque de personagens novas e únicas, que fazem as delicias de todos os fãs da saga e daqueles que poderão estar a ver um filme da saga pela primeira vez.



A história centra-se em Jyn Erso (Felicity Jones), desde pequenina. Filha de Galen, um cientista famoso, e Lyra, vê a mãe ser morta por Orson Krennic e o pai ser levado pelo mesmo, para trabalhar numa missão secreta em nome da República da Galáxia. Sozinha, Jyn esconde-se num buraco e espera por alguém que a ajude: Saw Gerrera, um chefe de uma das facções dos Rebeldes. 

Anos passam e Jyn cresce, torna-se uma bandida aos olhos da República, é presa. Quando vai num dos transportes da prisão, aparece um grupo de Rebeldes que têm como missão raptá-la para que ela os ajude a encontrar Saw Gerrera, em Jedha. Tudo isto porque um piloto da República conseguiu fugir com uma missão de Galen e tem de ser encontrado pelos Rebeldes. Depois de um ataque da Estrela da Morte a Jedha, Jyn junta-se aos Rebeldes e, com o Capitão Cassian Andor e o robô K - 2SO, segue numa missão para descobrir o seu pai e para descobrir mais sobre a arma por ele inventada.



Depois de vários filmes da saga, posso dizer que, para mim, este é um dos melhores. Pode parecer, à primeira vista, menor ou menos interessante por não ter as personagens principais (ou a maior parte delas), mas é um dos melhores. A puxar mais a trilogia original, com personagens mais complexas e duras e uma história de guerra e salvação, Rogue One consegue trazer à tona a magia dos primeiros filmes da saga, aquela originalidade que parece que se foi perdendo com a segunda trilogia (episódios I, II e III). É o elo de ligação que faltava entre uma trilogia e a outra e foi conseguido extremamente bem. 


Os atores estão excelentes. Todos eles. Felicity Jones está espetacular, bastante fria e por vezes dura, mas é a força motriz de todo o elenco. Deu a Jyn tudo o que a personagem merecia, porque é uma excelente personagem. Diego Luna também está excelente no papel de Capitão Cassian, que vai modificando bastante ao longo do filme, sendo uma das personagens mais complexas e interessantes. Gostei imenso do robô K - 2SO, cheio de humor e assertividade. Também gostei bastante de Ben Mendelsohn como Orson Krennic, um vilão interessante, com objetivos claros. 

A história em si é poderosa. No fundo, este filme introduz como é que, anos mais tarde, foi possível destruir a Estrela da Morte e, assim, por fim ao terror de tal arma destruidora de planetas e cidades. Com uma história de libertação e salvação poderosa e muita ação desde o início até ao final, Rogue One é maravilhoso. Estão de volta algumas das personagens melhores da saga, como Darth Vader, que está em grande estilo.



A banda sonora é maravilhosa, potente e forte, com belos twists dos outros filmes em momentos chave e com grande intensidade. Tal já esperava, uma vez que as bandas sonoras de Star Wars são sempre emblemáticas e excelentes. 

Em relação aos efeitos e tudo isso, só tenho a dizer que estão prefeitos, bastante realistas e completos, contribuindo para o excelente desempenho dos atores e para toda a história em si.



Um filme forte, com uma história forte e personagens fantásticas. Surpreendeu-me imenso e fiquei a suspirar por mais Star Wars e a querer que houvesse mais filmes com estas personagens. Sem dúvida, um dos melhores filmes da saga. Um filme grandioso, que enaltece a honra e a liberdade.

Recomendo vivamente! 

NOTA (0 a 10): 10 

Magisterium - A Prova do Ferro, de Cassandra Clare e Holly Black

Sinopse:

Primeiro livro da saga Magisterium com 5 volumes.

A maior parte dos miúdos faria qualquer coisa para passar na Prova do Ferro. Mas não Callum Hunt. O pai ensinou-o a desconfiar da magia e explicou-lhe que o Magisterium, a escola onde os aprendizes de Magos são treinados, é uma armadilha fatal. Callum tenta fazer o seu melhor para ser o pior de todos os candidatos - mas não consegue falhar. Superada a Prova do Ferro, não lhe resta outra opção, senão entrar para o primeiro de cinco anos de aprendizagem no Magisterium. 

A Prova do Ferro foi apenas o início, porque o verdadeiro teste anida está para vir... (in Goodreads)



Opinião:

Já tinha este livro na estante há algum tempo para ler e, finalmente, decidi pegar nele. Escrito por duas autoras de quem gosto bastante, esperava muito do livro. Porém, não foi nada do que estava à espera. 

No fundo, esperava que fosse algo parecido com Harry Potter, porque já tinha lido algumas opiniões e pela própria sinopse é possível fazer algumas comparações. No entanto, não foi o primeiro livro parecido com Harry Potter, mas foi o primeiro de que não gostei. Tem momentos interessantes, tais como o começo e algumas partes finais, em especial a revelação mais importante do livro, que já se estava a ver qual era, mas não me encheu as medidas, por assim dizer. Talvez por esperar mais das autoras, talvez por gostar tanto de Harry Potter e d' A Tapeçaria (Henry H. Neff). O que é facto é que esperava mais da história e das personagens.

Do trio, não posso dizer que tenha gostado de alguma personagem em especial. Callum é engraçado e tem piada, mas às vezes parece um bocado forçado nas suas piadas. Aeron é, sem dúvida, o mais misterioso e interessante e foi o que mais me atraiu. Quanto a Tamara, não posso dizer que tenha ficado fã. Em relação às outras personagens, são interessantes e trazem consistência ao enredo, sendo para isso indispensáveis e muito bem conseguidas. 

No que diz respeito ao enredo, achei-o bastante interessante e forte, mas pouco explorado, ou explorado pela metade. A história merecia mais. Merecia um trabalho maior, mais elaborada, e merecia especialmente personagens melhores, porque a história é muito boa, a sua premissa é forte. Gostei da forma como a magia aparece, se bem que pudesse estar melhor. Pareceu-me um tanto infantil. Sei que o livro é considerado juvenil, mas não faz mal aumentar a fasquia das histórias, mesmo sendo para jovens, aliás, é na juventude que as histórias devem começar logo a ter bons enredos, complexos e fortes, para estimular as mentes e agarrá-las à Literatura. Tendo em conta outras partes da história, bastante obscuras, a magia podia ter sido mais complexa. 

Quanto à escrita, também a achei um tanto simples e descomplicada. Tendo em conta que, principalmente na trilogia As Origens (Cassandra Clare) há uma beleza intrínseca à escrita, ao próprio encadeamento das palavras e das frases, também esperava encontrar isso aqui. Mas é tão fluída que promove uma leitura rápida e de grande fluência.

No entanto, gostei da história. Não existem apenas pontos menos bons, há também algo muito bom, que é a trama e a premissa da história. Talvez a história melhore nos próximos volumes, o que eu espero que aconteça, pois fiquei curiosa para saber mais sobre esta história. Gostei de como a trama foi conduzida e como a linha narrativa evoluiu. No fundo, o que não gostei tanto foi mesmo as personagens. Espero mesmo que melhorem, que amadureçam e que se tornem mais complexas. 

Em suma, recomendo a quem gosta de ler livros juvenis e a quem gosta de Cassandra Clare e Holly Black. Espero que a história e, principalmente, as personagens melhorem nos próximos livros. 

NOTA (0 a 10): 6

sábado, 24 de dezembro de 2016

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón

Sinopse:

Não perca o final da saga iniciada com A Sombra do Vento.

Na Barcelona dos fins dos anos de 1950, Daniel Sempere já não é aquele menino que descobriu um livro que havia de lhe mudar a vida entre os corredores do Cemitério dos Livros Esquecidos. O mistério da morte da mãe, Isabella, abriu-lhe um abismo na alma, do qual a mulher Bea e o fiel amigo Fermín tentam salvá-lo.

Quando Daniel acredita que está a um passo de resolver o enigma, uma conjura muito mais profunda e obscura do que jamais poderia imaginar planta a sua rede das entranhas do Regime. É quando aparece Alicia Gris, uma alma nascida das sombras da guerra, para os conduzir ao coração das trevas e revelar a história secreta da família.... embora a um preço terrível. 

O Labirinto dos Espíritos é uma história eletrizante de paixões, intrigas e aventuras. Através das suas páginas chegaremos ao grande final da saga iniciada com A Sombra do Vento, que alcança aqui toda a sua intensidade, desenhando uma grande homenagem ao mundo dos livros, à arte de narrar histórias e ao vínculo mágico entre a literatura e a vida. (in Goodreads)




Opinião:

Depois de alguns anos à espera deste livro, assim que saiu agarrei-me a ele e só o larguei quando terminou. Não esperava outra coisa quando o comecei, sabia que ia ficar sedenta das palavras magicamente elaboradas do autor e confesso que cheguei a atrasar a leitura para poder saborear mais um pouco. 

É o sexto livro que leio do autor e é sempre como se fosse a primeira vez; é sempre algo mágico e rico. E é uma experiência que me delicia. 

Sendo A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e O Prisioneiro do Céu livros que me marcaram e que me deixaram em suspenso, esperava muito deste volume. E não fiquei desiludida. 

Este livro pega na história onde O Prisioneiro do Céu terminou. O mistério continua e muito há para descobrir. Daniel é pai de um menino, Júlian, Fermín continua com as suas atividades e mistérios, mas algo muito mais negro e perigoso entra em cena quando o ministro e ex-diretor da prisão de Montjuic desaparece. Rodeado de um mistério que envolve algo muito grande e perigoso, entra em cena Alicia Gris, uma jovem de profissão um tanto estranha: trabalha para uma espécie de organização-fantasma que ajuda a polícia a resolver casos muito difíceis, entre outros trabalhos arriscados. 

Numa trama a que Zafón nos foi habituando, todas as personagens têm uma ligação, todos os momentos são parte de um puzzle gigante e bem construído, onde cada momento encaixa na perfeição. 

Senti novamente uma grande afinidade com as personagens, todas elas. Uma vez que a história vai sendo contada através de várias personagens e dos seus olhares (apesar de só uma parte ser na primeira pessoa), é possível observar como a teia está interligada e tecida. As pontas, que parecem mais desfeitas do que nunca, vão se aproximando, aproximando...para revelar algo que é acaba por surpreender, e que já vou referir mais à frente. 

Em relação às personagens, devo referir que todas, sem exceção, estão soberbas. Desde as maiores até às menores, todas elas fazem o seu papel na perfeição, com propósitos bem definidos e distintos. Gostei de todas elas e da forma como apareceram na história e deixaram a sua marca. Daniel continua a ser aquele jovem amigável e simpático, se bem que muito mais complexo e que acaba por se mostrar bastante obscuro a dado momento. Fermín continua a ser um mistério e a personagem mais carismática da saga. Sempre pronto a ajudar e sempre com algo a dizer. Beatriz também está muito bem...mas claro, uma das personagens deste livro, aquela que tem mais destaque, é Alicia. Complexa, obscura e sedenta de conhecimento sobre tudo o que a rodeia, ela é a agente secreta perfeita. Com a ajuda do agente da polícia Vargas, fazem uma excelente dupla a resolver o mistério do desaparecimento de Valls, personagem que se vai tornando mais horripilante à medida que a história avança. 

Mas há muitas mais personagens...personagens que regressam, personagens que aparecem só por momentos, personagens que aparecem apenas em conversas entre outras ou por cartas, mas que são o eixo central de toda a história. Todas elas são únicas e especiais e eu gostei de todas. 

Quanto à narrativa, há tanto para dizer...tanto para contar e para comentar... mas não quero adiantar-me muito pois o mais certo seria começar a contar spoilers e este é aquele tipo de história que merece que se vá sendo surpreendido a todo o instante, sem spoilers. Fiz um esforço por não ir à frente e confirmar algumas das minhas teorias, mas lá consegui. Contudo, posso dizer aquilo que senti. 

A história está perfeita. Além do facto de tudo encaixar, a trama está riquíssima. É poderosa, complexa e surpreendente simples. O que parece tão complicado a certa altura e em livros anteriores, acaba por ser algo tão simples que surpreende por si só. Todo o passado acaba por vir à tona e muitos mistérios dos livros anteriores são trazidos a lume, se bem que muito fique nas entrelinhas, o que também me agradou bastante, uma vez que fixa a ideia de mistério que sempre me prendeu à obra. 

Poder, política, corrupção, um enredo sórdido e triste, que no seu âmago leva a uma pequena história, a uma história simples, de amor, amizade e lealdade. No meio de uma trama gigante e rocambolesca, narrada com mestria, está o amor, simples e despido de complexos. É como o desfolhar de uma rosa. As pétalas vão saindo, até mostrar o centro, o motivo de toda a história, de todos os mistérios desvendados e que ficam por desvendar. Porque, afinal, o que move tudo e todos é o amor. O amor em todos os sentidos, seja de que forma for, seja por quem ou pelo que for. Por uma pessoa, pelo poder, pelo prestigio. 

E não é só a história em si que extraordinária e perfeita. É também a forma como é contada. O jogo de palavras, a construção das frases, dos parágrafos... há um motivo para cada palavra estar onde está. O constrói cada frase com o propósito de criar algo único e de conduzir o leitor pelo labirinto. Assim, não se é apenas conduzido pelas personagens e pela história, como pela própria linguagem. A linguagem é ela própria personagem, por assim dizer. Aliás, é como se ela fosse a grande narradora. Como se a história fosse narrada pelas próprias palavras, como se elas se escrevessem a si mesmas e criassem elas mesmas a história. 

É uma história sobre histórias, sobre livros, sobre a arte da escrita e da leitura, sobre o que estas duas artes nos dão e nos tiram. É uma lição de como contar um história e de como apreciá-la e vivê-la. É uma história comovente, grandiosa e inesquecível, que deixa algo em nós e que também fica com algo nosso. Aliás, isso mesmo é descrito a dado momento, o que promove a forma como a escrita faz parte da própria história. 

Zafón volta a surpreender, volta a dar-nos uma maravilhosa história de amor e luta. Luta pela Vida, luta pela justiça, por algo melhor. Por mais violência e descrições cruas e negras que haja, por mais nojeira e asco que apareça, está lá o amor e amizade para as vencer. 

E, mais uma vez, leva-nos por uma brilhante visita a Barcelona. 

Assim, recomendo vivamente a todos os leitores que gostam de histórias poderosas, complexas, densas, misteriosas e belas. É, sem dúvida, uma viagem única e que nos arrebata. Todos devem ler estas histórias, pois são preciosas e mágicas.

NOTA (0 a 10): 10